A pergunta é-nos colocada em bom português, com um notório sotaque italiano: “onde fica a Altice Arena?”. Para lá do centro comercial, respondemos. Mas poderíamos ter respondido que bastava seguir em frente e em qualquer direção, já que, esta noite, todos os caminhos iam dar à sala lisboeta. O motivo? O regresso dos Tool a Portugal, 13 anos após dose dupla (nesta mesma Arena e no festival Super Bock Super Rock), e 13 anos após a edição de “10,000 Days”, o seu último álbum de estúdio.

A espera, para os fãs, foi longa. Demasiado longa até. Arrancaram-se cabelos, suou-se em bica, lamentou-se a ausência, rogaram-se pragas contra Deus e o diabo. Ao longo destes 13 anos, os adeptos dos Tool passaram pelas cinco fases do Modelo de Kübler-Ross: a negação (“não acredito que não voltem, não acredito”), a raiva (“mas estes gajos nunca mais editam nada?”), a negociação (“é deixar o Maynard despachar-se com os A Perfect Circle e os Puscifer”), a depressão (“sem outro 'Ænima' nada na vida importa”) e a aceitação (“bem, teremos sempre os Porcupine Tree / os Faith No More / os Deftones / outra banda qualquer”).

Porém, tudo mudou em outubro do ano passado, quando os norte-americanos anunciaram por fim um concerto em Portugal (“aleluia!”, gritaram os crentes), e ao longo deste ano, quando confirmaram que o novo álbum estava a ser terminado, havendo já data marcada para o seu lançamento: 30 de agosto. A espera havia terminado. Não mais os “toolinhos” iriam sofrer com as saudades do grupo que é seu, mais que qualquer outro.

Ainda assim, os que encheram a Altice Arena nesta agradável noite de julho precisaram de esperar um pouco mais para voltar a ver o quarteto californiano a pisar um palco nacional. Quinze minutos para lá da hora marcada, no total. Bem, esperaram mais de uma década: cresceram, casaram, tiveram filhos, arranjaram empregos estáveis, todas essas coisas adultas. Quinze minutos a mais ou a menos constitui um mero grão de areia na grande ampulheta. Quinze minutos a mais ou a menos não impediriam a enorme ovação com que os Tool são brindados assim que entram, à vez, de pronto fazendo soar uma furiosa batida industrial e guitarras pingando labaredas.

Atrás de tudo isto, escondido junto ao baterista e vestido como um punk rocker da velha guarda, Maynard James Keenan apresenta-se como o anti-frontman; ele sabe que o espetáculo não é apenas seu, que os seus colegas têm tanto ou mais peso no mural sonoro e estético da banda, que a estrela não é ele e sim a que se posiciona, de sete pontas, acima do palco. A voz soa ora robótica, mecanizando uma música que sempre nos pareceu transhumana, ora se alia delicadamente aos demais instrumentos, como parte fulcral da canção e não como algo que lhe é imposta.

O que não impediu o público, que mesmo nos balcões se manteve quase todo o concerto de pé (o que poderá ter sido chato para quem o queria ver no conforto de uma cadeira), de cantar a plenos pulmões os primeiros versos de 'The Pot', tema que encontramos precisamente em “10,000 Days”. Há que reviver os velhos clássicos antes de mostrar o que de bom tem vindo a ser feito no estúdio, dar um passo atrás para depois dar dois à frente. Dois, no sentido de ter sido possível escutar dois temas novos, os mesmos que a banda tem vindo a apresentar na sua nova digressão europeia: 'Descending' e 'Invincible', que poderão – ou não – vir a fazer parte do próximo disco.

Ao longo de duas horas, as saudades foram sendo mortas através do ruído que brotava daqueles quatro indivíduos hoje beatificados (tanto ruído, que a sala parecia tremer), através dos solos de guitarra que por ali andavam como águas-vivas, através do twang! do baixo que anunciou 'Schism', através da repetição bruta a la Swans ou através de monólitos como 'Intolerance', uma daquelas bojardas que acaba com a carreira de qualquer guarda-redes. Foram-no, mas tendo em conta a loucura demonstrada pelo público, não será de todo errado pensar que os Tool poderiam ter ido à Altice Arena tocar versões de canções de Ruth Marlene que seriam recebidos em ombros à mesma.

Para o final, e após um interregno de dez minutos (cronometrado e entoado pelos presentes como se estivessemos numa festa de ano novo), estava reservado um muito aplaudido solo de bateria, a crítica social de 'Vicarious' e o êxito 'Stinkfist', numa altura em que já foi possível filmar com os telemóveis, com a bênção de Keenan (sendo que nem todos ligaram às proibições afixadas por toda a sala, ao longo do espetáculo), no único momento em que este se dirigiu ao público, para agradecer e garantir que estava feliz por ali estar. A última nota termina e a casa vem abaixo com todo o tipo de aplausos, assobios e esgares de felicidade. Há 13 anos que os fãs de Tool não pregavam olho. Hoje podem, por fim, sonhar pacificamente.

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