Em 1913, o pintor e compositor italiano Luigi Russolo escreveu um manifesto intitulado A Arte dos Ruídos, no qual defende que o ouvido humano, através dos avanços da tecnologia e da migração para as grandes cidades, foi educado “pela vida moderna tão pródiga dos mais variados ruídos” - clamando, assim, por uma nova música, que conquistasse em definitivo “a variedade infinita dos 'sons-ruídos'”. No fundo: que aliasse o barulho infernal da maquinaria aos timbres suaves e “puros” da música composta até então.

Esse mesmo manifesto seria de uma influência extrema não só no meio futurista em que se inseria Russolo, mas também nos artistas que se lhe seguiram e que deram origem ao noise, género musical que mal o é onde o ruído, ou aquilo que entendemos por ruído no seu sentido lato, é quem mais ordena. Nomes como Merzbow, Einstürzende Neubauten, Test Dept., John Cage ou até mesmo Lou Reed, no seminal “Metal Machine Music” (1975), beberam direta ou indiretamente das palavras do italiano.

Acrescente-se-lhes, depois desta noite, o de Julian Casablancas, homem que começámos por conhecer enquanto menino bonito e rico dos Strokes e que aqui se apresentou com os The Voidz, banda formada em 2013 pelo próprio (e que entretanto perdeu o seu nome), que veio até à Altice Arena mostrar os temas que compõem “Virtue”, o seu novo álbum.

Quer dizer: seria essa a premissa. Porque ao longo de uma hora, se tanto, aquilo a que se assistiu numa Arena terrivelmente vazia – mil pessoas já seria um extraordinário exagero – foi ao incorporar do manifesto de Luigi Russolo por parte de um grupo que commumente se associa ao bom e velho rock. Do Palco Super Bock não brotaram canções, mas sim gravilha, negra e áspera, impercetível e incompreensível para quem nunca escutou um disco de noise na sua vida.

Num espetáculo que começou com algo semelhante a uma versão thrash metal ou trash metal de 'Smoke On the Water', a única ideia que ficou é a de que aquilo tudo será memorável e talvez não pelas melhores razões. Batida eletrónica, riffs estridentes e Casablancas a balbuciar qualquer coisa em língua escondida, desconhecendo-se as origens de tudo isto para sempre: foi culpa da acústica da Altice Arena, foi culpa dos próprios músicos e do seu equipamento ou foi algo propositadamente ruidoso e lamacento, um ato punk para acabar com todos os atos punk, uma destruição sem apelo nem agravo e sem cedências de todos os mandamentos musicais que possam existir?

Só Casablancas, que a dada altura pediu desculpa por qualquer coisinha (o quê, não se conseguiu perceber), e mais tarde abandonaria o palco sem nada dizer para regressar para um encore igualmente agonizante (no melhor dos sentidos para quem gosta de barulho), o poderá explicar. A reação do escasso público oscilou entre a mais pura das alegrias, havendo até quem pedisse para que o volume fosse ainda mais elevado, e a incompreensão total de quem pagou bilhete para assistir a um não-concerto. Pelo meio, uma dose saudável de curiosidade: no fim de contas, o bom português gosta é de um desastre de automóvel.

Muito menos desastroso foi o regresso dos The The aos palcos portugueses, quebrado um hiato de 13 anos sem concertos seus. A banda de Matt Johnson levou alguns fãs mais acérrimos a visitar o Super Bock Super Rock apenas e só para ouvir as canções que os fizeram tão felizes na adolescência, oriundas de discos como “Soul Mining” (1983), “Infected” (1986) ou “Mind Bomb” (1989). Sem música nova a mostrar – mas com um prometido álbum a caminho, conforme o revelou em conferência de imprensa, horas antes –, Johnson subiu a palco acompanhado pelos seus comparsas em modo best of, desfilando êxito atrás de êxito com uma destreza imaculada.

Começando com a dolência ambiciosamente suave de 'Global Eyes', os The The fizeram-nos acreditar, ao longo de uma hora e meia, que toda essa história de hiato foi manifestamente exagerada. A forma como a banda britânica se apresentou em palco, sem falhas ou momentos fracos, foi notável, e uma lição preciosa para quem quiser ainda hoje pegar numa guitarra, juntar uns amigos e dar uns concertos. Quem não tiver paciência para aprender a tocar um instrumento pode sempre fazer air bass como aquele a que se assistiu, nas filas da frente, em 'Sweet Bird of Truth'.

De facto, aquelas notas debitadas pelo baixista James Eller, que acompanha Matt Johnson hoje em dia, a isso são convidativas, de tão grossas e dançáveis, até mesmo quase funk; 'Heartland' merece mesmo um pezinho de dança mas sem estragar muito o corpo, já que a grande maioria dos presentes no Palco EDP para os ver já contava de 40 anos para cima e a idade, como se sabe, não perdoa. Ainda que o grande motivo de interesse sejam as letras-poemas do líder da banda, que tem em 'Armageddon Days Are Here (Again)' uma canção cujos versos ainda hoje assustam de tão atuais. If the real Jesus Christ were to stand up today / He'd be gunned down cold by the C.I.A....

A toada jazzy de bar de 'This Is The Night', com o piano a tomar a dianteira, foi a antítese perfeita para 'This Is The Day', canção que muitos mostraram ainda manter na ponta da língua. Tal como 'Slow Emotion Replay', onde uma melódica maravilhosa dá o toque de Midas que a canção precisa, e que se seguiu a uma versão alternativa de 'Soul Catcher'. E poder-se-ia enumerar todas as canções que os The The tocaram, mas isso não faria jus a um espetáculo que, mais que retorno, foi confirmação de que nunca verdadeiramente saíram do imaginário dos seus fãs. Houve quem encontrasse velhos amigos perto das grades, quem esgotasse todas as suas energias como se fosse vinte ou trinta anos mais novo, quem encontrasse a rouquidão ou a lágrima no canto do olho. Com 'Lonely Planet', fecho de um concerto a roçar a perfeição, ficou a certeza: os The The estão mesmo de volta e vão ficar connosco por muito, muito tempo.

Já Benjamin Clementine nunca deixou de estar connosco, sendo praticamente um emigrante e não um turista passageiro em Portugal, só lhe faltando comprar uma casa em Lisboa. Perante um público reduzido mas nada apático, o músico foi debitando, pela quinta vez no espaço de um ano, os temas do seu segundo álbum, “I Tell a Fly”. O problema é que já não restará ninguém no país que ainda não o tenha visto e à sua voz operática ao vivo, pelo que o interesse roçou o nulo – aumentando apenas ligeiramente quando a fadista Ana Moura sobe ao palco para interpretar 'I Won't Complain', e aumentando pouco mais quando Clementine brincou e afirmou que Seu Jorge seria o próximo convidado... Nos nossos sonhos.

Entre os concertos na Altice Arena, os La Fura Dels Baus fizeram aquilo que normalmente se espera de uma peça de teatro experimental: uma bizarria sem rodeios que ora pode ser divertida, ora extremamente aborrecida, dependendo a sensação final sentida dos gostos pessoais de cada um. Na primeira de duas sessões, a companhia espanhola colocou uma cantora nas alturas e deu ritmo a sete dançarinos vestidos de branco que, progressivamente, foram subindo até ao teto; na segunda, deixaram que fossem os artistas do Chapitô a tomar as rédeas (ou redes, humanas) do espetáculo. A grande questão é: afinal, que significou isto tudo?

Um significado que ainda não conseguimos encontrar para Sevdaliza, que entre o público foi sendo descrita como “Woodkid, versão feminina”, “FKA Twigs dos menos afortunados” ou “Sade Adu com um grau maior de erotismo”. Não que o concerto não tenha sido cativante, impulsionado pela sua voz de diva e por uma eletrónica quase industrial, gótica. Posicionando-se atrás de um ramalhete de flores, Sevdaliza não cantou apenas; também provocou sibilos, aplausos e manifestações outras de júbilo sempre que se contorcia devido ao ritmo. E ainda apresentou uma  nova versão de 'Human', “especialmente” para os presentes, entoada num português mais próximo do espanhol. Já Baxter Dury é facilmente identificável, e não apenas por ser filho de quem é; o músico tem em 'Miami' um das orelhudas canções pop dos últimos anos, mas antes de a tocar foi cavalgando por entre um certo swing, beijinhos muitos e uma onda glam não muito distante da de Bryan Ferry – talvez mais moderna e independente, apenas. E não se esqueceu de mencionar Portugal por diversas vezes, nas canções e fora delas, quiçá apenas para provocar uma reação. Claro que poderia ter feito como os portuenses Sunflowers e limitado-se a tocar com a eletricidade nos píncaros; de 'The Witch' a 'Charlie Don't Surf', a dupla – ajudada em palco por um baixista convidado – mostrou uma vez mais ser o último bastião do rock em Portugal, mesmo que uma equipa de reportagem tenha preferido fazer um direto a partir do palco enquanto eles atuavam. Não que isso tenha de alguma forma prejudicado o seu concerto. Foi apenas uma extraordinária falta de respeito.

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