"Os filmes rodam-se nos sítios onde é mais barato"

E se de repente Portugal se convertesse num hub de produção internacional? Pedro Duarte, diretor-executivo da Sky Dreams, olha para o negócio de servicing como uma grande oportunidade e um pequeno problema: "É um segmento muito interessante, investe-se aqui muito dinheiro, mas acaba por ser uma dificuldade, porque inflaciona os preços", explica.

A Sky Dreams está a trabalhar em parceria com uma produtora americana que veio rodar um filme a Portugal porque as coisas em Espanha não estavam a resultar. As filmagens começaram no final de julho e terminaram na semana passada - "ainda é cedo para revelar nomes, mas trata-se de uma saga de sucesso mundial" -, e a verdade é que o futuro da indústria cinematográfica portuguesa pode muito bem passar por aqui.

"Os filmes rodam-se nos sítios onde faz sentido em função do que o realizador pretende, mas também onde é mais barato", afirma Pedro Duarte. Foi o que aconteceu com o "Fast and Furious" ["Velocidade Furiosa"], recentemente filmado em Viseu.

No caso do filme que está a ser coproduzido pela Sky Dreams há outra vantagem: "Quando o "Fast and Furious" for lançado ninguém vai saber se as estradas são em Portugal, no Burkina Faso ou na Colômbia. Mas o filme de que estamos a falar vai ser um autêntico postal de Portugal", avança Pedro Duarte, "porque vai assumir que as personagens vêm cá de férias, e os locais escolhidos são os mais emblemáticos, os mais bonitos, os mais apelativos".

"Pena ter sido tudo organizado tão em cima da hora, porque até faria sentido ter o apoio do Turismo de Portugal", desabafa o CEO da Sky Dreams. "Foi tudo muito rápido, ligaram-me numa sexta-feira para saber como as coisas funcionam - já tinham ouvido falar bem de Portugal -, e na semana seguinte estavam cá. A única possibilidade de não filmarem era não haver acordo connosco ou não gostarem do que viam".

A ideia inicial era muito mais Algarve do que Lisboa, conta. Mas a realizadora chegou e rendeu-se: "Estou maravilhada com o que vejo, vou querer rodar em Lisboa muito mais do que no Algarve", afirmou.

créditos: Diogo Gomes | MadreMedia

"Não podemos continuar a financiar filmes que não têm sucesso comercial"

Embora não seja defensor dos subsídios, "acredito que nada se resolve só com subsídios", Pedro Duarte considera que, se existem, devem ser investidos no desenvolvimento e não na sobrevivência.

Conhece o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva?

Conheço. Não muito bem, mas conheço. É uma pessoa que pode ajudar muito, que, não sendo desta área, tem uma perspectiva muito interessante do setor. Vem com vontade, tem conhecimentos abrangentes e não há nada que nos faça antever um mau desempenho.

O que espera dele para os próximos quatro anos?

Era muito importante olhar para a perspetiva de como os fundos públicos estão a ser investidos. Isso é fundamental para o mercado do cinema em Portugal. Não podemos continuar a financiar filmes que não têm sucesso comercial, não faz sentido. O investimento tem de ser para o desenvolvimento e não para a sobrevivência. Se não for para o desenvolvimento, vamos continuar a perder tempo. Oiço muita gente dizer que não se pode comparar o mercado de Portugal com o de Espanha - e não pode. Mas há 30 anos isso era possível. Acontece que nas últimas décadas houve um desenvolvimento em Espanha que não não existiu em Portugal, e quanto mais tarde se recriar a forma como o mercado é movido, mais tempo vamos continuar neste marasmo que é o cinema português. O cinema português tem de ser incentivado a vender e não a apresentar filmes e séries que ninguém vê.

A ideia com que se fica é que em Portugal as produtoras fazem os filmes que querem, não os filmes que o público quer. É assim?

As produtoras, não sendo instituições sem fins lucrativos e tendo de sobreviver, têm de ter em atenção o que o mercado pede, obviamente. E agora estão a ser muito mais pressionadas, no bom sentido, porque é exactamente isso que as plataformas de streaming pedem. Não é verdade, em termos gerais, que as produtoras ignorem a perspetiva do mercado. No entanto, e o que vou dizer não é uma crítica específica a ninguém, há organismos que incentivam o cinema de autor, porque os critérios de selecção dos filmes apoiados prejudicam muitas vezes os projetos com mais potencial comercial. Acho inacreditável o Estado dar 500 mil euros para 500 pessoas verem um filme. Não faz sentido.

Lá fora também é assim?

Portugal é um mercado muito menos desenvolvido do que o espanhol, francês, inglês ou alemão, que são mercados onde as produções locais têm um grande peso nas audiências anuais. Aqui essa franja é mínima. Logo, nesses países faz sentido apoiar o cinema de autor, que tem mais dificuldade em sobreviver num mercado que já está maduro. Em Portugal, e precisamente para combater a imagem que todos temos de que o filme português é pouco interessante, os organismos com responsabilidade no setor deviam incentivar projetos o mais comerciais possível. É preciso mudar o chip na cabeça das pessoas e mostrar que os filmes portugueses também podem ter qualidade. Nunca vamos ver um "Fast and Furious" ou um "James Bond" à portuguesa, mas podemos ver filmes interessantes que não sejam só biografias ou comédias. Para isso também é preciso mudar o chip deste sistema de incentivos interno.

Qual é, na sua opinião, o incentivo mais justo e porquê?

Um exemplo: dos subsídios que o ICA - Instituto do Cinema e do Audiovisual dá, no meu entendimento, o mais justo é o apoio automático. Porque como é dado sobre a receita de bilheteira, está a premiar o sucesso, aqueles que têm mais espetadores. A partir dos 5 mil espetadores (a regra mudou por causa da pandemia), recebe-se 30% da receita de bilheteira para investir noutro filme, tem de ter esta garantia. O valor só é atribuído quando um novo projecto é submetido. 

Mas não temos escala. Como é que podemos ultrapassar este handicap?

Recordo-me de ir às conferências internacionais da Sony e um filme na Coreia do Sul vendia mais do que os nossos filmes todos juntos em Portugal. Eles têm uma capacidade de investimento muito superior à nossa, por isso a qualidade do filme vai ser sempre superior. Se calhar já existe a possibilidade de pagar a argumentistas para ficarem cinco meses em casa a pensar num bom argumento. A investigação não é só na Saúde.

E Portugal há investigação a esse nível?

Cá é tudo à pressa: preciso de um guião para amanhã. As produtoras também não gostam muito de investir num argumento que não tenham a garantia de que vai ser desenvolvido. E isso também limita a vida dos argumentistas. O que se paga a um argumentista em Portugal está muito longe do que um argumentista recebe internacionalmente. Na minha opinião - e não vou dizer que um argumentista é mais importante do que um realizador -, é mais fácil um filme funcionar com um bom argumento e um mau realizador do que com um bom realizador e um mau argumento. Tenho a certeza absoluta de que se tivéssemos feito a "Casa de Papel" ou o "Squid Game" em Alcochete com a Jessica Athayde ou o Diogo Amaral íamos ter êxito. Um bom argumento, seja venezuelano ou chinês, tem sempre sucesso. Se quiser: o Christopher Nolan faz grandes filmes? Faz, como o Inception [A Origem]. Mas grande parte do sucesso do filme está no argumento, está na história. Depois todos vêm dizer que é óbvio, mas se é tão óbvio porque é que nunca ninguém fez? Ou seja, é preciso haver espaço e tempo para pensar.

Como é que a Sky Dreams funciona em relação aos argumentos que escolhe?

Estamos sempre abertos e recetivos a ouvir propostas. Por exemplo, a ideia dos remakes dos grandes clássicos portugueses foi do José Gandarez. Ouvimos, achamos interessante, avançamos. O Zé tem ideias interessantes, mas nem sempre fáceis de concretizar. O que acontece muitas vezes é que ele tem uma ideia e pede um guião.

Nas fichas técnicas dos filmes estrangeiros já se vê o nome de muitos portugueses.

Os portugueses dão cartas em toda a parte do mundo. Ser o António ou o João faz toda a diferença - acredito mesmo que as pessoas é que fazem a diferença. Em Portugal existem muitos preconceitos em relação a estas questões. Por exemplo, o teletrabalho: eu gosto mais de trabalhar no escritório, onde estou mais concentrado, mais focado, mas não tenho nada contra uma pessoa ficar a trabalhar em casa, o que é preciso é que cumpra a sua função perfeitamente. Há muitas questões que são sobrevalorizadas. Nós, não sei por que razão, achamos que temos de deixar as pessoas desconfortáveis para elas renderem mais. Mas as pessoas não funcionam assim. É por isso que um português vai para a China e é director de uma empresa, vai para o Brasil - olhe o director comercial da Warner no Brasil, que tem um mercado 50 vezes superior ao nosso. 

Fazemos filmes para serem vistos no estrangeiro?

"O Pai Tirano" vai para o estrangeiro. Os outros também foram - não fizeram muita bilheteira, mas essa é outra questão. Penso que devia haver um investimento dos organismos públicos na promoção do cinema português lá fora. Não me pergunte como, mas devia haver quem se debruçasse sobre o assunto.

As duas empresas são agora parceiras: os americanos têm o núcleo duro (atores, realizador, diretor de fotografia, etc.), enquanto a logística local (licenças, burocracia, direção de produção) é responsabilidade da Sky Dreams. "No fundo estamos a gerir um filme de terceiros como se fosse nosso", diz Pedro Duarte.

Não há bela sem senão e "com as produções Netflix, o "Fast and Furious" e as nossas não há equipas disponíveis no mercado". Ou seja, se houver mais uma produção local temos de dar a mesma resposta que oiço na restauração ou na hotelaria: "Não há gente". Não entrámos em pânico porque já andamos nisto há muitos anos, mas ficámos preocupados, porque a preparação de um filme faz-se com cinco, seis, sete semanas, não se faz em dez dias".

Por detrás de tudo, outro problema: os salários. "Os salários praticados no setor não são bons. Só consigo que os melhores venham trabalhar comigo pagando mais, e isso é um problema, porque a expectativa de recebimento passa a ser muito superior". Mas a inflação chega a mais custos de produção, como "o aluguer de espaços de filmagens ou o próprio equipamento - que às vezes é preciso ir buscar a Espanha".

"Ainda continuamos a ter numa semana quatro filmes a funcionar bem e todos os outros a correr muito mal"

É a lei da oferta e da procura ou, como lhe chama também Pedro Duarte - não fosse ele licenciado em Gestão de Empresas -, "os efeitos perversos". Apesar de tudo, concorda, "são mais os pontos positivos do que os negativos, embora no médio prazo possa vir a haver outros impactos".

Pedro Duarte assegura que a Sky Dreams se "adapta ao mercado", mas admite que "o intuito é ter sempre um projeto ambivalente, que possa funcionar no cinema - que dá mais prestígio -, mas também em todos os outros segmentos". Uma lógica que não agrada da mesma maneira às plataformas de streaming.

Depois de uma pandemia que lhe veio roubar espetadores, o cinema começa agora a dar sinais de revitalização, "mas ainda continuamos a ter numa semana quatro filmes a funcionar bem e todos os outros a correr muito mal".

Em carteira, a Sky Dreams tem dois projetos ainda em fase embrionária e dois filmes e uma série de oito episódios já mais desenvolvidos: "Álvaro e Mário - Homens de Honra", a história de Álvaro Cunhal e de Mário Soares. "Vai haver um cruzamento das personagens de ambos os filmes, porque elas coexistiram e interagiram. São filmes independentes em que vamos alternando episódios da vida de um e de outro".

A equipa de parceiros está a ser fechada e o projeto deverá avançar já no próximo ano. Para já e pronto a ser lançado está um documentário sobre oito casos casos emblemáticos da Polícia Judiciária. A série, "PJ7", vai passar em breve na RTP.

"Nem sempre os filmes mais vistos são os que merecem mais ser vistos"

Embora dependa do funding e das equipas disponíveis para trabalhar, Pedro Duarte acredita que a produtora não deve ter mais de dois projetos fortes em simultâneo. 

"A equipa fixa de uma produtora deve ser o mais reduzida possível", considera o diretor-executivo da Sky Dreams, que "tem um núcleo duro, que não é permanente mas quase, porque sempre que há um filme, uma série ou um documentário recorremos a esse grupo de pessoas com frequência".

O grande erro dos estúdios

Em Portugal estreiam em média 12 filmes por semana. Os números são de Pedro Duarte e revelam uma realidade: "A rotatividade inacreditável a que isto obriga. Assim como considero que ainda existem salas de cinema a mais, também existem filmes a mais", diz.

É por este motivo, "filmes a mais", que as fitas ficam hoje tão pouco tempo em cartaz. A escolha de quem fica e de quem sai é controlada por quem domina o mercado. "É uma política um pouco egoísta", já que "nem sempre os filmes mais vistos são os que merecem mais ser vistos". Acontece que é o número de espetadores que determina esse tempo, e os que fazem menos bilheteira são preteridos em função dos que estão na fila para entrar.

Se podia haver uma estratégia combinada entre produtoras, distribuidoras e exibidoras? Podia, mas não era a mesma coisa. Ainda assim, "os players partilham uma agenda de exibição, para que todos os filmes possam ser lançados o mais criteriosamente possível tendo em conta a concorrência", salvaguarda Pedro Duarte.

"Um filme que abre mal está condenado. E os últimos filmes portugueses, infelizmente, mostram isso mesmo"

Este facto, aliás, foi fundamental na decisão da data de lançamento do último filme produzido pela Sky Dreams, "O Pai Tirano", uma adaptação da comédia original de 1941, pronta desde setembro do ano passado e com estreia prevista para dezembro, mas que acabou por ser lançado a 21 de julho deste ano.

"A questão é que os estúdios tinham uma série de filmes no armário, que não foram lançados por causa da pandemia, e decidiram, literalmente, despejá-los para o mercado ao mesmo tempo. Se tivéssemos lançado o filme nessa altura, ia estar duas semanas em exibição e não ia ter os espetadores necessários, íamos ter uma perspetiva de exploração péssima do filme", explica Pedro Duarte.

Já este ano, o lançamento de "O Pai Tirano" esteve inicialmente anunciado para 14 de julho. Na mesma data, no entanto, estreava outro filme português. "Já estava na agenda antes de nós e, por uma questão de respeito concorrencial, adiámos a estreia".

Para o êxito de um filme, garante o CEO da Sky Dreams, a semana da estreia é fundamental: "Um filme que abre mal está condenado. E os últimos filmes portugueses, infelizmente, mostram isso mesmo".

De acordo com a publicação especializada Meios & Publicidade, que cita números do ICA - Instituto do Cinema e do Audiovisual, o número de salas de cinema continua a cair em Portugal, e em fevereiro deste ano havia 494, que receberam 512.965 espetadores, para uma receita de bilheteira de 2,8 milhões de euros. Nesse mês, o filme mais visto foi "Uncharted", de Ruben Fleischer, com 156.720 espetadores.

créditos: Diogo Gomes | MadreMedia

Para Pedro Duarte, outro filme da produtora, "Salgueiro Maia - O Implicado" - um dos 57 filmes produzidos com o apoio do ICA entregues 2021 (este ano o número vai em 49) -, "é um dos nossos melhores filmes em termos de representação, de guarda-roupa, de caracterização. Mas fez 15 mil espetadores, o que "é manifestamente pouco" - "Snu", da mesma produtora, teve perto de 85 mil espetadores em 2019.

Claro que o dinheiro de bilheteira não é tudo. "Os filmes também têm uma vertente cultural, também abrem portas internacionais", lembra. De resto, está tudo estudado: "Salgueiro Maia é um filme mais voltado para o público masculino e sabemos que os filmes pelos quais as mulheres se interessam têm um potencial de receita superior".

Pedro Duarte chegou a esta indústria em 2002, quando assumiu o cargo de responsável administrativo e financeiro na Columbia Tristar Warner, onde esteve 12 anos, até a Sony decidir fechar os escritórios em Portugal (e não só), "para reabrir um ano depois, uma coisa inacreditável", relembra.

Recusou um convite para ir para os Estados Unidos - "é em Portugal que quero viver, apesar de adorar viajar; gosto de ir ao estádio ver o Sporting, ter os meus pais e amigos por perto, os meus hobbies" -, e aceitou a oportunidade para ir trabalhar para a Stopline, produtora de cinema onde esteve até 2016.

"Os estúdios mimaram de mais o consumidor e agora já nada lhe chega"

"É nessa altura que conheço o Zé [José Gandarez], que tinha uma parceria com a empresa relativamente aos outros clássicos do cinema português; foi ele que apresentou a ideia dos remakes ao cineasta Leonel Vieira".

Mas as coisas não correram como o esperado, apesar da amizade que ficou - "adoro o Leonel e ainda hoje lhe dou um beijo na careca quando o vejo" -, e quando soube que Pedro Duarte estava disponível José Gandarez desafiou-o para ajudar a desenvolver a Sky Dreams.

Em 20 anos foi possível assistir a muitas transformações. "Assisti ao fim da cópia em 35 mm, que todos achávamos que ia ser muito mais lenta e foi super rápida, o que levou ao fecho de muitos cinemas, porque nem todos tinham condições para a digitalização, que ainda representa um investimento importante em equipamentos", recorda.

Depois veio "a grande ansiedade dos estúdios em disponibilizar tudo e mais alguma coisa o mais rapidamente possível". Para Pedro Duarte, o maior erro de todos.

"Houve um encurtamento muito grande entre as janelas de exibição no cinema e nos restantes meios (home video, DVD, streaming). Sempre achei que pôr a carne toda no assador ia desvalorizar o cinema. Vemos isso com os nossos filhos, têm tanta coisa à disposição que não sabem para onde se virar. O cinema é desvalorizado porque as pessoas já sabem que se não virem quando está em cartaz, vão ver duas ou três semanas depois em casa. Existe a sensação de que tudo é fácil, demasiadamente acessível", considera o gestor.

"E é aí que os estúdios estão a errar completamente; as pessoas precisam de espaço para sentir necessidade". Esta é, para Pedro Duarte, a transformação mais negativa a que assistiu nestas duas décadas. "É precisamente por isso que a vida passa a correr, não temos tempos de espera. Sei que é um discurso antiquado, mas acho que os estúdios mimaram de mais o consumidor e agora já nada lhe chega", conclui.

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