A partir das 9:30, a primeira paragem foi o salão nobre do palácio de São Bento, para a sua instalação como tribunos de pleno direito, numa ampla divisão do parlamento, naturalmente azafamada e com cinco pontos de passagem: fotografia; digitalização e entrega de palavra-passe; formulário eletrónico biográfico; declaração de registo de interesses, rendimentos e incompatibilidades para o Tribunal Constitucional; e, finalmente, entrega de computador portátil, documentos, publicações e lugar de estacionamento.

Ao todo, para receber os 230 deputados, estão envolvidos diretamente cerca de 100 dos 400 funcionários do parlamento, mas, segundo o diretor do gabinete de comunicação da Assembleia da República, João Amaral, todos os colaboradores vão, de uma maneira ou de outra, tratar da burocracia processual dos parlamentares, "nos próximos oito dias", em "front-office" ou "back-office".

"É um dia agitado em que temos muita clientela, entre aspas. Temos um salão preparado no formato de "one stop shop", uma espécie de loja do cidadão, mas para o deputado em que entra por uma ponta e, em quatro postos diferentes, consegue toda a informação de que precisa para iniciar o seu mandato", disse o responsável à reportagem da Agência Lusa.

João Amaral afirmou que, com o acolhimento iniciado "há uma hora e pouco", até agora "está tudo a correr bem". "Necessariamente, vai haver coisas que vão correr menos bem. Estamos cá para as resolver", assegurou.

Entre os 93 deputados debutantes está Filipa Roseta, com um sobrenome herdado dos deputados à Assembleia Constituinte Pedro e Helena Roseta, seus pais.

"É uma responsabilidade que carrego nos ombros e espero conseguir cumprir com o devido peso do nome. A minha expectativa é lutar pelas pessoas, o melhor que possa e sei, e tentar perceber se conseguimos todos ser mais do que aquilo que este Governo promete. Todos os que passaram por aqui deixaram, como os meus pais, um trabalho à nossa frente - no caso deles, lutaram pela liberdade e o 25 de Abril e fizeram parte da Assembleia Constituinte, deram a cara numa altura difícil. Todos temos um dever de conseguir manter esta democracia livre, aberta e contínua", afirmou, em declarações à Agência Lusa.

Outra novata é Inês Sousa Real, com a tarefa acrescida de ir ser a presidente do grupo parlamentar do PAN.

"A nível pessoal, enquanto líder parlamentar e deputada, é uma grande responsabilidade. Acho que devemos encarar todos o serviço público, enquanto estamos aqui na Assembleia da República, de facto, com sentido de missão. Todos temos o dever de participar da vida pública, não é apenas um direito. Estarei aqui para dar ao país aquilo que é o meu tempo e o meu conhecimento. É o sentido, acima de tudo, de responsabilidade. Temos de perceber que estamos a lidar com a vida das pessoas quando estamos no processo legislativo", disse à Lusa.

A comunista Alma Rivera é uma das 89 mulheres eleitas em 06 de outubro - um número recorde de tribunas femininas - e revela-se entusiasmada com a nova "experiência".

"Naturalmente, é tudo novo, mas é mais uma frente de luta, mais uma forma de dar expressão àquilo que achamos que têm de ser as prioridades e as mudanças necessárias. Há uma necessidade de aprendizagem muito grande. Vou ter de estudar muito, mas faz parte. Conto também com a ajuda dos meus camaradas, que me têm recebido muito bem. Somos um grupo parlamentar com muita entreajuda. Vou levar mais algum tempo a entrar dentro das dinâmicas que existem. Vou tentar dar o meu melhor", prometeu.

Sobre o facto de começar a ser tratada por "senhora deputada", a estreante de 28 anos estranha: "Vou tentar que não me tratem assim, para começar, chamem-me Alma", disse.

"Para mim é estranho. Serei sempre o Miguel, mas, naturalmente, é sinal de uma grande responsabilidade que hoje começa de, juntamente com os outros deputados jovens, representar a nossa geração e podermos fazer valer as causas mais importantes como as alterações climáticas, o trabalho e a habitação e levantarmos no parlamento a nossa voz - uma voz progressista, ecologista e de esquerda", disse o deputado-benjamim da legislatura, o socialista Miguel Costa Matos (25 anos), num hemiciclo com um recorde de forças políticas representadas (10).

O novo parlamentar do PS assumiu que "o desafio será conhecer o parlamento, os métodos de funcionamento da casa" e "poder utilizar" a "ferramenta que o povo concedeu para poder concretizar soluções em concreto para melhorar a vida" da sua "geração e de todo país".

"É, naturalmente, uma responsabilidade podermos demonstrar que a juventude não é um obstáculo a fazer um bom trabalho parlamentar. Pelo contrário, é uma oportunidade para trazermos novas causas para a agenda política e podermos também marcar pela diferença. É isso que, também aprendendo com a experiência dos deputados mais velhos, espero poder fazer", desejou.