Quer seja num cenário ficcionado (como na série "Harrow", que estreia dia 10 de setembro, às 22h30, no AXN), quer seja no noticiário da noite, os crimes e as suas histórias atraem a atenção. É difícil ignorá-los. Há algo de incrivelmente intrigante acerca das razões que estão por detrás de um crime, das mais mundanas às mais complexas.

São contos trágicos e onde o final feliz não se aplica — e sabemo-lo de antemão. Porém, por alguma razão, tendemos a não conseguir não dar atenção ao tema. Não é de estranhar, por isso, as inúmeras séries e filmes à volta do mundo do crime que aguçam a nossa curiosidade.

Mas porque razão estamos nós tão interessados em tragédia alheia? Porque sentimos nós este magnetismo hipnotizante perante um crime, ao ponto de desenvolvermos as nossas próprias teorias acerca daquilo que se terá passado no desenrolar dos episódios? É tudo curiosidade?

A resposta parece óbvia — escolhemos ver aquilo que vai de encontro ao nosso agrado —, mas as nossas escolhas refletem aquilo a que o psicólogo americano Marvin Zuckerman denominou de “procura de sensações". Isto é, ansiamos por experiências ou sentimentos que sejam ”variados, novos, complexos e intensos". Simplificando, escolhemos séries baseadas não apenas nos seus enredos ou personagens, mas nas emoções que eles nos permitem sentir. Caso seja preciso um pouco de alegria, assistimos a uma comédia. Adrenalina? Optamos pela ação. Queremos um filme “leve”, só para nos abstrairmos dos problemas do quotidiano? Há sempre algo com robots gigantes e efeitos especiais exagerados para nos transportar para outra dimensão.

No entanto, de todas as muitas e variadas sensações que procuramos, há uma que se destaca entre todas elas: o medo. Parece contra-intuitivo, mas é aquilo que acontece. O crime e o horror mostram que ainda dominam as nossas opções de escolha. Uma prova? A série "Investigação Criminal "vai para décima sexta temporada ao passo que o "CSI" (original, passado em Las Vegas) esteve no ar durante quinze anos.

Revela o The Guardian que, durante uma década, Joanne Cantor, uma professora na Universidade do Wisconsin, estudou o impacto dos filmes de terror e séries televisivas nos consumidores destes conteúdos. E concluiu que há três tópicos que nos assustam mais do que quaisquer outros: imagens perturbadoras, ameaça iminente e falta de controlo.

O mesmo artigo revela que todo o nosso corpo reage quando estamos a ver ou ouvimos coisas que nos assustam. Todo ele reage, libertando uma série de substâncias químicas que provocam uma resposta fisiológica conhecida por luta ou fuga — algo intrínseco a qualquer indivíduo. A expressão é originária do inglês “fight or flight”, conceito que resultou da investigação de Walter Cannon sobre a resposta do sistema nervoso em situações tidas como ameaçadoras à nossa segurança física ou emocional. Associado do stresse, leva a que qualquer animal que se encontre numa situação de ameaça tenha apenas duas alternativas: ou fica e lida com a ameaça (luta) ou foge e afasta-se (fuga). No entanto, nos seres humanos, as respostas são mais complexas.

É um turbilhão de acontecimentos biológicos que originam uma resposta inata do nosso corpo e que leva a que os nossos sentidos disparem. As pupilas dilatam, os batimentos cardíacos aumentam, os músculos contraem. No fundo, tudo aquilo que aconteceria se estivéssemos numa situação em que o perigo iminente estaria diante de nós enquanto uma combinação de adrenalina, dopamina e norepinefrina inunda o sistema sanguíneo, resultando não apenas num despertar maior de consciência, energia e concentração, mas também de uma sensação de euforia tardia. É esse medo e receio que provoca uma espécie de recompensa pela “sobrevivência” daquela “situação” — que nos faz voltar para este tipo de séries — e também é esse medo a razão pela qual a maioria dos episódios apresenta os homicídios imediatamente antes dos créditos iniciais da série.

Paralelamente, num artigo de opinião publicado na página da revista norte-americana Psycology Today, é possível entender que se trata também de um prazer pecaminoso que temos ao ver aquele tipo de imagens. Sabemos que o que estamos a ver é condenável, mas não deixamos de o fazer.

“O fascínio do público por assassinos em série na televisão é multifacetado e complexo. Os assassinos em série são pessoas empolgantes e que nos deixam fascinados, muito à semelhança daquilo que acontece nos acidentes rodoviários, descarrilamentos de comboios ou desastres de naturais. O fascínio do público pode ser visto como uma manifestação específica da fixação moral da violência e calamidade. Por outras palavras, as ações do assassino em série podem ser terríveis de contemplar mas uma parte significativa do público não consegue olhar para o lado devido ao sentimento de espetáculo”, refere o artigo.

O mesmo artigo revela que “as pessoas recebem uma descarga de adrenalina como recompensa por terem testemunhado os feitos dos assassinos em série. A adrenalina é hormona que produz um efeito forte, estimulante e viciante no cérebro humano. Se duvida do poder viciante da adrenalina, pense no sentimento que uma criança sente quando vai dar uma volta numa montanha russa repetidamente até ele ou ela se começar a sentir fisicamente doente. O efeito eufórico dos assassinos em série nas emoções dos humanos é similar ao das montanhas russas ou desastres naturais", o que acaba por explicar este fascínio.

O fascínio não é novo

Harrow é apenas uma das últimas séries onde figuram personagens da medicina forense como protagonistas desde o início dos anos 2000. "CSI" ou "Investigação Criminal" são casos de séries que deram ou dão foco e atenção especial ao patologista forense. E nunca estas figuras foram tão populares como agora. Se é verdade que começaram por inicialmente desempenhar papéis secundários, na altura em que o Dr. Albert Robbins, o médico legal de "CSI Las Vegas", interpretado pelo ator Robert David Hall entrou nas nossas casas, quase vinte anos depois começam a ser eles próprios os protagonistas e a desempenhar um papel em que funcionam como autênticos “Detectives da Morte”. Todavia, não é algo que se tenha começado a ver apenas a partir do novo milénio.

Se recuarmos até 1907, é possível encontrar um médico a desempenhar um papel de detetive, através do romance de "The Red Thumb Mark", livro publicado pelo escritor (e médico) R. Austin Freeman. De acordo com um artigo publicado na Lancet, esta é a primeira vez em que tomamos contacto com uma personagem (no caso, o Dr. Thorndike) a resolver um crime com recurso ao conhecimento médico e científico.

Já na televisão, nos Estados Unidos, a primeira série que apresenta um médico forense data da década de 60. Em "Diagnosis Unknown", a narrativa baseia-se num patologista de um grande hospital metropolitano, que trabalhava de perto com um detetive da polícia na resolução de homicídios macabros. No início da década seguinte, mas com difusão numa emissora canadiana, a série Wojek também recorria aos serviços de uma figura médica no mundo criminal. Até que chegou "Quincy, M.E".

Estreada em 1976, pelas mãos da americana NBC, "Quincy, M.E." foi popular entre o público até terminar de ser exibida em 1983. Durante 8 temporadas, a história seguiu o quotidiano do Dr. Quincy, interpretado por Jack Klugman, um médico legal (patologista forense) cuja personalidade assentava em princípios morais fortes e vincados. Quincy trabalha para o Departamento de Crime do Condado de Los Angeles e tenta apurar os factos e razões que estão por detrás de mortes suspeitas. Devido à sua complexidade e componente forense, a série inspirou muitas outras que iriam marcar o prime-time televisivo norte-americano quase duas décadas mais tarde.

Contudo, depois de "Quincy ,M.E." assistimos a um hiato e a figura do patologista pareceu cair um pouco no esquecimento. Fosse por culpa da audiência (que não mostrava interesse) ou porque as produtoras não acreditavam que fosse um nicho a explorar, a verdade é que até 1993 não houve grandes novidades no mundo das personagens que gravitam à volta das ciências forenses. Até que "Diagnosis Murder", onde seguimos as aventuras de Dr. Mark Sloan, um médico com faro para encontrar o sarilho e resolver crimes com a ajuda do filho, Steve, que um detetive de homicídios.

CSI, o início do fenómeno

No entanto, se hoje pensamos nos cientistas forenses e os associamos quase de imediato a algumas personagens do pequeno ecrã, isso deveu-se à chegada da série que se iria tornar responsável por ser o principal catalisador em tornar as figuras forenses que desvendam mistérios em autênticas estrelas de popularidade: "CSI - Crime Scene Investigation" (2000).

A glorificação dos investigadores criminais que acontece em "CSI" levou a que esta profissão fosse catapultada para o centro das atenções e que posteriormente estimulasse muitas pessoas a procurarem carreiras nesta área da ciência forense. E embora as carreiras de um investigador possam não ser tão sensacionais como as séries de televisão fazem crer, elas são, para os indivíduos certos, incrivelmente recompensadoras e gratificantes.

Um investigador é, na maioria das vezes, um membro da polícia que é responsável por identificar, reunir, preservar e empacotar provas físicas na cena de um crime. Embora muitas vezes se acredite que os investigadores são os profissionais que realizam testes nas provas físicas, esse trabalho, na verdade, está reservado para os cientistas forenses e outros profissionais.

É verdade que um grupo seleto de investigadores também pode realizar trabalhos forenses de laboratório, mas a sua maioria executa o seu trabalho na cena do crime, onde reunem tudo, desde armas de fogo e impressões digitais até amostras de DNA e provas fotográficas. No entanto, por norma, existe uma 'separação de águas': os cientistas dedicam-se à investigação forense, deixando a criminal de parte, que fica a cargo da polícia.

A sua popularidade cunhou inclusivamente o termo “Efeito CSI” no léxico da criminologia, pois acredita-se que alterou de certa forma o sistema jurídico americano. Isto deveu-se ao facto dos jurados passarem a acreditar que possuem conhecimentos científicos após visionar estes programa, esperando que os resultados dos estudos forenses sejam imediatos ou tão rigorosos quanto aqueles que são apresentados no pequeno ecrã — o que não é possível. Outra das críticas a este tipo de séries, passa pela ideia de que o enredo adianta informação aos criminosos e estes podem estar a aprender novas técnicas para escapar às investigações. Contudo, no início do ano, uma equipa de psicólogos alemães, conduziu uma investigação em que conclui que tudo não passa de um mito e que o efeito CSI não existe.

CSI e seus derivados

Em 2003, estreava também "Investigação Criminal", série em que seguimos os casos da equipa especial do Serviço de Investigação Criminal da Marinha em Washington DC, liderados pelo agente especial Leroy Jethro Gibbs. Porém, para desvendar os crimes ligados à marinha norte-americana, não chegam somente os agentes encarregues de andar no terreno a procurar as provas que liguem aos criminosos. O Dr. Donald ‘Ducky’ Mallard é o médico (e patologista) do NCIS, enquanto Abigail Sciuto é a especialista forense encarregue de analisar o material recolhido.

Dois anos mais tarde, em 2005, acontecia a estreia de "Mentes Criminosas", série que retrata o quotidiano de uma equipa de criminalistas de elite, ligados ao FBI, cuja especialidade é analisar em profundidade a mente dos assassinos em série. É a exploração de outra área forense, esta ligada à psicologia. Ao contrário do que acontece em "CSI" e na "Investigação Criminal", aqui é levada a cabo uma análise comportamental no contexto investigativo para traçar um perfil criminal.

Já em "Harrow", que estreia no dia 10 no AXN, o protagonista é um patologista forense, obcecado pelo seu trabalho, que tenta ajudar a polícia a desvendar crimes enquanto luta com os seus próprios "fantasmas".


Harrow estreia dia 10 de setembro, às 22h30, no AXN.

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