A Vinha da Fidalga foi adquirida pela Lusovini em 2015 e, dois anos depois, com o objetivo de recuperar o património genético do Dão, começaram a ser plantados exemplares de 12 castas que tinham sido abandonadas há várias décadas.

“Decidimos que seria o projeto onde íamos apostar naquilo que era a recuperação das castas antigas da região, que eu ouvia falar, que muita gente conhecia, mas que já não existiam praticamente castas disponíveis, muito menos vinhos no mercado para podermos provar”, contou à agência Lusa Sónia Martins, presidente executiva da Lusovini e principal responsável pela sua enologia.

Da colheita de 2022, saíram os primeiros cinco vinhos que agora vão ser lançados no mercado, com a marca Pedra Cancela: os brancos Terrantez, Uva Cão e Douradinha e os tintos Malvasia Preta e Monvedro.

O foco é o mercado nacional, sendo que às garrafeiras chegará uma quantidade muito pequena de garrafas, apenas entre 1.000 e 1.500 de cada casta.

Mas o projeto é mais vasto, aguardando as castas Arinto do Interior, Gouveio, Rabo D’Ovelha, Luzídio, Barcelo (brancas) e Coração de Galo e Corninfesto (tintos) a sua vez de chegarem ao mercado.

“Vão ser lançados agora estes cinco vinhos. Temos outros da colheita de 2022 que vão ficando em cave, porque achamos que ainda não está no momento ideal de os lançar. E, da colheita de 2023, temos também as 12 castas vinificadas e engarrafadas separadamente”, explicou.

O objetivo é, segundo a enóloga, “perceber, ao longo de dois ou três anos de colheita e de vinificação, aquilo que podem ser as características das castas” e dos vinhos que delas resultam, até porque atualmente não é possível ter um termo de comparação.

“No caso da Uva Cão, existem outros vinhos para além do nosso, mas nas outras castas não existem vinhos comerciais e, portanto, temos muita dificuldade em fazer qualquer tipo de comparação”, referiu.

Para conseguir ter as castas que lhe permitiram avançar com este projeto, a empresa sediada em Nelas contou com a ajuda de enxertadores da região e do Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão.

José Soares, que começou a enxertar videiras com 15 anos e já leva meio século neste trabalho, foi um deles. No Brasil, na França, de Norte a Sul de Portugal Continental e também nas ilhas açorianas do Pico e do Faial há videiras que cresceram graças às suas mãos, mas é “no coração do Dão” que melhor conhece as castas, bastando-lhe ver a vara para saber qual é.

É também pelo Dão que o seu coração bate mais forte e, por isso, foi com muito entusiasmo que encarou este projeto da Lusovini.

“Fiquei contente porque é uma mais-valia para a região”, afirmou, congratulando-se por os responsáveis da empresa terem decidido olhar para o futuro sem esquecer o passado, não deixando perder este património.

José Soares lembrou que, há cerca de 40 anos, se começaram a enxertar no Dão quatro castas tintas, nomeadamente Jaen, Tinta-Roriz, Rufete e Alfrocheiro.

“Hoje expandiu-se para outras castas que eram oriundas de cá e recuperaram-se essas castas que estavam já a ficar em desuso”, afirmou.

Sem certezas do porquê de estas castas terem sido esquecidas, José Soares apontou algumas peculiaridades que dão dores de cabeça aos produtores, como, por exemplo, a maturação precoce da casta Terrantez.

“As abelhas, os pássaros, são os primeiros a comerem e, quando o produtor vai para apanhar as uvas, chega lá e já não as encontra”, lamentou.

Sónia Martins contou que, no que respeita a algumas castas, já foi possível observar comportamentos em vinha que obrigam a cuidados especiais e poderão explicar o facto de terem sido preteridas.

“No caso do Terrantez, como é uma casta muito vigorosa, normalmente também o seu crescimento não é muito na vertical, é mais horizontalmente, e isso dificulta-nos um pouco a condução da vinha e a fecundação na altura da floração”, explicou.

A Douradinha “é muita atreita à podridão, apodrece rapidamente quando tem alguma humidade”, enquanto o Monvedro “é muito sensível ao calor, ao escaldão”, acrescentou.

“São constatações que vamos fazendo ao longo do tempo, mas é verdade que existe muita falta de informação daquilo que era o passado e essa informação, principalmente na área da viticultura, é fundamental que a vamos tendo ao longo destes próximos anos para perceber a melhor forma de potenciar essas castas”, defendeu.

Apesar de todas as dificuldades, os responsáveis da Lusovini têm a certeza de que valeu a pena investir tempo e dinheiro neste projeto, por acreditarem que estas castas “podem fazer a mudança da região no que diz respeito à sustentabilidade e às alterações climatéricas”.

“Acreditamos que algumas destas castas têm características que nos permitem manter os vinhos do Dão com esta frescura e esta elegância, mesmo que as ondas de calor e que as temperaturas vão aumentando todos os anos”, realçou a enóloga.

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