Diário de quarentena, por Patrícia Reis. Dia 8


De repente, talvez por me sentir presa nos mesmos metros quadrados há algum tempo, o que me parece ser tanto tempo, tenho uma vontade pungente de bater nas pessoas que dizem: “ah, estão a inventar”, “ah, estado de emergência, que exagero”. Tenho vontade de lhes dar com um pano encharcado nas trombas, desculpem a linguagem, e interrogo-me em que mundo vivem, que notícias escutam. Não é suficiente saber que os casos de doentes infectados são superiores a 40 por cento de dia para dia? Será que não entendem a tragédia italiana?

A ligeireza deixa-me doida, mas depois penso que não é ligeireza é apenas falta de inteligência, é tão mau quanto as pessoas que tecem teorias da conspiração ou aquelas que vêm castigos divinos à conta da “promiscuidade” do ser humano. Para mim, quando me dizem a palavra “promiscuidade” lembro-me sempre de como lutámos para termos os direitos que hoje temos e interrogo-me: quem é o grande moralizador, o fiscal que tem a batuta certa para conduzir o rebanho?

Hoje, como já se percebeu, é um dia agreste e, assim, mantenho a fraca disposição quando recebo uma mensagem de uma amiga que me diz para não abrir a porta a pessoas que me apareçam a dizer que vêm disponibilizar rastreio. Parece que é um gang de assaltos que criou esta táctica. Será verdade? Será mentira? Pelo sim, pelo não, aviso a minha mãe e os amigos do coração que vivem nos grandes centros urbanos. A seguir, recebo mais informação, o mesmo cenário, o mesmo objectivo – roubar – mas disfarçados de senhores da NOS, operador que não tem ninguém na rua. Todo o cuidado é pouco, portanto. A maldade das pessoas e a falta de inteligência exasperam-me. Fico numa irritação imensa. A compensação é perceber que o meu querido vizinho do terceiro andar, o Pedro que adora puzzles, me deixou pão pendurado na maçaneta da porta de casa; que os amigos mantêm as mensagens de solidariedade e o sol mostra-se tímido mas imponente no céu que se vê da minha varanda. Para recuperar energias e voltar ao optimismo habitual faço mais uma cafeteira de café da Etiópia e sento-me para escrever. Escrever é uma terapia infalível.

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