"Quando nos fizemos à estrada, naquele 24 de agosto de 2017, estávamos longe de pensar que este seria o epílogo daquela aventura que, num só dia, nos levou de Lisboa a Almeida [Guarda], passando por Alvaiázere [Leiria], Carapelhos [Coimbra] e Oliveira do Bairro". Tudo começou, contam no livro e ao SAPO24, numa reportagem para a revista Sábado, publicação onde a jornalista Ana Catarina André e a fotógrafa Marisa Cardoso são colaboradoras.

Geografia da memória pelo palato

São mais de 13 mil quilómetros percorridos em visita a 56 confrarias gastronómicas e báquicas. "As pessoas abriram-nos as suas portas", contam em jeito de início de conversa. De norte, da Confraria da Caldeirada de Peixe e do Camarão de Espinho, a sul, até à Confraria do Atum, passando pelo centro, pela Confraria da Broa d’Avanca até à Real Confraria do Maranho. Não esquecendo a região de Lisboa, com a Confraria do Arinto de Bucelas ou a dos Enófilos do Vinho de Carcavelos, e pela região do Ribatejo e Alentejo, com as Confrarias da Moenga ou dos Enófilos do Alentejo. Nas ilhas, um salto apenas à Confraria do Queijo de São Jorge, nos Açores.

"O que as Confrarias defendem é a autenticidade, e nós tentámos sempre que isso também passasse", explica Marisa Cardoso. Texto e fotografias, de deixar água na boca, ilustram histórias de fome e de abundância, processos e rituais, produtos e produtores, capas e fatos, saberes e sabores, tradições seculares ou recém-implementadas — e quem as quer perpetuar, preservar ou divulgar.

"Portugal parece pequeno, mas quando andas no terreno... O país não é todo de autoestrada, ao contrário do que a maior parte das pessoas imagina", realça Marisa, acrescentando que este trabalho, agora em livro, "foi uma oportunidade de conhecer Portugal de uma maneira mais profunda e realista".

O realismo estendeu-se à paisagem com que se depararam em alguns dos locais visitados; um cenário que não era o que as suas populações estavam habituadas a ver, nem pelo qual gostavam de ser recordadas nesta obra.

“Neste trabalho, a cena mais triste era ver a devastação do país causada pelos incêndios. Andámos muito pelo Centro... E é triste. A ideia era fazer os retratos sempre num cenário de paisagem, fosse ela património exemplificativo da Confraria ou da região. A Confraria do Queijo Serra da Estrela [em Oliveira do Hospital] foi um dos maiores desafios. Estava tudo ardido. Foi dos poucos sítios onde tivemos de ir duas vezes. 'Está tudo ardido, como é que vamos fazer uma foto na paisagem?', foi-nos dito de uma das vezes”.

E, se foi um desafio à preservação da memória, também o foi "à balança". "Foi mesmo", brinca a jornalista, aludindo a todas as tentações gastronómicas com as quais foram brindadas. "[O livro] deu-nos a oportunidade de provar e conhecer melhor algumas coisas", com "a qualidade" e o "saber" fazer que as distingue de outras que antes já tinham provado.

Depois do livro, "o nosso conhecimento sobre Portugal não é o mesmo. Somos um povo que tem sabido, ao longo dos séculos, usar bem os seus recursos e transformá-los, mesmo nos casos em que [os produtos] podiam parecer pouco interessantes, em receitas extraordinárias. É isto que faz a nossa gastronomia destacar-se internacionalmente", completa Ana Catarina André.

De um nome que é Foda ao estímulo de uma região

Do queijo de São Jorge à lampreia, passando por “muita carne e derivados”, são vários os produtos e pratos que compõem este apanhado Confrádico. Mas a Confraria que suscita sempre mais curiosidade, assumem, é a da Foda Pias-Monção.

"Conto isso no texto", diz-nos a jornalista. "Eles colocaram esse nome porque sabiam que ia chamar a atenção. Ninguém lhe fica indiferente. E está associado a uma história", continua. O termo remonta à época em que os produtores davam água com sal aos cordeiros para que, quando fossem vendidos na feira, estivessem inchados e pesassem mais. "As pessoas quando chegavam a casa percebiam o engano e soltavam a sua asneira à bela maneira minhota. O prato, esse, ficou conhecido como Foda à Monção”, conta. A popularização do termo tem atraído as atenções e o "golpe de marketing", diz, "tem trazido muitos visitantes ao concelho e tem ajudado a vitalizar aquela zona".

E esse não é caso único, assumem as autoras. "O que fomos observando neste périplo é que se sente a transformação, nestes lugares, fruto do trabalho que é feito [pelas Confrarias] na defesa dos produtos e nos pratos da região. Vemos locais que têm algo que estimule a zona".

Um outro exemplo que a jornalista dá e que considera ser paradigmático é o do Butelo [típico de Trás-os-Montes], que "era um prato que estava quase a desaparecer". "Para se comer Butelo em Bragança era preciso encomendar o prato com 15 dias de antecedência". Hoje, "com o grande trabalho de promoção e divulgação por parte da confraria, qualquer pessoa que lá for pode comer este prato", conta. 

Mas há quem se empenhe mais em produtos, continua a autora, dando o exemplo do Melão Casca-de-Carvalho, "muito típico da região acima do Douro". "A Confraria que defende esse melão tem, inclusive, parcerias com a Universidade de Trás-os-Montes para preservar, perceber e otimizar o próprio segredo do produto”.

Esta edição de autor, lançada em março, contou com a colaboração da Federação Portuguesa de Confrarias Gastronómicas (FPCG). O livro pode ser adquirido através da página de Facebook com o mesmo nome e alguns pontos de venda como nas Lojas A Vida Portuguesa.

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