A petição online, feita no site Change.org, não é muito longa e assenta num ponto: a série vai alimentar “não somente a cultura tóxica das dietas, mas [também] a objetificação do corpo das mulheres”. E é preciso, na opinião da autora, impedir que esta mensagem seja difundida numa das plataformas de vídeo mais populares e com mais visibilidade no mundo, a Netflix.

A polémica estalou quando ainda só é conhecido um trailer de apresentação. E é a partir dele que segue o relato do enredo desta comédia negra, onde há lugar a uma "insaciável" vingança.

Em Insatiable seguimos de perto a história de Patty, uma estudante com excesso de peso que sofre bullying diariamente e que encontra refúgio em gelados e na companhia daquela que aparenta ser a sua melhor amiga. Até que chega ao dia em que leva um soco na face de um sem-abrigo. E diz: basta! 

Farta de ser motivo de chacota, decide romper com os maus hábitos alimentares, fazer uma transformação corporal e mudar o seu guarda-roupa — com sucesso. Ou seja, a jovem deixa de ter uma figura mais rechonchuda, para ter uma silhueta esguia, uma beleza padrão admirada por todos os olhares — especialmente por aqueles que antes gozavam consigo.

É então que a outrora "Patty, the Fatty" [Patty, a Gorducha] passa a "Patty, the Hotty" [Patty, a Jeitosa] e começa a ponderar a que grupo se deve juntar — porque agora não apenas terá facilidade em inserir-se num grupo, como se pode dar ao luxo de escolher qual. Mas Patty resolve virar o jogo por completo e dedica-se a uma vingança que visa todos aqueles que a atormentaram no passado.

"Durante muito tempo a narrativa contada a mulheres e jovens impressionáveis era de que para ser popular, para ter amigos, para ser desejada, e, até certo ponto, para ter valor enquanto ser humano... é preciso ser magra", começa por escrever Florence Given, a autora do texto da petição "Travem o lançamento da série body-shaming da Netflix Insatiable". Para depois continuar: "Este não é um caso isolado, mas uma parte muito maior de um problema que, garanto-vos, todas as mulheres já enfrentaram na vida: em algum momento nivelaram o seu valor pelo do seu corpo".

A atriz e cantora Debby Ryan, que interpreta o papel principal com ajuda de próteses e muitas doses de maquilhagem, tem sido vítima de críticas nas redes sociais desde que estreou o trailer oficial, no início do mês. No entanto, Ryan defendeu a série através de um comunicado partilhado na sua conta pessoal de Twitter, onde explica tem fé que esta "história satírica" consiga trazer "a luz à escuridão", pois durante 12 anos batalhou ela própria contra problemas relacionados com a sua imagem.

"Como alguém que se importa realmente com a maneira como o nosso corpo, especialmente o das mulheres, é envergonhado e policiado na sociedade, eu estava muito entusiasmada em trabalhar na Insatiable porque é uma série que aborda e confronta estes temas através da sátira. A sátira é uma maneira de conseguir tirar proveito das coisas más, [de] trazer luz à escuridão e começar conversas difíceis. Já ri da minha dor, caso contrário iria dissolver, chorar e ficar paralisada, ao invés de trabalhar para seguir em frente. É um mecanismo de defesa e, para muitas pessoas que estão a contar estas histórias, um mecanismo cicatrizante. Nos últimos dias tenho visto muitas vozes que são protetoras e destemidas acerca dos temas que aparecem nesta história. Estou grata por isso, consolada por isso, porque eu quero essas histórias bem contadas também", revelou.

Jameela Jamil, atriz britânica e um dos rostos de “A Good Place”, série original e em exibição na Netflix, considera que "o programa está a dizer aos miúdos que devem perder peso para ‘ganhar’”. “O fat-shaming [humilhar alguém por ter excesso de peso] é muito desconcertante”, acrescentou.

Também Dana Suchow, que já lutou contra a bulimia e que é também fundadora do projeto #MyBodyStory, publicou sete razões pelas quais considera que a série deve ser cancelada. “Dizer que só um adolescente magro é forte, confiante e capaz é gordofóbico”.

Ao The Guardian, a autora da petição diz que a resposta à sua campanha tem sido “esmagadora e de partir o coração”, particularmente as notas das assinaturas, onde “mães de crianças que sofrem de distúrbios alimentares, médicos e dietistas, todos pedem que a série seja cancelada”. Recorde-se que o texto descarta uma mera alteração na direção do enredo, ou um adiamento para que os guionistas possam alterar os acontecimentos e destinos das personagens.

"Esta série precisa de ser cancelada. Depois de estrear a série, o controlo dos danos será bem pior, insidioso e sinistro para as raparigas adolescentes, do que será para a Netflix a perda de lucro", pode ler-se.

Quem não ficou indiferente a toda esta situação foi a criadora e produtora executiva da série, Lauren Gussis, que, perante toda a polémica, confidenciou "a sua verdade": que ela própria viveu as suas batalhas pessoais com a imagem corporal, sofreu problemas psiquiátricos e distúrbios alimentares.

"Quando tinha 13 [anos], eu era suicida. Os meus melhores amigos deixaram-me, sofri bullying, e queria vingança. Pensei que se fosse bonita por fora, iria sentir que eu seria suficiente. Em vez disso, desenvolvi um distúrbio alimentar... e esse tipo de fúria faz com que queiras fazer coisas negras... Ainda hoje não me sinto confortável na minha pele... Mas estou a tentar partilhar a minha perspetiva — partilhar a minha dor e vulnerabilidade através do humor. É apenas a minha maneira [de lidar com o assunto]. A série é um conto triste que serve de alerta sobre o quão prejudicial pode ser acreditar que o exterior é mais importante — julgar sem ir ao fundo [da questão]. Por favor, deem uma oportunidade à série", pediu Gussis.

Já atriz Alyssa Milano, que também faz parte do elenco, é da opinião que não “estamos a humilhar a Patty. Estamos a sensibilizar (através da comédia) para os danos que ocorrem do fat-shaming”.


Insatiable, com Debby Ryan, estreia a 10 de agosto na Netflix.

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