Apesar de ainda existir em algumas cabeças a ideia de que a arte urbana é vandalismo ou uma expressão artística de menor valor, a verdade é que a maioria das pessoas já se deixa tocar e impressionar por este género de arte, conseguindo distingui-la bem do puro (e mau) vandalismo.

Quem nunca observou com cuidado um grande mural pintado num edifício ou guardou uma frase escrita naquela esquina a caminho do trabalho? Esse é um dos trunfos da arte urbana: passar mensagens e fazer-nos pensar. Quer seja em obras de maiores dimensões ou em pequenos stencils espalhados pela cidade.

De Inglaterra para o mundo, Banksy conseguiu pôr a arte urbana ao mesmo nível das obras mais conceituadas, presentes nas galerias, museus e leilões. Vários dos seus trabalhos foram vendidos por quase meio milhão de dólares. Com os seus desenhos provocativos e inteligentes, Banksy marca uma viragem na percepção que temos da arte urbana. Ao mesmo tempo, o artista continua a manter o anonimato, o que ajuda a adensar o mistério e a curiosidade sobre a sua identidade e, por conseguinte, as suas obras.

Por cá, os artistas que fazem das paredes e muros as suas telas têm cada vez mais visibilidade e cidades como Lisboa e Porto têm apostado numa crescente política “amiga” da arte urbana. A identidade de uma cidade também se desenha nas suas paredes. E as histórias que lá vão sendo contadas chamam a atenção de locais e turistas.

Em Lisboa, a arte urbana ganhou um novo impulso no início desta década com o programa Crono. Com o objetivo de dar uma nova a cara a zonas da cidade que estavam degradadas, artistas de renome, nacionais e internacionais, intervieram em vários edifícios. Algumas das obras deste projeto, pintadas na Avenida Fontes Pereira de Melo pelos artistas brasileiros Os Gémeos e pelo italiano Blu, ganharam visibilidade mundial através de fotos partilhadas na internet e entraram para o
top 10 do The Guardian, entre os melhores trabalhos de street artdo mundo.

Desde então, a arte urbana vem conquistando os lisboetas e não só. Prova disso, é o surgimento de empresas e serviços que organizam visitas guiadas às várias obras da capital. Aí, é possível ver trabalhos pintados em zonas menos turísticas e também conhecer um pouco da história do artista e da própria obra.

300 quilómetros mais acima, o Porto vive um período fértil neste campo. Após anos mais complicados, em que a câmara tanto apagava trabalhos de artistas de renome, como rabiscos sem valor, a cidade decidiu, agora, abraçar esta manifestação artística e facilitar o processo para quem queira expressar-se numa parede. O primeiro mural legal de arte urbana, junto à estação de metro da Trindade, pintado no ano passado pelos artistas Hazul e MrDheo, marca esta nova fase.

Depois disso, outras ações têm acontecido. Desde o primeiro festival de arte urbana e ilustração da cidade, o Push Porto, até ao mais recente projeto Locomotiva, que apoiou várias intervenções de arte urbana, entre elas o maior painel comunitário de azulejos da cidade – ideia do artista Miguel Januário, criador do maismenos.

São 3.300 azulejos, pintados por portuenses e turistas, de várias idades e quadrantes sociais, que foram afixados num edifício na Rua da Madeira, junto à estação de São Bento. O projeto foi o culminar de um trabalho de meses e tenta responder à pergunta “Quem és, Porto?”. E se os turistas interessam-se cada vez mais pelas histórias que contam as nossas paredes, também nós podemos encontrar respostas sobre a nossa identidade urbana nestas mesmas paredes. Basta olhar com cuidado e parar para pensar.

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