Com as ruas tomadas por agentes da polícia e as informações sob censura na Internet, as autoridades chinesas tentaram conter, esta segunda-feira, um movimento de protesto que arrisca tomar proporções históricas, no qual a população exige o fim das restrições provocadas pela pandemia de covid-19 e mais liberdades.

O que aconteceu?

Tem sido mais ou menos contido pelo aparelho chinês, mas há meses que se nota que o descontentamento social tem vindo a crescer no país, um dos poucos que continua a aplicar uma política rígida contra a covid-19, denominada "covid zero".

Ao abrigo da política de ‘zero casos’ de covid-19, a China impõe o bloqueio de bairros ou cidades inteiras, a realização constante de testes em massa e o isolamento de todos os casos positivos e respetivos contactos diretos em instalações designadas, muitas vezes em condições degradantes.

Mas porque é que agora se agravou?

A revolta da população aumentou após um incêndio que deixou 10 mortos em Urumqi, capital da província de Xinjiang, no noroeste do país. As restrições ao movimento de pessoas provocadas pelas políticas de combate à covid-19 têm sido apontadas como causa para um resgate defeituoso e que poderia ter reduzido a mortalidade deste incidente.

Imagens difundidas nas redes sociais mostram que o camião dos bombeiros não conseguiu entrar inicialmente no bairro, já que o portão de acesso estava trancado, e que os moradores também não conseguiram escapar do prédio, cuja porta estava bloqueada.

O episódio foi a “gota de água” para muitos chineses.

Como assim?

Este domingo, houve multidões em protesto em Pequim, Xangai e Wuhan, entre outras cidades, e sendo ouvidas palavras de ordem como "Xi Jinping, renuncie! PCC (Partido Comunista Chinês) renuncie!" e "Não aos confinamentos, queremos liberdade".

Foram registados distúrbios violentos entre as forças de segurança e manifestantes em Xangai, sendo que algumas pessoas exibiam folhas em branco, um gesto para denunciar a censura e que se tem tornado numa das imagens repetidas nestes protestos.

Em Urumqi, grupos de manifestantes cantaram “Aqueles de vós que se recusam a ser escravos, ergam-se” – um verso do hino nacional chinês — e gritaram “queremos liberdade”, apelando para o fim dos testes em massa e dos códigos QR, uma versão bidimensional do código de barras colocado na entrada de todos os edifícios, assim como nos transportes públicos ou táxis. O acesso a locais públicos ou residenciais depende da digitalização destes códigos com uma aplicação instalada no telemóvel.

A questão, que apenas se dirigia à política de combate à covid-19, já transbordou para a contestação direta ao governo chinês. Segundo a agência Lusa, testemunhadas críticas diretas ao Partido Comunista (PCC), partido único do poder na China, desde a fundação da República Popular, em 1949.

Sob a presidência do atual líder chinês, Xi Jinping, o PCC assumiu, nos últimos anos, um controlo quase absoluto sobre a sociedade, ensino ou produções artísticas da China. Xi obteve, no mês passado, um terceiro mandato, cimentando o seu estatuto como um dos líderes mais fortes na História moderna da China.

“A China é um país e não um partido”, lançou uma manifestante. “A China pertence ao seu povo, e não a eles”, atirou outro, erguido em cima de um muro, com o punho no ar, arrancando aplausos dos manifestantes.

E o Governo chinês?

Agiu em dois eixos distintos: procurou suavizar as restrições pandémicas ao mesmo tempo que reprimiu os protestos.

No que toca ao primeiro, após a tragédia em Urumqi, cidade de quatro milhões de habitantes, as autoridades flexibilizaram as restrições na região, sendo que a partir desta terça-feira será possível utilizar autocarros para fazer compras e os estabelecimentos comerciais em áreas de "baixo risco" poderão retomar parcialmente as atividades.

Sem mencionar o incêndio em Urumqi, o governo do município de Pequim anunciou que não vai mais trancar os portões para bloquear o acesso a complexos residenciais onde forem detetados casos do novo coronavírus. Cantão, a maior cidade do sul da China, anunciou hoje também que os residentes em algumas áreas não vão mais ser sujeitos a testes em massa, citando a necessidade de conservar recursos.

Por outro lado, o poder chinês nega algumas das alegações sobre o incêndio, apontando que certas imagens difundidas ‘online’ de portas trancadas são falsas, de acordo com a agência noticiosa oficial Xinhua. A mesma fonte reconheceu que houve problemas no acesso dos bombeiros, mas culpou os carros estacionados em frente ao bairro.

De resto, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, acusou “forças com motivações ocultas” de “estabelecerem uma ligação” entre um incêndio mortal na cidade de Urumqi, no noroeste da China, e as medidas de bloqueio impostas no âmbito da estratégia de ‘zero casos’ de covid-19.

E isso leva-nos ao segundo eixo?

Sim. A política das autoridades tem sido de tentar dispersar ao máximo os protestos sem levantar mais ondas, ao mesmo tempo que tenta reprimir a informação online.

Um protesto planeado para Pequim na tarde desta segunda-feira foi frustrado quando dezenas de agentes da polícia e veículos ocuparam um cruzamento perto do ponto de encontro no distrito de Haidian. Um manifestante solitário criticou o presidente Xi Jinping, antes de ser preso. 

Quanto aos protestos deste fim de semana, duas pessoas foram detidas em Xangai, mas a polícia não revelou dados. Sabe-se que duas pessoas foram visadas pelas autoridades perto da rua Urumqi, cenário de uma manifestação na véspera. Uma delas "desobedeceu as ordens da polícia", afirmou um agente.

As equipas das forças de segurança também dispersaram as pessoas no local e obrigaram os manifestantes a apagar as fotos nos seus smartphones, segundo um correspondente da AFP.

Nesta cidade, um jornalista da BBC, Ed Lawrence, foi detido e "agredido pela polícia", segundo a emissora britânica, algo que o ministro britânico para as Empresas, Grant Shapps, considerou "inaceitável e preocupante".

"A BBC está extremamente preocupada com o tratamento dado ao nosso jornalista Ed Lawrence, que foi preso e algemado enquanto cobria os protestos em Xangai", indicou um porta-voz da BBC em declaração escrita enviada à AFP.

A União Europeia de Radiofusão (UER), a maior aliança de emissoras públicas do mundo, criticou nesta segunda-feira as "agressões" sofridas na China por jornalistas.

Porém, qualquer informação sobre as manifestações parece ter sido eliminada de todas as redes sociais chinesas. Na plataforma Weibo, uma espécie de Twitter chinês, as buscas por "Rio Liangma" e "rua Urumqi" não apresentavam nenhum resultado relacionado com as mobilizações. 

E agora?

Dado o seu alcance territorial, a onda de protestos parece a mais importante desde as mobilizações pró-democracia de 1989, que resultaram no célebre momento na praça Tiananmen

Além de Pequim e Xangai, também foram convocados protestos em Guangzhou, Chengdu, Hong Kong e Wuhan, a cidade do centro do país onde foi registado o primeiro caso de covid-19 há quase três anos.

O jornal estatal Diário do Povo publicou nesta segunda-feira um texto que faz um alerta para a "paralisia" e "esgotamento" com a estratégia de "covid zero", mas sem pedir o fim da mesma.

O problema é que o gigante asiático, praticamente isolado do resto do mundo desde o início de 2020, parece ser incapaz de conter a covid-19, não obstante a sua estratégia, o que ainda grava mais o descontentamento.

A China sofreu numerosas vagas de surtos desde o início deste ano, tendo já sido registado um número de infeções mais elevado do que no início da pandemia. De acordo com dados da Comissão Nacional de Saúde, a China bateu no fim de semana o número recorde de infeções, detetando quase 40.000 novos casos no sábado, embora mais de 90% se tratem de casos assintomáticos.

Os números oficiais mostram que cerca de 1,8 milhões de pessoas estão atualmente sob quarentena, uma vez que a diretriz é transferir os casos – incluindo assintomáticos – e também, mas separadamente, aqueles que tiveram em contacto com os infetados, para hospitais ou centros de isolamento.

*com agências

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