Anna Delvey, uma suposta socialite, herdeira de uma fortuna milionária, ganhou fama nas redes sociais — antes de chocar a alta finança norte-americana: afinal, Delvey era Sorokin, e através de sucessivos golpes e artimanhas, esta alemã de origem russa tornou possível uma vida de luxo e ostentação.

Depois de atrair seguidores nas redes sociais, de se infiltrar na elite do mundo das obras de arte e de se fazer passear pelas ruas de Manhattan, Anna Sorokin começou a deixar de conseguir sustentar a vida de mentiras que levava. As falsificações que cometeu para defraudar bancos norte-americanos e as mentiras aos “amigos” de colarinho branco começaram a convergir, expondo a intrincada burla de Anna.

Em 2019, com 28 anos, Anna Sorokin foi oficialmente declarada culpada de uma fraude no valor de 200 mil dólares. A sentença foi de quatro a doze anos de prisão, todavia Anna apenas cumpriu três anos, tendo sido libertada em 2021.

A história da burlona que enganou Nova Iorque
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Início: “Ela estava cega pelo brilho e glamour da cidade de Nova Iorque”

Anna Sorokin, filha de um camionista russo, mudou-se com a família para a Alemanha, em 2007. Após concluir a licenciatura, foi viver para Londres para integrar um estágio numa empresa de Relações Públicas, nesta fase já era Anna Delvey. Já em Paris, França, a jovem começou um novo estágio na revista Purple.

Quando em 2016 chegou finalmente aos Estados Unidos, reinventou-se: criou uma persona para entrar na esfera de influência da elite nova-iorquina, dizendo ser filha de um milionário alemão e herdeira de um fundo de cerca de 60 milhões de dólares (mais de 52 milhões de euros). Anna dizia regularmente que queria construir um centro dinâmico de artes visuais dedicado a arte contemporânea. No fundo, um espaço onde pessoas da classe alta poderiam conviver e apreciar obras de arte.

Num podcast do jornal britânico ‘The Guardian’, Hadley Freeman, redator de moda em Nova Iorque e Jesse Hawk, fotógrafo contratado por Anna, juntam-se para abrir as portas do mundo mais próximo da falsa herdeira.

Jesse conheceu Anna Sorokin pela mão da editora da revista Vanity Fair, Rachel Williams, durante um jantar. “Assim que a noite prosseguiu, eles começaram a falar de uma viagem a Marrocos. A Anna perguntou-me se eu estaria interessado em ir com eles, com uma câmara, e gravar a viagem”, revela Jesse.

O fotógrafo acrescenta que quando viajou com Anna, encontrou a “pessoa mais aborrecida”. Durante a viagem Anna tinha “dois iPhones em cada mão”, sempre atenta às redes sociais e a gravar todos os momentos na chegada ao hotel. Ficaram hospedados numa vila privada, com um custo total perto dos de 70 mil dólares (cerca de 61 mil euros): no final, Anna Sorokin não pagou nada e alegou que o cartão de crédito não funcionava.

Hadley Freeman considera que a parte triste desta história é o facto de as pessoas estarem a gozar com a figura de “Gatsby” que Anna representa, mas sublinha que há “imensa gente” de origens humildes que com esforço e trabalho conseguiram entrar no meio onde Sorokin queria chegar. “Não havia nenhuma razão que a impedisse de ser incluída, se tivesse sido sincera”, afirma Hadley ao ‘Guardian’.

Todavia, Anna, hoje com 31 anos, preferiu seguir outra estratégia. Na opinião do juiz, no julgamento, Sorokin “estava cega pelo brilho e glamour da cidade de Nova Iorque”.

Epílogo: A queda e a condenação

Os pais de Anna não eram abastados, mas sempre pagaram as despesas da filha, conta o ‘New York Times’. “Sempre pagámos as despesas dela, a renda, entre outras coisas. Garantiu-nos [Anna] que os gastos dela seriam os melhores investimentos”, acrescentam ao jornal norte-americano.

Mas a Anna não chegavam as ajudas dos pais: também solicitou milhões de dólares em empréstimos a pelo menos dois bancos, alegando já ter milhões de dólares em ativos no exterior. Quando um dos bancos pediu uma taxa como parte do processo para garantir o empréstimo, Sorokin convenceu outro banco a conceder-lhe uma linha de crédito de 100 mil dólares.

A indignação com as incongruências de Anna alastrou-se, a jovem devia dinheiro tanto a bancos como a várias pessoas próximas. Numa entrevista ao programa 60 minutes Australia, Rachel Williams, a editora da revista Vanity Fair, partilha que quando viajou com Anna Sorokin para um resort luxuoso em Marrocos, a falsa herdeira pediu-lhe o cartão de crédito para pagar provisoriamente a parte de Rachel. O objetivo era Anna ser responsável pelas despesas totais, por isso Rachel confiou-lhe o cartão. Quando olhou para a conta, ao chegar a casa, percebeu que tinha sido ela e não Anna a pagar o valor total de 70 mil dólares.

Em 2017, depois de tentar sair de um restaurante de luxo sem pagar, Anna Sorokin foi presa pela polícia nova-iorquina. Em 2019, foi oficialmente condenada por ter arquitetado um esquema que lhe permitiu apoderar-se de mais de 200 mil dólares.

Alguns meses após a condenação, a burlona pronunciou-se sobre o caso. “Só quero dizer que me sinto envergonhada e lamento muito o que fiz”, cita o ‘The New York Post’, que teve acesso à ata do julgamento.

Porém, em sentido oposto, numa entrevista posterior dada ao programa 60 Minutes Austrália riu-se da situação e afirmou que não burlou ninguém e que o que fez não se “qualifica como um crime”.

A justiça discordou. Hoje, no entanto, Anna Sorokin já foi libertada, após cumprir cerca de três anos de pena efetiva na prisão de Rikers Island. Diz, contudo, não se arrepender da estada atrás das grades pela “experiência incrível” que lhe trouxe.

Agora, Anna deverá ficar pelos Estados Unidos. Não tendo a deportação sido possível, poderá manter a sua vida em solo americano e assistir à própria história de vaidade e ilusionismo que estreia esta sexta-feira, dia 11, na Netflix.

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