“Autobiografia autorizada" marca o regresso de Paulo Betti aos palcos nacionais. O monólogo autobiográfico cruza comédia, drama e poesia. Na peça, o ator de 67 anos relembra alguns dos episódios mais marcantes da sua família, encarnando personagens diversas como a de uma avó, que era analfabeta, de um avô imigrante italiano, que trabalhava na roça para um fazendeiro negro, da mãe ou da empregada doméstica que deu à luz quinze filhos de um pai que sofria de esquizofrenia.

Depois de estar em cena durante cinco anos no Brasil, a história chega a Portugal numa versão mais curta e "aprimorada", explica o ator ao SAPO24.  Chegar até ela obrigou-o "a cortar na própria carne".

"As personagens são muito próximas. Cortar a história de um irmão meu significa uma dor — e até uma satisfação que vou ter de dar para os meus sobrinhos", brinca. Irmãos que tiveram um papel fundamental para que esta peça ganhasse corpo. Foram eles, assim como vários amigos, que o incentivaram e fizeram desaparecer os "pudores" de "contar a própria vida". Mas não só.

A vontade de fazer um monólogo era antiga, e chegou mesmo a ensaiar um texto escrito por um amigo. Só que "no meio percebi que deveria escrever o meu porque aquele não me representava". Isto porque a peça obrigava-o a fazer piadas sobre uma empregada doméstica. "Não podia, a minha mãe era empregada doméstica", explica. Recorreu então às suas memórias para escrever um testemunho pessoal e íntimo sobre a sua "classe social de origem": “Autobiografia autorizada".

Tão pessoal que ainda não a imagina representada por outro ator. "Pensei nisso algumas vezes, será que, um dia, alguém que não seja eu, vai fazer essa peça? É uma bela pergunta. E não sei a resposta", partilha.

créditos: DR

O Brasil da bala

Paulo Betti já foi muitas personagens, entre elas "Timóteo", na novela “Tieta” (1989) — papel que o popularizou junto do público nacional.

Sobre esse formato, o ator lembra que a ficção brasileira sempre teve — e continua a ter — "um fator social ou uma crítica política". À conversa trouxe dois exemplos "atuais" num Brasil onde quem manda é "a bala, a Bíblia e o boi": a novela "Malhação" — "quando saí do Brasil estava a falar sobre as milícias" — e "Amor de Mãe" — "que fala sobre ecologia; um dos temas é sobre uma empresa que joga poluentes no rio".

"A cultura é uma forma de resistência, e nós temos que resistir", diz. Resistir a um "momento tenebroso" e a "um Governo que tem os índios como inimigos, tem a cultura como inimiga, tem a ecologia como inimiga". Hoje, continua, o "símbolo é a arma".

"Bolsonaro se elegeu fazendo assim [faz o gesto de uma arma com os dedos], com uma criança no colo. Quando o outro candidato [Fernando Haddad, PT] tinha como símbolo um livro. Entre um livro e uma arma, o Brasil escolheu a arma", lamenta.

Questionado sobre o 'sim' da sua 'colega', a atriz Regina Duarte, para integrar a Secretaria da Cultura, Paulo Betti responde: "A Regina escolheu a arma, também".

"Não sei como a Regina se pode aproximar de um homem que apoiou o torturador de uma colega dela, a atriz Beti Mendes. Beti Mendes, que tem a mesma idade que a Regina, foi torturada pelo Coronel Ustra pessoalmente", termina.


Depois de Lisboa, “Autobiografia autorizada” continuará em digressão por mais 6 localidades portuguesas. Faro (6 de março), Arcos de Valdevez (13 de março), Funchal (14 de março) e Miranda do Corvo (22 de março) são as localidades onde a peça irá ser apresentada, numa digressão que termina em 27 de março, na Praia da Vitória, Açores.

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