Introdução

A guerra é um sacrilégio, deixemos de alimentá-la! 

Há um ano, na minha peregrinação ao Iraque martirizado, pude tocar com a mão o desastre causado pela guerra, pela violência fratricida, pelo terrorismo, vi os escombros das casas e as feridas dos corações, mas também sementes de esperança de um renascimento. Nunca teria imaginado então assistir à eclosão um ano depois de um conflito na Europa. 

Desde o princípio do meu serviço como bispo de Roma que tenho falado da Terceira Guerra Mundial, dizendo que já estamos a vivê-la, embora por enquanto em peças soltas. Essas peças têm-se tornado cada vez maiores, juntando-se umas às outras… Quantas guerras estão em curso neste momento no mundo, causando dores imensas, vítimas inocentes, especialmente crianças. Guerras que provocam a fuga de milhões de pessoas, obrigadas a deixarem a sua terra, as suas cidades destruídas para salvarem a vida. São as muitas guerras esquecidas, que, de quando em quando, reaparecem diante dos nossos olhos desatentos. Estas guerras pareciam-nos «distantes». Até que, agora, quase de improviso, a guerra estalou ao nosso lado. A Ucrânia foi agredida e invadida. E nesse conflito quantos civis inocentes são atingidos, quantas mulheres, quantas crianças, quantos velhos, obrigados a viver em refúgios escavados nas entranhas da Terra para fugirem às bombas, com famílias que se dividem porque os maridos, os pais, os avós ficam a combater, enquanto as mulheres, as mães e as avós procuram refúgio após longas viagens de esperança e atravessam a fronteira à procura de acolhimento junto de outros países que as recebem de bom coração.

Perante as imagens dilacerantes que vemos todos os dias, perante o clamor das crianças e das mulheres, não podemos senão gritar: «Parem!». A guerra não é solução, a guerra é uma loucura, a guerra é um monstro, a guerra é um cancro que se auto-alimenta consumindo tudo! Além do mais, a guerra é um sacrilégio, que destrói o que há de mais precioso à face da nossa Terra, a vida humana, a inocência dos mais pequenos, a beleza da criação. Sim, a guerra é um sacrilégio! Não posso não recordar a súplica com a qual, em 1962, São João XXIII pediu aos poderosos do seu tempo que suspendessem uma escalada bélica que teria podido arrastar o mundo para o abismo do conflito nuclear. Não posso esquecer a força com a qual São Paulo VI, intervindo em 1965 na Assembleia Geral das Nações Unidas, disse: «A guerra nunca mais! A guerra nunca mais!» Ou ainda, os muitos apelos à paz de São João Paulo II, que, em 1991, definiu a guerra como «uma aventura sem regresso».

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia e por Elisa Baltazar, co-fundadora do projeto de escrita "O Primeiro Capítulo”.

Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar à leitura e à discussão à volta dos livros. Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Maria do Rosário Pedreira, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 1300 participantes, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

Aquela a que estamos a assistir é a enésima barbárie e nós, infelizmente, temos a memória curta. Sim, porque se tivéssemos memória, lembrar-nos-íamos do que nos contaram os nossos avós e os nossos pais, e dar-nos-íamos conta de que precisamos tanto de paz como os nossos pulmões precisam de oxigénio. A guerra perverte tudo, é pura loucura, o seu único fim é a destruição e esta desenvolve-se e cresce através da própria destruição e se tivéssemos memória, não gastaríamos dezenas, centenas de biliões em rearmamento, para nos dotarmos de armas cada vez mais sofisticadas, para fazer crescer o mercado e o tráfico de armamento que acaba por matar crianças, mulheres, velhos: 1981 biliões de dólares por ano, segundo as contas de um importante centro de estudos de Estocolmo. O que representa um dramático crescimento de 2,6 por cento em pleno segundo ano de pandemia, quando, pelo contrário, todos os nossos esforços deveriam ter-se concentrado na saúde global e em salvar do vírus vidas humanas. Se tivéssemos memória, saberíamos que a guerra, antes de chegar à frente de batalha, se para nos corações. O ódio, antes que seja tarde de mais, deve extirpar-se dos corações. E para o fazer, é preciso diálogo, negociações, ouvir, capacidade e criatividade diplomática, políticas de longo alcance capazes de construir um novo sistema de convivência que já não seja baseado nas armas, na potência das armas, na dissuasão. Todas as guerras representam não apenas uma derrota da política, mas também uma vergonhosa rendição perante as forças do mal.

Em novembro de 2019, em Hiroxima, cidade símbolo da Segunda Guerra Mundial cujos habitantes foram trucidados, juntamente com os de Nagasaki, por duas bombas atómicas, reiterei que o uso da energia atómica para fins militares é, hoje mais do que nunca, um crime, não só contra o homem e a sua dignidade, como contra qualquer possibilidade de futuro na nossa casa comum. O uso da energia nuclear para fins militares é imoral, como do mesmo modo é imoral a posse de armas atómicas.

Quem poderia imaginar que, menos de três anos depois, o espetro de uma guerra nuclear teria mostrado o seu rosto na Europa? Assim, passo a passo, caminhamos para a catástrofe. Pedaço a pedaço, o mundo arrisca-se a tornar-se teatro de uma única Terceira Guerra Mundial. Encaminhamo-nos para ela como se fosse inelutável.

Devemos, em vez disso, repetir com vigor: não, não é inelutável! Não, a guerra não é inelutável! Quando nos deixamos devorar pelo monstro que a guerra representa, quando permitimos a tal monstro levantar a cabeça e guiar os nossos atos, perdem todos, destruímos as criaturas de Deus, cometemos um sacrilégio e preparamos um futuro de morte para os nossos filhos e para os nossos netos.

A cupidez, a intolerância, a ambição de poder, a violência, são motivos que impelem a decisão bélica e estes motivos são muitas vezes justificados por uma ideologia bélica que esquece a incomensurável dignidade da vida humana, de qualquer vida humana, e o respeito e o cuidado que lhe devemos.

Perante as imagens de morte que nos chegam da Ucrânia, é difícil ter esperança. E, no entanto, há sinais de esperança. Há milhões de pessoas que não aspiram à guerra, que não justificam a guerra, mas pedem, sim, paz.  Há milhões de jovens que nos pedem que façamos tudo, o possível e o impossível, para parar a guerra, para parar as guerras. É pensando antes de mais neles, nos jovens e nas crianças, que devemos repetir: guerra nunca mais. E empenharmo-nos juntos em construir um mundo que seja mais pacífico, porque mais justo, onde o que triunfe seja a paz, e não a loucura da guerra; a justiça, e não a injustiça da guerra; o perdão recíproco, e não o ódio que divide e que faz ver no outro, no que é diferente de nós, um inimigo. Tenho gosto de citar aqui um pastor de almas italiano, o venerável sacerdote Tonino Bello, bispo de Molfetta-Ruvo-Giovinazzo-Terlizzi, da Apúlia, incansável profeta de paz, que gostava de repetir: os conflitos e todas as guerras «encontram as suas raízes na dissolução dos rostos». Quando obnubilamos o rosto do outro, podemos então fazer crepitar o ruído das armas. Quando temos diante dos olhos o rosto, bem como a dor, do outro, deixa de nos ser permitido desfigurar a sua dignidade com a violência.

Na encíclica Fratelli tutti, propus que se usasse o dinheiro que se emprega em armas e noutras despesas militares para constituir um fundo mundial destinado a eliminar finalmente a fome e a favorecer o desenvolvimento dos países mais pobres, de modo que os seus habitantes não recorram a soluções violentas ou enganosas e não sejam obrigados a abandonar a sua terra em busca de uma vida mais digna.

Renovo esta proposta também hoje, sobretudo hoje. Porque a guerra deve cessar, porque as guerras devem cessar e só cessarão se nós deixarmos de as «alimentar». 

Vaticano, 29 de março de 2022
Francisco

Trabalhemos pela paz
Com a guerra, ninguém vence
Acumulámos armas e perdemos a paz

Extraviámo-nos no caminho da paz.  Esquecemos as lições das tragédias do século passado, o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais. Desatendemos os compromissos assumidos como Comunidade das Nações e estamos a trair os sonhos de paz dos povos e as esperanças dos jovens. Estamos doentes de avidez, encerrámo-nos em interesses nacionalistas, deixámo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo. Preferimos ignorar Deus, conviver com a nossa falsidade, alimentar a agressividade, suprimir vidas e acumular armas, esquecendo-nos de que somos guardiões do nosso próximo e da própria casa comum. Arrasámos com a guerra o jardim da Terra, ferimos com o pecado o coração do Nosso Pai, que nos quer irmãos e irmãs. Com a guerra, ninguém vence. Tornámo-nos indiferentes a todos e a tudo, menos a nós mesmos. E, envergonhados, dizemos: “Perdoa-nos, Senhor!”

De que serve mostrar os dentes? 

É já evidente  que da cultura do poder entendido como domínio e opressão não pode vir uma boa política, que apenas pode vir de uma cultura da solicitude, solicitude para com as pessoas e a sua dignidade e solicitude para com a nossa casa comum. A prova, infelizmente negativa, é a guerra vergonhosa a que estamos a assistir. Penso que para aqueles de vós que pertenceis à minha geração seja insuportável ver aquilo que sucedeu e está a suceder na Ucrânia. Mas isto é, infelizmente, fruto da velha lógica de poder que ainda domina a chamada geopolítica. A história dos últimos setenta anos demonstra-o: nunca faltaram guerras regionais; por isso eu disse que estávamos numa Terceira Guerra Mundial em peças soltas, um pouco por toda a parte; até chegarmos a esta, que tem uma dimensão maior e ameaça o mundo inteiro. Mas o problema de fundo é o mesmo: continua-se a governar o mundo como um «tabuleiro de xadrez», onde os poderosos estudam os movimentos destinados a alargar a sua preponderância em detrimento dos demais.

A verdadeira resposta, portanto, não são novas armas, novas sanções. Envergonhei-me quando li que um grupo de Estados se comprometeu a despender dois por cento, creio, do PIB na aquisição de armas, como resposta ao que está a suceder agora. Que loucura! A resposta, como disse, não são outras armas, outras sanções, outras alianças político-militares, mas uma outra postura, um modo diferente de governar o mundo agora globalizado – não mostrando os dentes, como agora – uma maneira diferente de abordar as relações internacionais. O modelo da solicitude já está em prática, graças a Deus, mas ainda está infelizmente submetido ao do poder técnico-militar.

Com a guerra, ninguém vence

As notícias  das pessoas desalojadas, das pessoas que fogem, das pessoas mortas, das pessoas feridas, de tantos soldados caídos de um lado e doutro, são notícias de morte. Peçamos ao Senhor da vida que nos liberte desta morte da guerra. Com a guerra, perde-se tudo, tudo. Não há vitória numa guerra: tudo é derrota. Que o Senhor envie o seu Espírito para nos fazer compreender o que devemos fazer em vez de travar guerras. O Espírito do Senhor nos livre a todos desta necessidade de autodestruição que se manifesta na guerra. Rezemos também para que os governantes compreendam que comprar armas e fazer armas não é a solução do problema. A solução é trabalharmos em conjunto pela paz e, como diz a Bíblia, fazer instrumentos de paz.

Gastar dinheiro em armas enodoa a alma

Porquê, então, fazermos a guerra  por causa de conflitos que deveríamos resolver falando uns com os outros, de homem para homem? Porque não unir antes as nossas forças e os nossos recursos para travarmos juntos as verdadeiras batalhas da civilização: a luta contra a fome e contra a sede; a luta contra as doenças e as epidemias; a luta contra a pobreza e a escravidão dos nossos dias. Porquê? Certas escolhas não são neutras: destinar às armas grande parte da despesa é tirá-la a outras coisas, o que significa continuar a tirá-la uma vez mais a quem não tem o necessário. E isto é um escândalo: as despesas em armas. O que se gasta em armas, terrível! Não sei qual é a percentagem do PIB, não sei, não me ocorre a cifra exata, mas é uma percentagem alta. E gasta-se em armas para fazer as guerras, não só esta, que é gravíssima, que estamos a viver agora, e sentimo-la mais porque nos está próxima, mas em África, no Médio Oriente, na Ásia, nas guerras contínuas. Isto é grave. É preciso criar a consciência de que continuar a gastar dinheiro em armamento enodoa a alma, enodoa o coração, enodoa a humanidade. De que serve empenharmo-nos todos em coro, solenemente, a nível internacional, nas campanhas contra a pobreza, contra a fome, contra a degradação do planeta, se depois recaímos no velho vício da guerra, na velha estratégia do poder dos armamentos, que leva tudo e todos para trás? Uma guerra leva-nos sempre para trás, sempre. Andamos para trás. Será preciso recomeçar de novo.

A vida humana tem primazia sobre qualquer estratégia

Não se detém, infelizmente, a violenta agressão  contra a Ucrânia, um massacre insensato onde se repetem todos os dias destruições e atrocidades. Isto não tem justificação! Suplico a todos os atores da comunidade internacional que se empenhem a sério em fazer cessar esta guerra repugnante.

Também esta semana, mísseis e bombas se abateram sobre civis, velhos, crianças e mães grávidas. Fui visitar as crianças feridas que estão aqui em Roma. A uma falta-lhe um braço, outra está ferida na cabeça… Crianças inocentes. Penso nos milhões de refugiados ucranianos que têm de fugir, deixando tudo para trás, e experimento uma grande dor por quantos não têm sequer a possibilidade de escapar. Tantos avós, doentes e pobres, separados dos seus familiares, tantas crianças e tantas pessoas frágeis que ficam para morrer sob as bombas, sem poderem receber ajuda e sem sequer encontrarem segurança nos refúgios antiaéreos. Tudo nisto é desumano! Mais, é mesmo sacrílego, porque vai contra a sacralidade da vida humana, sobretudo a vida humana indefesa, que deve ser respeitada e protegida, não eliminada, e que está antes de qualquer estratégia! Não o esqueçamos: é uma crueldade, desumana e sacrílega! Rezemos em silêncio por todos os que sofrem.

*  

Agradeço a quantos acolhem refugiados. Sobretudo, apelo a que cessem os ataques armados, à prevalência das negociações – e que prevaleça também bom senso – e se volte ao respeito do Direito Internacional!

E gostaria também de agradecer aos jornalistas que puseram a própria vida em risco para fornecer informações. Obrigado, irmãos e irmãs, por este serviço! Um serviço que nos permite estar próximos do drama daquela população e de avaliar a crueldade de uma guerra. Obrigado, irmãos e irmãs.

Rezemos juntos pela Ucrânia: temos as suas bandeiras à nossa frente. Rezemos juntos, como irmãos, a Nossa Senhora, Rainha da Ucrânia. Ave, Maria...

A Santa Sé está disposta a fazer tudo, para se colocar ao serviço desta paz. Por estes dias, dois cardeais foram à Ucrânia, para servir o povo, para ajudar. O cardeal Krajewski, Esmoler, para levar ajuda aos necessitados, e o cardeal Czerny, prefeito «ad ínterim» do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral. A presença dos dois cardeais ali é a presença não só do Papa, mas de todo o povo cristão que quer aproximar-se e dizer: “A guerra é uma loucura! Parai, por favor! Olhai para esta crueldade!”

Não esqueçamos as muitas guerras do mundo! 

Por estes dias , fomos abalados por algo trágico: a guerra. Muitas vezes rezámos para que não fosse tomado este caminho. E não deixamos de rezar, aliás, suplicamos a Deus com mais intensidade. Por isso, renovo a todos o convite a fazer de 2 de março, Quarta-Feira de Cinzas, um dia de oração e jejum pela paz na Ucrânia. Um dia para estar perto dos sofrimentos do povo ucraniano, para nos sentirmos todos irmãos e implorar a Deus pelo fim da guerra.

Quem faz a guerra esquece a humanidade. Não parte do povo, não olha para a vida concreta das pessoas, mas coloca acima de tudo os seus interesses e o seu poder. Confia na lógica diabólica e perversa das armas, que é a mais distante da vontade de Deus. E distancia-se das pessoas comuns, que desejam a paz; e que em cada conflito são as verdadeiras vítimas, que sofrem na própria pele as loucuras da guerra. Penso nos velhos, em quantos nestas horas procuram refúgio, nas mães em fuga com os seus filhos... São irmãos e irmãs para quem é urgente abrir corredores humanitários e que devem ser acolhidos.

Com o coração dilacerado por quanto acontece na Ucrânia — e não esqueçamos as guerras noutras partes do mundo, como no Iémen, na Síria, na Etiópia... —, repito: calemos as armas! Deus está com os pacificadores, não com quem usa a violência. Pois quem ama a paz, como reza a Constituição italiana, «repudia a guerra como instrumento de ofensa contra a liberdade de outros povos e como meio de resolução dos diferendos internacionais» (Art. 11). 

Quem tem armas, mais tarde ou mais cedo acaba por usá-las.

Diálogo e fraternidade   são os dois focos essenciais para superar as crises do momento presente. Todavia, «apesar dos múltiplos esforços visando um diálogo construtivo entre as nações, aumenta o ruído ensurdecedor de guerras e conflitos» , e toda a comunidade internacional deve interrogar-se sobre a urgência de encontrar soluções para conflitos intermináveis, que por vezes assumem a fisionomia de verdadeiras guerras por procuração (proxy wars).

Penso antes de mais nada na Síria, onde não se vê ainda um horizonte claro para o renascimento do país. Ainda hoje, o povo sírio chora os seus mortos, a perda de tudo e espera um futuro melhor. São necessárias reformas políticas e constitucionais, para que o país renasça, mas é preciso também que as sanções aplicadas não atinjam diretamente a vida quotidiana, oferecendo um vislumbre de esperança à população, cada vez mais estreitada pelas garras da pobreza.

Nem podemos esquecer o conflito no Iémen, uma tragédia humana que se consuma há anos em silêncio, longe dos holofotes dos meios de comunicação e no meio de uma certa indiferença da comunidade internacional, continuando a provocar numerosas vítimas civis, especialmente mulheres e crianças.

No ano passado, nenhuns avanços houve no processo de paz entre Israel e Palestina. Gostaria verdadeiramente de ver estes dois povos reconstruírem a confiança entre si e voltar a falar diretamente um com o outro para chegarem a viver em dois Estados lado a lado, em paz e segurança, sem ódio nem ressentimentos, mas curados pelo perdão mútuo.

Preocupam também as tensões institucionais na Líbia; bem como os episódios de violência por obra do terrorismo internacional na região do Sahel e os conflitos internos no Sudão, Sudão do Sul e Etiópia, onde é necessário encontrar «o caminho da reconciliação e da paz, através de uma discussão sincera que coloque em primeiro lugar as necessidades da população» .

As desigualdades profundas, as injustiças e a corrupção endémica, assim como as várias formas de pobreza que ofendem a dignidade das pessoas, continuam a alimentar conflitos sociais também no continente americano, onde as polarizações cada vez mais fortes não ajudam a resolver os problemas reais e urgentes dos cidadãos, sobretudo dos mais pobres e vulneráveis.

A confiança mútua e a disponibilidade para um confronto sereno devem animar todas as partes interessadas a encontrarem soluções aceitáveis e duradouras na Ucrânia e no Sul do Cáucaso, bem como a evitarem a abertura de novas crises nos Balcãs, em primeiro lugar na Bósnia e Herzegovina.

Diálogo e fraternidade são tanto mais urgentes para enfrentar, com sabedoria e eficácia, a crise que assola Myanmar há quase um ano, onde as estradas que antes eram lugares de encontro, são agora palco de confrontos, que não poupam sequer os lugares de oração.

Naturalmente, todos os conflitos são favorecidos pela abundância de armas à disposição e pela falta de escrúpulos de quantos se esforçam por espalhá-las. Às vezes, temos a ilusão de que o armamento serve apenas para desempenhar um papel dissuasor contra possíveis agressores. A história, e também as notícias, ensinam-nos, infelizmente, que não é assim. Quem possui armas acaba mais cedo ou mais tarde por usá-las, porque, como dizia São Paulo VI, «não se pode amar de armas em punho».  Além disso, «quando nos rendemos à lógica das armas e nos afastamos da prática do diálogo, esquecemos tragicamente que as armas, antes mesmo de causar vítimas e ruínas, têm a capacidade de provocar pesadelos».  Trata-se de preocupações tornadas ainda mais concretas hoje pela disponibilidade e utilização de armamentos autónomos, que podem ter consequências terríveis e imprevisíveis, mas que deveriam estar sujeitas à responsabilidade da comunidade internacional. 

Entre as armas que a humanidade produziu, causam particular preocupação as armas nucleares. No fim de dezembro passado, devido à pandemia, teve de ser adiada de novo a X Conferência de Exame do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que estava prevista em Nova Iorque por estes dias. Um mundo livre de armas nucleares é possível e necessário. Espero, pois, que a comunidade internacional aproveite a oportunidade da citada conferência para dar um passo significativo nesta direção. A Santa Sé continua firmemente a sustentar que as armas nucleares são instrumentos inadequados e impróprios para responder às ameaças à segurança no século XXI e que a sua posse é imoral. A sua fabricação desvia recursos que deveriam ser empregues na perspetiva de um desenvolvimento humano integral e a sua utilização, além de produzir consequências humanitárias e ambientais catastróficas, ameaça a própria existência da humanidade.

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