O texto vem da fase de juventude de Koltès (1948-1989) e condensa os acontecimentos de “Hamlet” em quatro personagens – Hamlet, Ofélia, Gertrud e Claudius – e num só dia, o ‘dia da matança’, numa versão “rápida e voraz, e muito violenta”, explicou à Lusa o encenador, António Júlio.

“Não é por acaso que o espetáculo se centra num núcleo familiar. Na história original, também é assim, mas aqui é mais evidente. É uma família que é um reflexo do país, do lugar, do estado, e que, ao ser arruinada e desfazer-se, matando-se uns aos outros, acaba tudo, o país, o Estado”, comenta.

Apesar de ter morrido com 41 anos, Koltès é considerado uma das vozes mais significativas da dramaturgia europeia do século XX, mesmo que esta versão ‘condensada’ de Hamlet tenha sido enjeitada pelo autor, que “considerou que o trabalho anterior a ‘Noite antes da Floresta’ não devia ser considerado”.

“Creio que ele também estivesse a experimentar-se na escrita. Talvez hoje quisesse mudar o texto. Aqui, reescreve e redistribui muito do texto, atribuindo-as a estas quatro, num exercício muito livre. Verteu para estas quatro personagens [o texto] e centrou toda a ação numa problemática de família”, reforça António Júlio.

Se esta encenação reconheceu “Shakespeare em Koltès”, um exercício “mais curioso foi, ao ler Shakespeare, reconhecer Koltès”, sendo que o encenador admite “uma expectativa de como o público vai receber o texto”.

Por um lado, se há um grupo de pessoas “que já conhecem a história” e conhecem várias das frases icónicas do espetáculo do ‘Bardo’, outros há “que a ouvirão pela primeira vez”, configurando duas experiências diferentes.

“Os primeiros vão perceber que estas personagens são feitas de frases de outros, e tivemos, à falta de melhor expressão, muitas vezes a sensação de estarmos perante ‘Frankensteins’, corpos construídos de pedaços de outros corpos”, refere.

Num texto que tem uma “estranheza” muito própria, que foi “compreendida e aceitada pelos atores”, o dramaturgo francês segue a estrutura clássica de cinco atos e uma abordagem cronológica do último dia da peça original.

A partir da tradução de Alexandra Moreira da Silva, a encenação de António Júlio tem em Júlia Valente, Maria do Céu Ribeiro, Paulo Calatré e Paulo Mota o elenco, com música de José Alberto Gomes e cenografia e figurinos de Catarina Barros, numa coprodução do Teatro Experimental do Porto e do Teatro Municipal do Porto.

“O dia da matança na história de Hamlet” é apresentada no Rivoli pelas 21:00 de sexta-feira, no sábado, às 19:00, e, no domingo, tem início pelas 17:00.

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