Uma história de amor, cujo embrião foi germinado em Lisboa, está na origem de um livro que tem a cidade de Hamburgo, na Alemanha, como epicentro de uma narrativa que discorre sobre homicídios perpetrados contra refugiados oriundos de países muçulmanos.

“Crimes de Hamburgo”, marca a estreia de Francisco Carvalho na edição. Advogado de profissão, habituado à heterogeneidade do verbo, escorreu, anteriormente, contos de diferentes géneros literários. Da comédia ao terror, passando pelo drama, aventurou-se num romance que relata “24 histórias passadas em Lisboa”, um projeto que, no entanto, “ainda não foi publicado e onde ganhei mão para escrever este livro”, confidencia Francisco Carvalho, em conversa com o SAPO24.

O produto inacabado sobre a capital portuguesa ficou a dever-se à tal cidade do norte da Alemanha onde viveu, temporária e intermitentemente, por causa da “então namorada, hoje, mulher”, de nome Maria, que se instalou na segunda maior urbe alemã. O advogado-escritor, que chegou a estudar cinema, numa fase precoce da advocacia, dedica-lhe a frase de abertura das 374 páginas desta edição da Coolbooks: “Para a Maria, que persegui até Hamburgo”, lê-se. Maria Bessa, designer, responde, por sua vez, com a autoria da capa do livro.

“Tinha uma ideia de uma localidade portuária e cinzenta. Não é uma metrópole conhecida, daquelas que, sem querer, temos ideias feitas e familiares como Madrid, Paris e Londres, mas é uma cidade que apetece. É nórdica sim, mas tem canais, parques, é completamente arborizada e parece uma aldeia em certos sítios”, descreve.

Hamburgo, onde o autor viveu entre 2017 e 2018, município banhado pelo rio Elba e porta da Alemanha para o mundo, via mar do Norte, esteve, por força da sua geografia, na linha da frente para “receber, de forma descontrolada, um milhão de refugiados”, migrantes que entraram nas fronteiras alemãs, em 2015, recorda.

Por isso, sem surpresas, misturando a influência da cidade e o quotidiano sociopolítico vivido, os temas “refugiados e Islão” surgem na linha da frente da trama. “Foi uma inspiração cujo tema, que não foi muito refletido, foi ditado pelo contexto. Um policial, em que alguém está a assassinar refugiados vindos de países muçulmanos. É uma realidade visível. Não era para escrever algo político”, assume.

"Não existe campanha contra Islão"

“Gosto do lado criminal, das máfias de imigração”, diz Francisco Carvalho, uma inclinação pessoal mas que não se estende à parte profissional, na qual desenvolve “áreas de Direito Comercial e Civil”.

A história de “Crimes de Hamburgo” começa com um homicídio de um refugiado em Hamburgo. “Há um assassinato, mas não há declaração política”, atesta. O tema do “confronto do Islão com as sociedades livres ocidentais está patente”, reforça.

Várias personagens, todos, direta ou indiretamente, conectados com os crimes, desfilam à medida que os homicídios prosseguem no país de Ângela Merkel.

Anna Ostmann, veterana detetive, responsável pelo departamento de homicídios e que “enfrenta um esgotamento ao perceber que é o seu 6º sentido e intuição que a ajuda a revolver os casos e não tanto a arte de os descobrir”, conta com a assistência de Gerhard, que transita do narcotráfico. “É um mistério porque ali foi parar”, nota.

Richard, engenheiro no porto de Hamburgo e Elise, jornalista, vivem a emergência dos acontecimentos por força das profissões e convicções de cada qual. Se a ele cabe estar ligado ao local onde chegam os migrantes, ela, “é colocada, enquanto voluntária, numa rede ligada à migração”, seguindo instruções do dono de um grupo de comunicação para o qual trabalha.

“O magnata tem uma cruzada contra o Islão e cria um site onde coloca toda a informação com células de terroristas e redes islâmicas. É de livre acesso, para que todos saibam quem é o terrorista. Diz que os atentados são praticados por pessoas que já estavam referenciadas e que alguns são refugiados. Dá às pessoas a possibilidade de serem polícias em causa própria”, frisa. “Na era da Big Data, faltam mecanismos para tratar informação. É isso que ele faz. Acha que o inimigo é o Islão, mas cabe a cada um decidir”, sustenta Francisco Carvalho.

Nabil, um jovem refugiado sírio que personifica os sírios que fogem da destruição que enfrentam no seu país e atracam em terra firme. “São pessoas com quem nos cruzamos, são personagens do livro e não a razão de ser do mesmo”, explica.

“Tem muita gente e eu não queria tanta gente”, reconhece. E até tem um português, cuja nacionalidade é desvendada “mais à frente”, embora lhe caiba honras de entrar em ação quando aterra em Hamburgo “nas vésperas do primeiro assassinato e ter comportamentos erráticos”, sublinha.

 “Não existe campanha contra islão. Pode haver essa interpretação. Se alguém é contra o Islão, contra os refugiados, em particular, é um mistério da história”, aponta.

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