Um corpo orgânico. Serpenteando as árvores do parque de Serralves, no Porto, Álvaro Siza voltou a pegar nos esquissos do museu para o alargar. Não quis meramente um anexo, mas uma nova ala para a obra que abriu em 1999. As linhas puras do arquiteto ganham uma abertura naturalista, movendo-se com as circunstâncias da paisagem, onde o novo bloco vai assentar, reduzindo o impacto ao essencial, mesmo a poente do que já lá estava.

A necessidade de crescer era evidente. Hoje, as exposições no museu acontecem em todo o lado, da biblioteca ao foyer do auditório. Assim, num museu lotado, esta ampliação permite aumentar a área expositiva em 40%, crescendo para uma clareira pré-existente, entre o edifício do museu (também de Álvaro Siza) e a rua D. João de Castro. Liga-se ao corpo já existente através de uma ponte, um segmento elevado que permite manter o caminho que já existe e aterrar no piso 0 do museu (no bloco novo, haverá um piso acima desta ponte, e um piso abaixo).

Os dois pisos de exposição têm um pé direito de cinco metros e a cave três. Num dos topos, um bloco fará a ligação entre os pisos de uma maneira que pode ser lida de várias formas: com um pé direito duplo, permite, por um lado, receber obras de dimensões menos comuns; por outro, serve de transição entre exposições, ou de pausa na continuidade de um mesmo programa.

O resultado final é, então, fruto de "uma vigilância muito apertada — porque este [o corpo original, de 1999] é um edifício classificado e o jardim também —, portanto, ou se faz essa ginástica com muito cuidado, ou o projeto não é aprovado. É uma dificuldade bem vinda, como quase sempre acontece com as dificuldades", explicou o arquiteto de 88 anos, na apresentação do projeto, esta quinta-feira no Porto.

O terreno "obriga a resolver de uma maneira caracterizada em relação ao contexto do edifício", acrescentou. "Os edifícios — a cidade — estão referidos a um contexto. E reagem a um contexto de formas diferentes, mas reagem sempre: ou por aproximação, ou por posição, consoante o significado na vida da cidade da intervenção em questão. Essa influência há sempre, mas depois há muitas outras — porque o mundo é grande e há muita influência que não vem do contexto, vem às vezes de muito longe, com a globalização que existe também neste aspeto da arte, se é que a arquitetura é uma arte."

Com uma cobertura verde, o novo edifício, cuja forma se assemelha a um segmento de reta quebrado a meio por uma flexão a caminho do edifício original, responde ao objetivo primordial de preservar o parque. Ana Pinho, a presidente da fundação, reforça o impacto da obra no Parque de Serralves foi uma das grandes preocupações.

Em cima, o edifício atual (de 1999); abaixo, ligado por uma ponte, o novo corpo, o Edifício Poente. créditos: DR / SERRALVES

A história da relação de Álvaro Siza com Serralves é antiga e contínua. O arquiteto desenhou o edifício inicial e tratou da obra recente que deu origem à Casa do Cinema. Agora, voltou. "Aquilo em que pensei, no imediato, foi que continuam a confiar em — Serralves, pelo menos", disse Álvaro Siza. "A seguir, lancei-me ao trabalho juntamente com a equipa."

Não estava à espera de voltar: "Não pensei nisso. Pensei mais, 'já tive esta bela experiência, estou muito grato, e agora se calhar nunca mais me chamam' — e aconteceu de forma diferente."

O Edifício Poente é, defende Ana Pinho, fundamental para afirmar Serralves. A área expositora cresce 40%, com novas salas de exposição, interligadas e com flexibilidade suficiente para desaparecerem (as salas interiores terão paredes não estruturais, que podem desaparecer. Também existem espaços pensados para servir de receção e entrada formal no novo edifício, caso haja a necessidade de o pôr a funcionar de forma autónoma).

“Nos últimos anos temos vindo a reforçar muito o trabalho em volta da Coleção de Serralves e temos vindo conseguir a atração de vários depósitos e coleções e a coleção é sem dúvida a alma do museu e precisa de espaço para estar exposta em permanência”, disse Ana Pinho.

Com dois novos pisos de exposição e uma cave para as reservas, o total da área expositiva do Museu de Arte Contemporânea de Serralves salta dos 4.484,90 metros quadrados para os 6.280.

O concurso público para a ampliação foi publicado em Diário da República, na segunda-feira, tendo estipulado um valor-base de 8,2 milhões de euros. O projeto, cujo financiamento comunitário no valor de quatro milhões de euros foi aprovado há duas semanas, deverá estar concluído até junho de 2023.

A iniciativa foi reconhecida como de “utilidade pública”, nos termos do despacho conjunto emitido pela ministra da Cultura e pelo secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, a 28 de abril de 2021. No entanto, os governantes determinaram “condicionar o abate das azinheiras na área do empreendimento identificado ao licenciamento da obra pela Câmara Municipal do Porto, bem como a aprovação e implementação do projeto de compensação, e respetivo plano de gestão”.

O projeto de ampliação do Museu de Serralves e a eventual “destruição das áreas verdes” envolventes motivou o Núcleo de Defesa do Meio Ambiente de Lordelo do Ouro-Grupo Ecológico (NDMALO-GE) a exigir que o projeto de alargamento fosse tornado público. No total, 13 árvores terão de ser transplantadas (e não abatidas, explicou Ana Pinho).

Esta ampliação vai criar ainda espaço para mostrar de forma mais permanente a coleção de arquitetura (que inclui espólio do próprio Álvaro Siza). E "isso é bom", defende o arquiteto. "Já desde há algum tempo que Serralves, a Fundação de Serralves, achou por bem considerar como parte importante, integrante da sua coleção a arquitetura e espero que isso se desenvolva, porque a maioria dos museus de arte contemporânea têm um setor dedicado à arquitetura. É muito importante chamar a atenção para a importância da arquitetura, a importância para o conforto das pessoas; para a boa organização da cidade, de uma maneira precisa, que contrarie aquela ideia de que a arquitetura é um capricho de gente com dinheiro, elitista, e por aí fora."

"Não é. E desde sempre a arquitetura — e em particular a arquitetura a que chamamos moderna, a partir dos anos 1920/30, é um serviço destinado a toda a população; a arquitetura não é um capricho para ricos, é um serviço essencial para o bem-estar das populações."

"Há assim umas ideias que se fixam" sobre a obra de Álvaro Siza. Ora é a falta de janelas — o arquiteto admite que neste Edifício Poente sejam poucas, mas as que existem estão em espaços estratégicos, a comunicar com o jardim que envolve a obra. Ligado ao edifício original por uma galeria elevada, o novo corpo comunica com o existente, mantendo, contudo, a possibilidade de ser autónomo.

É assim, um organismo, uma forma orgânica, que se parte, que se articula em torno das árvores — ainda assim, como referido, 13 terão de sair. "Aquelas articulações não são um capricho dos projetistas", explica Álvaro Siza. São antes as marcas do terreno no edifício, são as dificuldades benéficas.

"A própria ligação ajuda a fazer um todo dos dois edifícios", explicou Álvaro Siza. "O que eu não queria era ter este museu e depois um anexo, quis fazer um todo dos dois. Depois, os cuidados com as árvores, para não levar à destruição de muitas outras por proximidade é que definiu o caráter do edifício, essa articulação."

Álvaro Siza é o arquiteto arquétipo. Inspirador da Escola do Porto, tem no traço a mesma austeridade que uma Agustina tinha nas letras. É uma dessas poucas personagens cujo nome começa e acaba no Norte — mas que são muito além de um território. Álvaro Siza é ele mesmo e nesse ele que é, reflete a cidade do Porto, território nórdico deixado à beira do Atlântico.

Por ser arte, a arquitetura não é consensual. E o Porto vai-se lembrando dos jardins que Álvaro Siza e Souto Moura fizeram desaparecer nos Aliados. "Ouvimos as piores coisas que se possam imaginar, curiosas, porque a obra estava tapada, a obra não se via. No dia em que tiraram os taipais, fui lá de manhã cedo, clandestinamente, com medo de apanhar com alguma pedra, e estavam só duas pessoas e tal a olhar. Eu fui ver e ouvi um deles dizer para o outro: 'afinal, não é tão feio como diziam' — e pronto, voltei para carro, voltei para o escritório."

Questionado sobre de que maneira o novo edifício vai fazer com que se diga "isto é um Álvaro Siza", o arquiteto disse, despachado: "se calhar já não vou ter tempo para ouvir isso". Parou depois a pensar um pouco, com as palavras a ressoar no estômago do Museu de Serralves. "A construção de um edifício leva uns anos, não é? Portanto, não sei", acrescentou.

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