Olá! Se estão aqui porque ouvem o nosso podcast, Terapia de Casal, bem-vindos de volta. Este livro será tudo aquilo a que já estão habituados, mas em vez de ouvirem a nossa voz enquanto discutimos, decidimos inovar no formato e marcar as nossas quezílias por escrito.

Se, pelo contrário, decidiram pegar neste livro numa livraria ou vos foi oferecido por alguém, há algumas coisas que vamos ter de vos dizer. A primeira é simples: reconsiderem as vossas amizades, porque isto não é presente que se ofereça. No entanto, e já que aqui estão, vamos apresentar-nos.

Somos a Rita da Nova e o Guilherme Fonseca, estamos juntos há seis anos e casados há três. Conhecemo-nos em 2015, numa tarde em que ambos fomos convidados pelo SAPO para gravar umas promoções para os festivais de verão que iriam começar dali a umas semanas. Como o SAPO ia ter banquinhas em que punha festivaleiros que não se conheciam a jogar ao sério, decidiram fazer vídeos com várias pessoas, para divulgar a ação. Um desses pares de pessoas que nunca se tinham visto na vida fomos nós — o Guilherme por ser comediante e guionista, a Rita porque aparentemente tinha «muita graça no Twitter».

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia e por Elisa Baltazar, co-fundadora do projeto de escrita "O Primeiro Capítulo”.

Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar à leitura e à discussão à volta dos livros. Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Maria do Rosário Pedreira, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 1300 participantes, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

Estes jogos do sério — que basicamente consistem em ter duas pessoas a olhar fixamente uma para a outra até que uma delas ri e perde — estavam a durar uma média de três minutos, mas nós levámos a coisa tão a sério (wink wink) que estivemos uma hora e dez minutos a olhar um para o outro. Fomos tão competitivos e chateámos tanto os técnicos que estavam a produzir estes vídeos que acabaram por nos tirar dali presos por um braço. Aquelas pessoas queriam ir para casa, ir ter com as suas famílias, e nós ali a atrapalhar. Nesse dia, compreendemos duas coisas: que tínhamos encontrado alguém com quem competir a sério, mas também que, se calhar, aquilo que tinha acontecido ali tinha sido flirt e era preciso tirar as teimas com um encontro. Corta para os dias de hoje: estamos casados, de casa comprada e a escrever um livro em conjunto.

Como já podem ter percebido, nada no nosso percurso indica que sejamos as pessoas mais qualificadas para vos falar de amor ou para vos ajudar a resolver quaisquer problemas nas vossas relações. Até porque percebemos, desde o dia em que nos conhecemos, que mais de metade dos nossos dias seriam feitos de discórdia, argumentações intermináveis e competição.

No entanto, não queremos que fiquem com a impressão de que aquilo que nos divide são questões profundas, como se devemos ou não ter filhos, se acreditamos em Deus ou quais são as nossas fações políticas. Nisso concordamos plenamente, mas é-nos muito mais complicado chegar a acordo em temas mais triviais e insignificantes como a decoração da casa, o tempo gasto no WC ou em como ir às compras ao supermercado.

É sobre esses temas pequeninos, que não matam, mas moem, que costumamos discutir há cerca de dois anos, todas as semanas, no nosso podcast Terapia de Casal. Por norma, temos convidados que assumem o papel de «terapeutas» e nos ajudam a acender ainda mais a discussão (o chamado «atirar lenha para a fogueira»). Como se as horas de podcast não bastassem, decidimos trazer estes temas para um livro, alguns deles ainda não abordados no podcast, para que as nossas posições fiquem registadas.

Como é que isto vai funcionar? Da seguinte maneira: um de nós escreve um texto sobre um tema da vida em casal que lhe faça especial confusão e o outro tem a possibilidade de responder (naquilo a que chamámos de «direito de resposta»). Desta maneira, vocês, leitores, poderão ter a perspetiva dos dois sobre todas as questões. Porém, e caso ainda não tenham percebido, nós somos extremamente competitivos um com o outro e queremos arrastar-vos para a nossa disputa eterna.

Ora, tal como acontece no fim de cada episódio do nosso podcast, em que os ouvintes costumam mandar-nos mensagens a dizer se são mais team Rita ou team Guilherme, também aqui queremos que tenham a possibilidade de saberem com qual de nós são mais parecidos. No final de cada texto, e respetivo direito de resposta, poderão assinalar de que «equipa» fazem parte.* Nas últimas páginas do livro basta contabilizar o número de vezes em que concordaram com cada um de nós, de maneira a terem o veredito final.

Antes de vos deixarmos partir descansados para a leitura, só uma última nota. Alguns textos terão um código QR que vos levará diretamente para o episódio do podcast que está relacionado com o que acabaram de ler. Se nunca ouviram o Terapia de Casal, terão aqui a oportunidade de o fazer enquanto leem o livro; se já ouviram, porque não ouvir de novo?

Boas leituras e que ganhe o melhor!

*A lápis, se faz favor, que este livro é para tratar com carinho.

1. O problema de ir sozinho ao supermercado - Guilherme

Ir ao supermercado é um tema tão sensível que, a julgar pela maneira como se desenrola atualmente, é capaz de envergonhar até os meus antepassados. Não estou a referir-me aos meus avós ou bisavós, mas sim aos neandertais que saíam da caverna para ir buscar carne e voltavam duas semanas depois com uma carcaça de mamute e várias cicatrizes. É que, no meu caso, as cicatrizes não advêm da caçada, mas do momento em que chego a casa.

Quando era pequeno, ia com a minha mãe ao supermercado e tinha um papel muito simples e direto: supervisionar o carrinho. Ficava de olho nele quando ela se aventurava num corredor, quem sabe para nunca mais voltar. Com o tempo, comecei a conduzir o meu próprio carrinho, a tomar as minhas próprias decisões nas compras e a perceber porque ia tantas vezes com a minha mãe — porque ela me obrigava.

A Rita tem uma relação diferente com supermercados. Enquanto eu olho para eles como locais de bens e serviços que quero despachar o quanto antes, a minha mulher vê-os como um documentário do National Geographic. Quando viajamos, a Rita faz tanta questão de ir a um supermercado como a um museu. Em Amesterdão, o Rijksmuseum foi visitado com tanto entusiasmo como o Damrak Supermarket. A Rita admira cada produto como se estivesse a resolver um escape room e houvesse algures naquele frasco uma pista para resolver o puzzle.

Quando fomos à Escócia passear de carro, vi a Rita exprimir um tipo de felicidade que nunca tinha visto. Porque vimos lagos maravilhosos? Não. Porque passávamos horas a viajar por estradas lindas? Não. Porque em Edimburgo assistimos a espetáculos de comédia incríveis? Não. Porque no supermercado havia um tipo de lata para gatos que não havia cá. Comprou duas de cada sabor e andou o resto da viagem a perguntar-me: «Achas que vão gostar? Achas? Vão gostar, não vão?»

Para mim, ir ao supermercado é uma tarefa, como lavar os dentes ou dobrar meias. É algo que tenho de despachar para me conseguir concentrar em coisas que realmente importam. Para a Rita, ir ao supermercado é como ir a uma estreia de um espetáculo no Dona Maria II. É uma atividade lúdica à qual ela faz questão de chegar a horas e tirar o máximo proveito.

Quando vou sozinho, empurro um carrinho até ao produto que vem a seguir na lista de compras. Quando vou com a Rita, temos um itinerário que parece uma excursão de reformados do Inatel, com entradas, saídas e paragens a meio do caminho.

Quando vou sozinho, agarro em arroz e ponho-o no carrinho. Quando vou com a Rita, é preciso admirar a prateleira do arroz como se fosse o pôr do sol. É preciso escolher o tipo de arroz. É preciso escolher a marca que tem o melhor tipo de arroz. E depois é preciso vasculhar todos os pacotes até encontrar o que tem o prazo de validade mais longo.

Quando vou sozinho, passo horas a mandar mensagens à Rita a confirmar que está tudo como ela quer. Quando vou com a Rita, passo horas num carrinho encostado em segunda fila enquanto ela demora mais tempo a tomar decisões no corredor dos legumes do que se demora no Campus de Justiça.

A Rita só não vai ao supermercado quando não pode. Eu só vou quando tem de ser. No meu caso, ir sozinho às compras é um pouco como ser católico: nunca estou verdadeiramente sozinho e mais tarde serei julgado pelos meus pecados. Onde isso se nota é na galeria de fotos do meu telemóvel. Por cada hora que passo às compras, preciso de outra para apagar as 293 fotos que tirei a latas, pacotes e embalagens e que fui enviando para a Rita me confirmar que não estava a cometer um disparate. Quem me observe nas compras, a tirar fotografias às coisas, deve achar que estive em coma cinquenta anos e que estou a ver uma lata de cogumelos pela primeira vez.

Terapia de Casal
créditos: Manuscrito Editora

Livro: “Terapia de Casal”

Autor: Rita da Nova e Guilherme Fonseca

Editora: Manuscrito

Data de lançamento: 3 de novembro

Preço: 13,41 €

A minha maior falha, segundo me foi dito entre dentes pela Rita, são os prazos de validade. Na minha ótica, se tenho de comprar um rolo de carne, desloco-me até um, agarro nele, pago e arrumo-o em casa. Recentemente, descobri que o prazo de validade de alguns produtos é o mesmo de uma story do Instagram. O tal do rolo tinha um prazo de vinte e quatro horas e, quatro dias depois, quando a Rita pegou nele para o cozinhar, fui repreendido retroativamente. Irónico como o facto de nunca dar atenção a quando um produto azeda acaba sempre por azedar a minha própria relação.

Mas, atenção, a quantidade de disparates que posso continuar a fazer mesmo já estando a quilómetros de distância do tapete rolante da caixa não fica por aqui. «Comeste as uvas?», «Sim», disse eu um dia, inocentemente. «Essas uvas eram minhas, tens de ir comprar mais.» Ou seja, mesmo quando escolho bem, tenho de ter cuidado e saber o que é meu e o que é dela. Aparentemente, quando casámos com comunhão de bens adquiridos, não estava incluída a fruta e a senhora na conservatória esqueceu-se de me avisar, coitada.

Como gato escaldado de corredor dos congelados tem medo, já temos uma coreografia bem definida na hora de ir às compras. A Rita vê as promoções, eu vou buscar o carrinho. A Rita indica o caminho, eu fico atrás dela com o carrinho. A Rita aventura-se nos corredores, eu fico parado em segunda fila ao pé deles. A Rita escolhe os vegetais, eu escolho a fruta. A Rita pergunta-me se prefiro espirais ou cotovelinhos, eu evito dizer que a massa sabe toda ao mesmo e escolho cotovelinhos porque tem um nome mais engraçado. A Rita pede-me para ir buscar massa quebrada, eu vou ao Google confirmar que existe e que ela não está a gozar comigo. A Rita arruma as coisas no saco, eu ponho as coisas no tapete rolante. A Rita diz o NIF, eu digo que não, não estamos a fazer a coleção dos selos, que não percebo sequer para que servem e que se o Continente tem selos, quanto faltará para os CTT terem também uma banca de verduras. A rotina semanal emprenhou em nós uma espécie de pas de deux meticuloso que nos faz conviver em paz. A única coisa que é sempre a Rita a fazer nas compras são os «cem metros do esquecimento». Para quem não está a par do conceito, os «cem metros do esquecimento» são uma prova semi-olímpica em que um cliente já está na caixa quando percebe que se esqueceu de alguma coisa num dos corredores. A Rita é exímia nesse sprint até o local certo, sem deixar exasperar o cliente seguinte. Quando vou sozinho e me esqueço de alguma coisa, nunca corro. Opto por chegar a casa e dizer apenas que «não havia. Juro. Perguntei a uma senhora e tudo. Está esgotadíssimo».

Às vezes, enquanto estamos na fila para pagar, fantasio que encher a despensa é como encher o armário. As lojas de roupa têm a decência de separar os produtos por géneros. Quando entro numa Pull&Bear com a Rita, ela vai para a direita, eu para a esquerda e encontramo-nos vinte minutos depois, cada um com as coisas que quer para si. Quando é que o Pingo Doce vai ter a decência de fazer o mesmo? Basta de homens que vagueiam pelos corredores dos vinhos a fingir que não ouvem as esposas ao longe a chamarem por eles.

Ir às compras com a Rita foi das coisas mais complicadas que tive de fazer no nosso casamento. O truque foi aprender a ser uma mistura de chauffeur de carrinhos que se recusam a andar a direito, com labrador que vai buscar o produto que a dona manda. Acho mal-empregada a fama que a IKEA tem de ser o sítio onde os casais vão para discutir. Tenho muito menos vontade de discutir com a Rita num sítio onde se podem experimentar sofás do que num local onde tenho de ir pesar molhos de brócolos. Bom, isto tudo para explicar que, segundo a Rita, de caçador tenho pouco e de recoletor ainda menos. Desculpem, tetra-tetra-tetra-avós.

Direito de Resposta - Rita

Riram-se muito com o texto que acabaram de ler? Eu também acharia piada se não fosse baseado em opiniões completamente enviesadas. E como este livro é dos dois, sinto-me na obrigação de repor a verdade sobre as nossas idas às compras.

Considero que casei com uma pessoa minimamente capaz de ter uma influência positiva no mundo, quiçá mudá-lo um bocadinho para melhor. O Guilherme tem várias qualidades necessárias para que tal aconteça: é curioso com o mundo à volta dele, procurando sempre compreendê-lo melhor; como consequência, é empático porque consegue facilmente pôr-se nos sapatos de outra pessoa, mesmo que seja muito diferente dela. Importa também dizer que é analítico, mas pragmático — tem a capacidade de avaliar e atuar em igual medida.

Acreditei piamente que o Guilherme ia ser bem-sucedido na vida até ao dia em que foi preciso ir ao supermercado sozinho. Por conta dos dois confinamentos que vivemos entre 2020 e 2021, houve momentos em que achámos mais seguro que apenas um de nós fosse às compras para abastecer a despensa. Ao mesmo tempo, o meu trabalho impedia-me muitas vezes de ir às horas em que sabíamos que estaria mais vazio, pelo que ele teve de assumir esta vertente da nossa vida em casal.

Para que compreendam o quão facilitado está o trabalho pré-compras, eu e o Guilherme temos uma lista partilhada no telemóvel, onde vamos acrescentando os artigos que estão em falta em nossa casa. Não há propriamente um momento certo para elencar tudo o que precisamos, apenas uma verificação rápida de que não é preciso adicionar mais nada antes de pegarmos nos sacos reutilizáveis (de nada, ambiente) e partirmos à aventura.

Sempre que ele é forçado a ir ao supermercado sozinho, eu já sei que vai acontecer uma destas três coisas:

  1. VAI LIGAR-ME OU FAZER UMA VIDEOCHAMADA.

Ora porque não sabe em que corredor estão as pastilhas para a máquina, ora porque quer confirmar se é aquele o queijo flamengo fatiado que é suposto comprar, apesar de nós comermos o mesmo há anos. Se se recordam, há vezes em que eu não vou com ele porque estou a trabalhar, recorrentemente em reuniões, o que faz com que eu não possa atender logo. Nesse caso, já sei que o meu WhatsApp vai ser inundado de fotografias de produtos com o texto: «É isto?» Quando se arma em independente e chega ao fim do desafio sem pedir a ajuda de casa, acontecem coisas como comprar Earl Grey depois de eu lhe ter dito expressamente que o chá preto me deixa ansiosa, tudo porque na embalagem a denominação de «chá preto» não estava escrita em letras garrafais.

2. VAI ESQUECER-SE DE ALGUMA COISA IMPORTANTE.

A desculpa dele é sempre «Mas não estava na lista», como se fosse um mero estafeta e não tivesse capacidades cognitivas para recordar as coisas que costumamos comprar de todas as vezes que vamos ao supermercado. Para o Guilherme, ir às compras é uma atividade automática — conferir a lista, pegar no artigo, colocar no carrinho, repetir. Não há espaço para improviso ou para qualquer tipo de criatividade. Se vocês forem como eu, ir ao supermercado é também uma forma de inspiração, às vezes não me lembro do que quero para as refeições da semana até olhar para as prateleiras. Nos dias em que ele vai sozinho, essas considerações têm todas de ser feitas antes e eu só penso que seria mais eficaz ir lá eu num salto entre reuniões.

3. VAI COMPRAR COISAS COM O PRAZO QUASE NO FIM.

Sabem quantas coisas se estragaram porque o Guilherme ignora completamente a existência de uma coisa chamada «prazo de validade»? Assim de repente, que eu me lembre, já contamos com um rolo de carne, uma embalagem de salmão fumado e um conjunto de quatro iogurtes gregos. Uma variação deste acontecimento é trazer coisas todas mal-amanhadas, mas eu percebo: ninguém lhe disse que ele tinha de escolher a fruta, só que tinha de a comprar.

Num dia em que esteja a funcionar em modo extra-automático, o Guilherme esmera-se e consegue estas três consequências numa só ida ao supermercado. É excelente na quantidade de ordens que consegue cumprir, mas peca muito na qualidade dos mantimentos que traz para casa.

A incapacidade do meu marido não termina no momento em que ele estaciona o carro na garagem de casa e traz os sacos das compras para cima. Eu diria que ainda se torna mais evidente quando é preciso arrumar o que se trouxe. A minha abordagem é muito metódica: primeiro, tira-se tudo dos sacos, depois, faz-se montes diferentes com os artigos que vão para o frigorífico, para a despensa ou para outras divisões da casa e, por fim, arruma-se tudo nos locais próprios para o efeito. A abordagem do Guilherme é completamente caótica e começa logo torta porque ele vai tirando os objetos do saco e arrumando logo nos sítios, causando idas à despensa e aberturas da porta do frigorífico que seriam evitáveis com alguma organização prévia. Quando ele põe a chave à porta, eu salto da cadeira e vou imediatamente à cozinha para começar a fase das arrumações, caso contrário tenho um princípio de ataque cardíaco quando abro o frigorífico e encontro alfaces na primeira prateleira — se ao menos houvesse uma gaveta específica para fruta e legumes…

Todo este cenário tornou-se ainda mais divertido quando percebi que o Guilherme também não tem muito jeito (ou hábito, sequer) para fazer qualquer outro tipo de compras, seja de forma física ou online. Comecemos pelas primeiras: nós não passamos dificuldades financeiras, mas ele acha aceitável andar com calças rotas no rabo ou a caírem-lhe pelas pernas, simplesmente porque tem preguiça e não lhe apetece ir a uma loja. Mas, quando vai, é para ir a sério, é para aceitar todas e quaisquer recomendações das pessoas que lá trabalham e experimentar coisas que sabe, à partida, que não vai levar. Um certo dia, muniu-se de iniciativa e foi comprar calças de ganga à Levi’s, mas ele nunca tinha ido àquela loja. A boa notícia é que encontrou dois pares que adora, que lhe ficam superbem e que, provavelmente, vão durar uns bons anos. A má notícia é que a nota preta que lá deixou daria para comprar centenas de rolos de carne quase a passar do prazo.

Recentemente, descobriu o ato de fazer compras online. Mesmo antes da pandemia, eu já adorava este avanço da tecnologia, que nos permite adquirir as coisas de que precisamos sem ter qualquer tipo de contacto humano, mas o Guilherme ainda vive no século passado e quase nunca se lembra de que há essa possibilidade. Por isso estranhei, no outro dia, quando cheguei à sala e ele estava com ar comprometido em frente ao computador. «Perdi a cabeça», disse-me, como se fosse uma mãe permanentemente em dieta que de vez em quando come o rabinho do pão fatiado. Ao que parece, tinha acabado de comprar três camisolas de básquete oficiais, de jogadores diferentes que, para mim, são a mesma pessoa.

Ele estava tão entusiasmado com esta aquisição que, dez minutos depois, se comportou como todos nós, pessoas normais que compram coisas online com frequência: foi para a janela ver se a encomenda já estava a chegar. «Já chegou?», era tudo o que a expressão dele dizia, e eu não tive coragem de lhe dizer que, na segunda vaga da pandemia, as distribuidoras estavam a demorar mais tempo do que o costume.

A Amazon, o AliExpress, a Wish e o eBay são conceitos muito distantes na cabeça do meu marido e eu acho isso de uma inocência tão genuína, que me dá vontade de o abraçar. Quando encomendou as jerseys da NBA, ficou extremamente surpreendido com os e-mails de status que a loja online da Adidas vai enviando, para dizer que o pacote já está pronto, já foi expedido ou já está com a distribuidora local. «Olha lá o e-mail que a Adidas me mandou», dizia-me ele, sempre que chegava alguma destas notificações, como se os senhores que trabalham na empresa tivessem mesmo o cuidado de escrever ao Guilherme Fonseca, um cliente muito especial em Portugal, a avisar que as camisolas já estavam dobradinhas e prontas a enviar.

O melhor de tudo foi ter imprimido o comprovativo de compra. Quando lhe perguntei porque é que estava a desperdiçar folhas de papel e tinteiro, respondeu-me, com um ar muito expedito, que era «para mostrar ao carteiro, caso fosse preciso».

Só gostava de ver este tipo de entusiasmo e cuidado quando o nosso lar depende da sua prestação no supermercado para se manter minimamente alimentado, limpo e cuidado. Não seja por isso, eu até lhe envio a lista por e-mail para que ele possa imprimir e mostrar à senhora da caixa, caso seja preciso.

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