Paula Gouveia chegou à Alemanha há 20 anos. Ia ficar por 365 dias, primeiro em Potsdam, depois em Berlim. “Prolonguei inicialmente por mais seis meses, depois ia dizendo ‘só mais um verão, só mais um inverno, mais meio ano', e fui ficando”, conta ao SAPO24, sentada junto à janela típica da sua pastelaria. “Estou cá há meia vida”, diz, lembrando a cidade que a conquistou.

“Foi em 1994, o muro não tinha caído há muito tempo, e Berlim estava em ebulição, uma cidade incrível. Apaixonou-me a liberdade de estar e de ser”, relata. “E era uma cidade muito barata, toda a gente trabalhava em cafés ou bares, as rendas eram baixas e podia ter-se uma vida boémia. Podia ir-se ao cinema, teatro, à opera, havia arte, espetáculos e performances em todo o lado. Foi uma altura incrível, sem preconceitos, sem críticas, em que ninguém olhava torto”.

A conversa é aconchegada por uma bica de café português. É domingo de manhã e a agitação grande. Quem está atrás do balcão não tem mãos a medir: atende, serve, regista. A tempos faz-se uma revista sobre as mesas para levantar os copos de galão, os de sempre, com riscas verticais e colheres longas. Paula conta-nos que as traz de terras lusas. “Eu gosto para o galão, têm um ar muito português”, diz, confessando que é particularmente “picuinhas” com esta especialidade.

“Estou convencida que temos o melhor galão do mundo porque usamos leite biológico e café português, e porque temos o cuidado de fazer com que fique só com aquele creme em cima. Faço questão, por exemplo, que o galão não tenha espuminha nenhuma. Às vezes tenho de andar a correr atrás dos meus funcionários. Se quer espuma pode sempre beber um cappuccino ou um latte macchiato. O galão é uma coisa muito nossa e as pessoas adoram”, diz Paula, acrescentando que ao início teve dificuldade em convencer os clientes de que este era o “verdadeiro” galão português.

“Há aqui um sítio que se chama galão, gerido por alemães, que adaptaram a bebida e fazem-na com espuma e noutro copo. Tive imensa dificuldade em explicar às pessoas que a bebida original não tem espuma, é só aquele cremezinho em cima".

Mas se no galão Paula não cedeu, há outras iguarias que requerem compromisso. “Nós tentamos ao máximo que o nosso produto seja fiel à origem. O nosso pastel de nata leva ovos de verdade, nos restantes bolos usamos o nosso creme de pasteleiro, que é mais suave — e nem lhe chamamos creme de ovos, senão os alemães não comem. Tivemos de adaptar, mas eu também confesso que prefiro, já comemos tantos ovos! Agora temos uma variante vegan do pastel de nata também, é algo que estamos a tentar desenvolver mais. Muitas vezes os pais preferem comprar esses para as crianças, explica.

Toda a dinâmica do ovo leva-nos questionar a clientela de Paula. “Os nossos principais clientes não são portugueses. Portugueses é sobretudo ao fim de semana, temos mais alemães, italianos, franceses e também gregos”.

Sim, porque a Bekarei tem uma costela grega, ainda que seja uma “costela” rendida à doçaria portuguesa. E é num português perfeito que “Jorge” nos cumprimenta. Estranhamos, mas Paula apressa-se a explicar que o marido, por ter um nome complicado para a maioria, resolveu adotar a versão “aportuguesada” e é sempre assim que se apresenta. “Ele fala português, já eu vejo-me grega”, brinca Paula.

George Andreadis, apaixonado por tigelada, é na verdade um dos grandes responsáveis por existir uma montra tipicamente portuguesa no número 23 da Dunckerstraße.

“Conhecemo-nos há 17 anos, através de um amigo comum. Nem sabia que ele era meu vizinho, depois foi uma questão de abrir os olhos para aquele sorriso, ele conquistou-me logo”, confidencia-nos Paula.

A aventura a dois começou no Eka, um bar cujo logo vermelho está hoje pendurado numa das salas interiores da padaria alemã recuperada pela dupla.

“Na altura, há mais de 15 anos, era relativamente fácil abrir algo mesmo com pouco dinheiro, e depois iam-se fazendo as coisas. Não é como hoje, em que a pessoa tem logo de ter um conceito. Quando abrimos o bar nem máquina de café tínhamos. Cinco anos depois nasceu o nosso filho e durante um passeio pelo bairro vimos esta padaria. Na porta tinha um papel a dizer que os donos iam para a reforma. Pensámos ‘é agora ou nunca’". E foi. “Mantivemos o teto, toda a madeira da loja e a vitrina principal também é a original, mas adaptada”. A Nossa Senhora e o Galo de Barcelos apareceram depois.

créditos: Paulo Rascão | Pedro Marques | MadreMedia

“Avançámos com aquela ingenuidade de que abrir uma pastelaria seria igual a um bar, mas não é a mesma coisa. Começámos por vender produtos de uma outra padaria, mas não funcionou. Vender pão não é o mesmo que vender um cocktail. E sentimos isso na pele. Ao fim de dois anos de porta aberta tivemos de decidir se continuávamos ou se fechávamos", relata.

"Um dia veio alguém ter connosco para vender caracóis suecos [de canela] e achámos que eram um pouco caros. O George entendeu que era capaz de os fazer ele mesmo, começou a ver vídeos e a experimentar. Entretanto, o pastel de nata e o croissant português ainda vinham de Hamburgo, mas depois ele decidiu fazê-los também. Foi assim que fomos substituindo os produtos que vendíamos da outra padaria”, conta Paula.

Daqui para uma das melhores padarias alemãs foi um pulo. Em 2014, graças à recomendação de um cliente, a Bekarei foi convidada para participar num programa de televisão que queria descobrir a melhor padaria do país.

“Na altura eles estavam à procura de padarias que tivessem fabrico próprio e fugissem da norma. Ficámos super admirados com o convite, já que a Alemanha é conhecida pelo seu pão, quase nada iguala o pão alemão. Mas pensámos ‘porque não?’. Ganhámos no primeiro dia, e no seguinte, não estávamos à espera. Seguimos na competição e ficámos em 6.º lugar, o que para nós foi fantástico”.

créditos: Paulo Rascão | Pedro Marques | MadreMedia

E no dia seguinte? “O impacto na Bekarei foi bombástico, nós não estávamos preparados. De um dia para o outro eram filas e filas. Nós sabemos que os nossos produtos são bons, mas foi o reconhecimento, foi o selo de qualidade e de confiança das pessoas. Foi complicado, não tínhamos mãos suficientes”, confessa-nos Paula.

Com mais funcionários e padeiros — muitos dos quais portugueses — a Bekarei deu conta do recado e expandiu o seu negócio.

“Uma hamburgueria desafiou-nos a fazer pão para eles porque traziam o seu de Londres. Hoje produzimos para mais de 100 hamburguerias. Uns trazem a sua receita, outros pedem-nos para criar uma, e temos também o nosso clássico”, diz Paula.

O próximo passo é estrear uma banca no mercado Markthalle Neun, em Kreuzberg, num modelo muito similar ao do Mercado da Ribeira, em Lisboa.

Além disso, a Bekarei foi convidada “para montar um bistrô no planetário de Berlim, que foi renovado. Vão lá montar uma sala de cinema e querem que façamos um café”.

O negócio vai de vento em popa e portanto os próximos anos são para ficar, mas Paula “gostava de envelhecer noutro sítio, com mais sol e mar”. Entre Portugal e a Grécia “vai ser difícil escolher, vai”, reconhece.

Para aqueles que desejam vir para a Alemanha, a portuguesa deixa um conselho, é preciso dominar a língua e ser competente. “Aqui não existe propriamente a ‘cunha’. E mesmo que aconteça, depois é preciso saber fazer. Os alemães valorizam o trabalho”.

Paula despede-se de nós para voltar ao seu, porque a fila soma.

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