O vento arrasta as nuvens para a selva, a água parou de cair. Já não vejo casas, as árvores são substituídas por outras, manchas verdes que impõem limites ao rio. O menino remexe-se, olha para mim com os seus olhos negros. A capa deixa-me ver o nariz – achatado, redondo, pequeno –, suspira e sussurra a pergunta: 

– Já estamos quase a chegar? 

– Não, acabámos de sair. 

Carmen Emilia tem os olhos fechados. Não sei se reza ou se dorme. Conseguirá um adulto dormir com este barulho? Vento, palavras entrecortadas, a água contra a madeira e a condutora a cantar aos gritos – desafinada, com os olhos fechados – uma canção de uma tal cachaloba quitamaridos

Tiro a capa ao menino, dobro-a ao meio e estendo-a diante do nosso lugar. Sem nuvens, o sol cai sobre nós e seca-nos a roupa. O cheiro do colete e do meu corpo unificam-se: cheiro a cão molhado, e o menino também. Ele não se importa, está concentrado a olhar para Carmen Emilia. Mexe as mãos diante dela para verificar se ela dorme ou finge, tal como ele faz quando recebemos visitas em casa. A senhora nem se mexe.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia e por Elisa Baltazar, co-fundadora do projeto de escrita "O Primeiro Capítulo”.

Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar à leitura e à discussão à volta dos livros. Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Maria do Rosário Pedreira, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 1300 participantes, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

O rio dorme, navegamos em cima de um tigre que a qualquer momento pode engolir-me inteira, a mim e ao menino. Quantas vezes pintei, em menina, este rio nos meus desenhos? Repeti até à exaustão que era um dos mais caudalosos do mundo. Como me sentia orgulhosa dele. Profundo, importante, perigoso. A cada época das chuvas, na nascente ou na aldeia, metia-se nas cozinhas, inundava a escola. Não havia uma semana em que uma menina não chegasse à sala de aula com os sapatos húmidos. As freiras davam por isso e obrigavam-nos a tirar os sapatos e a entregar-lhos. Punham-nos a secar atrás dos frigoríficos da cantina da escola, onde guardavam os refrigerantes. 

Quando chegávamos a casa, as mamãs zangavam-se connosco por causa das meias sujas. 

O menino adormece e Carmen Emilia acorda. Abre a boca como uma ursa, estica as mãos, penteia-se. Tira uma banana do seu saco e oferece-me outra. 

– Quantos anos tem? 

– O quê? – pergunto. 

– O menino. Vai a dormir, ou quê? – responde a mastigar a banana. 

Gosto do sabor da fruta antes de se estragar. Tem manchas, vincos, golpes, mordidas de lagartas. Uma fruta de pele lisa nunca sabe tão bem como a que sentiu a passagem do tempo. Carmen Emilia pede-me que, já que estamos em modo de confiança, lhe conte a história do menino. As pessoas perguntam sempre coisas para ter uma desculpa para contar as suas histórias fabricadas, urdidas ao longo de anos. Não a conheço, mas ainda temos muito rio pela frente. Suspiro, estico as pernas e respondo à pergunta que ficou por fazer. 

– Desde que o menino chegou, passei mais noites à sua cabeceira do que na minha cama, atenta ao seu respirar, ao ar quente, de cachorrinho, que entrava e saía do seu nariz, dava-me motivo suficiente para trabalhar e dar-lhe tudo o que me pedisse; o que adivinhasse nos seus olhos negros. Uma manhã, depois de dormitar ao lado da sua cama, o menino acordou-me a chorar. 

– Porque é que eu sou preto e tu branca? – perguntou-me. Tinha quatro anos, e eu não estava preparada para aquela pergunta. Se ele tivesse crescido dentro de mim, se o tivesse parido, não teria sido menos difícil responder. Talvez lhe tivesse dito que no mundo há pessoas de muitas cores e que, ao misturarem-se, nascem cores novas. Que o seu pai era preto e eu branca, que ele tinha ficado com o melhor de nós: a pele do papá, os olhos e o andar da mamã. Mas ele não tinha papá, e não tinha nascido de mim. 

Carmen Emilia não tira os olhos de cima de mim, sabe escutar. Pega na casca da banana que tenho na mão, e atira-a fora. Não sei se acredita em mim. Fica a olhar para o rio, cor de café como ela, como a madeira do barco, como o menino. Depois de um curto silêncio, continuo: 

– O que acontece a alguém que cresce sem mãe? É o vento que cuida dele, uma professora, a senhora da loja da esquina? Quem lhe ensina a rezar, a temer, a deixar de fantasiar? Quem lhe diz: «Menino, isso não se faz!» Quem lhe corta as asas e quem lhas cose? Quem lhe põe os pés na terra? Não a ter, às vezes, é o mesmo que tê-la. Uma mãe é uma coisa que dói. É ferida e cicatriz. Para uma criança, a mamã é a pessoa que pergunta se quer leite no chocolate, que se zanga quando anda descalço pela casa, que prova a sopa primeiro, queima a língua e espera que arrefeça um pouco mais. Uma mamã é a pessoa que está. 

Nesse dia não o mandei para a escola. 

No quintal da casa, junto ao limoeiro, pus a mesa de madeira em que então trabalhava. Levei lápis de cor, folhas e sentei o menino à minha frente. Antes de lhe contar a verdade, pedi-lhe que desenhasse linhas de todas as cores. Abusou do verde, fez círculos roxos e azuis, encheu a folha de cor de laranja, amarelo, cor-de-rosa, preto, vermelho, creme e cor de café. 

Partiu a ponta ao azul-celeste. Com a folha pintada sobre a mesa, expliquei-lhe que o mundo era assim, colorido, e que isso incluía as pessoas, que nós somos natureza. 

– Eu sou uma árvore? – perguntou. 

– Uma árvore com olhos e pés e língua – disse. 

– E tu, és o quê? – perguntou a sorrir.

– O que achas? – disse, pondo-me de pé para que me olhasse completa. 

– Então, és uma mamã – gritou. 

Sentei-me ao seu lado e contei-lhe a verdade: 

– És preto e eu branca porque tens duas mamãs: uma é a mulher preta que te carregou na barriga nove meses e te trouxe ao mundo. A outra sou eu, que cuido de ti todos os dias, desde que eras um bebé. O menino olhava para as laranjas enquanto ouvia. 

– A mulher de que nasceste não pôde ficar contigo, connosco – disse. 

Peguei numa folha, desenhei duas mulheres, uma preta, outra branca, e um menino, preto também. Expliquei-lhe: 

– Esta é a tua mamã preta, esta é a tua mamã branca, e este és tu. Disse-lhe também que ele tinha muita sorte, porque quase todos os meninos tinham só uma mamã e ele tinha duas. Sorveu o ranho, parecia feliz e convencido. Teria podido resolver a questão dizendo-lhe que eram coisas de Deus, mas já lhe tinha ensinado que só ouvíamos a voz de Deus dentro de nós, às oito da noite, antes de ir para a cama. Quem lhe podia explicar como é que Deus falava em voz alta e às dez da manhã? 

Pedi que fizesse o seu próprio desenho. Além de duas mães e um menino, encheu a folha de círculos verdes, cor de limão. Antes de terminar disse, apontando para a minha figura: 

– Ma, quase não se te vê. 

– A cor branca é deslavada. Desenha-me um vestido. Então, em cima do branco pintou com todas as cores. Eu tinha aspecto de uma manta de retalhos. Mas no centro, a combinação de todas as cores deu lugar ao preto. 

No fim, perguntou-me se a outra mamã nos traria presentes quando nos viesse visitar. Disse-lhe que sim.

– Voltou a perguntar pela mamã preta? 

– Não. Mas emoldurei os desenhos que fizemos nesse dia e coloquei-os no quarto dele. Ele sabe que tem duas mamãs, mas não voltámos a falar do assunto. Sei que quando lhe perguntam na escola porque tem uma mamã como eu, ele responde que tem duas mamãs e ri-se dos outros, que só têm uma. Desata a correr, esconde-se na casa de banho e chora. Não sabe porquê, mas chora.

Esta Ferida Cheia de Peixes
créditos: Guerra e Paz

Livro: Esta Ferida Cheia de Peixes

Autor: Lorena Salazar Masso

Editora: Editora Guerra & Paz

Preço: 13,50€

O sol pica, as árvores lutam com a água: querem meter-se, roubar espaço ao leito do Atrato. Ouve-se a algazarra de um pássaro, primeiro furtivamente, depois cada vez mais alto, tenho medo de que acorde o menino. Carmen Emilia aponta para uma árvore, diz-me que é um gavião-pedrês. Aponta para outro e a seguir outro. Também diz que é uma pena não se saber quando um pássaro está a chorar ou a cantar. Não digo nada. Vai-me acordar o menino. 

– Gosta de ser branca? – pergunta-me, rompendo o silêncio. Passo a mão pelos cabelos do menino, ajeito-lhe a camisa e tiro-lhe os sapatos verdes. O passarão já não canta. Olho para a Carmen Emilia e conto-lhe uma recordação. 

*** 

Na semana que vem é o Dia da Raça e é a nossa vez de representar uma peça de teatro no pátio grande do colégio, diante de toda a gente. Não sei actuar; sei fingir que estou com gripe, que o corpo me pica, que me dói o pescoço, mas representar, não. Às três horas e quinze minutos chegámos ao salão de música, ao lado do jardim das plantas, para o primeiro ensaio da obra. De cor creme, sem janelas e com um ventilador encaixado na parede, o salão tem espelhos até no tecto, por isso as freiras nunca entram, é-lhes proibido olhar-se ao espelho porque podem ir para o inferno por serem vaidosas. Ou por serem feias. Este ano não tivemos aulas de música; o salão ficou abandonado quando o professor morreu de um infarto de que não fomos a causa, com os nossos gritos desafinados, como nos dizia com a sua voz de tenor. 

Reunidas em círculo como índias à volta da fogueira, Karol, que tira sempre as melhores notas, é a encarregada de dirigir a peça e de nos dar as instruções. A professora Eloísa usa-a sempre como exemplo, deixa-a mesmo a tomar conta do grupo quando vai à casa de banho pôr um perfume que cheira a flores de cemitério. Olhando-nos por cima do ombro, Karol distribui umas fotocópias que explicam como nos devemos vestir, diz que a história já a tínhamos estudado na aula, e que temos de improvisar os diálogos, de modo natural. Eu não sei improvisar, mas é a primeira vez que me convidam para alguma coisa, pelo que não digo nada. 

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