O romance, editado no ano passado pela Quetzal, foi adaptado ao cinema, e deu ao escritor italiano Sandro Veronesi, arquiteto de formação, o Prémio Strega, que já lhe tinha sido atribuído anteriormente por “Caos Calmo”, tornando-se assim o segundo escritor a ganhar duas vezes o galardão (o outro foi Paolo Volponi).

O título do livro tem um sentido real e metafórico, porque na realidade o colibri consegue suster-se parado a voar, e tudo à sua volta está parado também, enquanto nesta história o “colibri” (alcunha que a mãe do protagonista lhe deu na infância por o seu tamanho estar abaixo da média) luta para se manter estável, mas todo o mundo à sua volta se move, explica o autor em entrevista à agência Lusa, a propósito da estreia, esta semana em Portugal, do filme que adapta a obra, dirigido por Elisabetta Boni e Francesca Archibugi.

O romance encerra uma sucessão de tragédias na vida do protagonista, a que ele resiste nesse “voo parado”, porque o conceito base é que “não há controlo, o controlo é uma ilusão e, neste caso, ele aceita não ter controlo e o seu voo, o seu esforço, é manter-se quieto para não ser apagado, não ser derrubado pelo seu destino. Este foi o foco do início do livro, a morte do mito do controlo”.

Trata-se da história de Marco Carrera, um oftalmologista que um dia vê entrar-lhe pelo consultório um desconhecido que sabe tudo sobre o seu passado e o avisa de que corre perigo, que a sua mulher o trai e que vai ter um filho de quem ele não é pai.

A partir daqui a vida do protagonista muda e desencadeia-se nele um fluxo de recordações: da infância e juventude, da família, de um amigo fora do comum, da mulher que foi o seu verdadeiro amor, da irmã mais velha que morreu afogada.

A história é então desenvolvida de acordo com a força das memórias, ou seja, de forma fragmentada, sem seguir uma ordem cronológica, permitindo saltar no tempo e através de épocas, num período que vai do início dos anos 1970 a um futuro próximo.

Sandro Veronesi explica que esta opção narrativa assenta em “imagens muito fortes” que tinha na cabeça, que “não sabia explicar, mas sentia que tinha de explicar com uma história”.

A mais forte destas imagens, que lhe surgia nítida e repetidamente, “foi a do final do capítulo dramático em que a irmã se suicida: o corpo de uma jovem rapariga sem vida na praia ligeiramente movido pelas ondas na noite. Foi uma imagem sinistra, mas ao mesmo tempo doce, que tive que explicar”.

Mas para contar esta história, o autor recusava a estrutura cronológica, queria ter a possibilidade de amenizar os momentos duros de perda, para si e para o leitor, dando vida a uma personagem depois de morrer, voltando atrás no tempo.

“Para dar oportunidade de vê-la novamente, porque no romance tudo é possível, pode-se morrer numa página e estar vivo nalgumas páginas à frente. Porque eu decido. Não é o fim biológico de algo, a morte é uma das coisas que podem acontecer na história, mas posso contar a morte antes do nascimento”.

Foi assim que decidiu “provavelmente o ato mais heroico” da sua vida de escritor: “Vou escrever os capítulos que quero escrever no momento, esta é a estrutura, não importa se não tem relação com o capitulo anterior”.

Mas como isto poderia criar algum problema em juntá-las se não tivessem relação, pensou então em intervalar com cartas, documentos, ‘emails’, chamadas telefónicas, que “funcionariam como o cimento” que cola os tijolos.

Sandro Veronesi recorda que quando começou a escrever nessa ordem, apenas porque sentia que queria escrever aquilo sem outra interferência, experimentou uma “sensação de liberdade, de não ser escravo de uma estrutura, que nunca antes tinha experimentado”.

A experiência libertadora, porém, não veio sozinha, veio acompanhada de um medo que chegou a tirar-lhe o sono à noite.

“Às vezes, durante a noite, não conseguia dormir, porque estava a pensar na trapalhada em que me tinha metido, que não conseguiria chegar ao fim. Acordava a minha mulher e dizia-lhe que tinha de aumentar os seus rendimentos, os seus ganhos, porque eu não conseguia terminar o romance e não voltaria a ganhar dinheiro”, contou.

O fim da personagem principal no livro acontece em 2030, com uma morte medicamente assistida, possibilidade que o autor acredita que será real por aquela altura, que será “um direito das pessoas livres”, que condenadas à morte por uma doença incurável, possam “organizar ou pedir a alguém para organizar a sua própria morte”.

Num romance que afirma “a morte do controlo”, esta ideia no final da história foi a “afirmação do controlo da morte”.

“É a única coisa que Marco Carrera decide da sua própria vida, não é uma reação ao movimento do mundo, é algo que ele decide e é a única forma de controlo que exercita em toda a sua vida, ele controla o fim dela. E isso foi o pensamento final, que liga com o início do livro: morte do controlo e controlo da morte”.

“O colibri” não é um romance autobiográfico, afirma o autor, sublinhando até que Marco Carrera é o seu oposto, como o negativo de uma fotografia.

O protagonista não confia na psicanálise (todas as mulheres da história fazem psicanálise), ao passo que Sandro Veronesi a faz desde os 25 anos; joga ténis de forma conservadora, enquanto o autor joga de forma agressiva; é resistente à mudança, quando o seu criador se assume como alguém que está sempre à espera disso.

“De certa forma, ele é a projeção do que falta na minha vida, é um complemento. Durante os quatro anos que fiquei na companhia de Marco Carrera, enquanto escrevia o livro, estava a descobrir-me, a viver as coisas a que tinha renunciado por ter escolhido outra coisa. Portanto, em certa medida, Marco Carrera é a parte de mim que eu sacrifiquei por escolher o outro”.

Claro que na base desta construção estarão memórias antigas, como está o nome da mãe, Luísa, na mulher que Marco Carrera ama, ou a sua experiência de paternidade – um tema muito forte na história -, que lhe advém do facto de ter cinco filhos e de viver como “pai” há 31 anos, praticamente metade da sua vida, assume o escritor.

A infelicidade de todos os casais é algo que também se evidencia na história e que Sandro Veronesi explica com a constatação de que “a família é uma zona de guerra”.

“Mesmo quando as coisas aparentemente estão bem, há tensões que são expressas em momentos de guerra. Alguém está à espera do momento para expressar o que não gosta, é um lugar onde a paz é imposta, não é natural”.

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