Foram precisos poucos segundos para o líder do Parlamento Europeu captar a atenção da sala, incluindo a task force de cerca de três dezenas de voluntários presentes em Bruxelas e que está a trabalhar para ajudar a reduzir a abstenção. Mas só no final Tajani disse com todas as letras: ”Queremos mais poder para o Parlamento Europeu”. E essa legitimidade, claro, só se consegue se todos os cidadãos votarem.

Antonio Tajani ia falar sobre o Brexit. No entanto, dia 10 era, além de véspera de Conselho Europeu, a antevéspera de mais um deadline para o Reino Unido decidir como vai sair da União Europeia. “Já sei o que vamos dizer ao Conselho, mas não me parece correcto estar a dizê-lo antes aos jornalistas”, respondeu quando surgiu a primeira pergunta. Em vez disso, admitiu que “precisamos de mais política e menos burocracia”, disse que “os partidos populistas estão a colocar em cima da mesa problemas, mas não apresentam soluções”, e falou de “regras mais simples para os fundos europeus” e mais poderes para o Banco Central Europeu.

Diplomático, já tinha dito que o Parlamento Europeu tem apenas um objetivo: “Queremos proteger os direitos dos cidadãos europeus”. Foi assim, aliás, que começou a sua intervenção, e daí até à frase final foi um pulo: “Proteger os jornalistas é proteger a liberdade. Este é um dos compromissos mais importantes: ontem, hoje e amanhã. Bem-vindos ao Parlamento Europeu”. A sala, repleta de jornalistas vindos de toda a Europa, rebentou num aplauso. E evitou-lhe alguns constrangimentos.

De resto não houve equívocos e Tajani foi bem claro: “Há neste momento dois pontos importantes para a União Europeia: a situação na Líbia e a relação com os Estados Unidos”. 

Sobre o primeiro ponto: “Precisamos de uma posição europeia forte, precisamos de mais unidade na União Europeia, precisamos de falar a uma só voz enquanto europeus. Infelizmente, os europeus estão divididos. Mas sem paz na Líbia é impossível alcançar a estabilidade no norte de África e ter boas soluções contra a imigração ilegal e boas soluções de crescimento para a África. E estamos empenhados em fortalecer as nossas relações com África", disse Antonio Tajani. “O Parlamento Europeu votou a favor de mais investimentos em África; propus mais ou menos 50 mil milhões de euros para um "Plano Marshall”, recorda.

Ponto dois: “Queremos ser amigos dos Estados Unidos”, afirma o presidente do Parlamento Europeu. “O problema dos Estados Unidos é a China, não é a Europa”. Tajani lembra que os norte-americanos e os europeus têm o mesmo problema, que está ao nível da política comercial, e é por isso que “os EUA não devem atacar os produtos europeus”.

Seremos todos ingleses?

Mais de dois terços dos europeus não quer deixar a União Europeia. No entanto, se não há apetite para sair, a maioria continua a pensar que a UE não vai no caminho certo. Aliás, metade também pensa que o seu país está a ir na direcção errada. Estes são alguns dos dados mais recentes apresentados pelo director-geral da Unidade de Monitorização da Opinião Pública, Philipp M. Schulmeister.

Conclusão, Europa: não podemos viver com ela e não podemos passar sem ela. Dezoito por cento admitem, em caso de referendo, não saber o que fazer.

A larga maioria dos cidadãos concorda que o seu país tem beneficiado com o facto de pertencer à União Europeia. E se separados não têm poder - o Reino Unido, como a França, desaparecem do grupo dos oito maiores (produto interno bruto) em 2050 - em conjunto atingem o terceiro lugar já em 2030, logo depois da China e dos Estados Unidos, e em 2050 perdem o lugar para a Índia.

Estas pesquisas servem também para mostrar que os europeus não são de ideias fixas. E não, não se trata de nenhuma piada sobre o Brexit ou os ingleses. Entre abril de 2018 e fevereiro-março deste ano as prioridades mudaram: hoje, entre as cinco principais preocupações dos cidadãos da UE estão, por ordem decrescente, o crescimento económico, o desemprego jovem, a imigração, as alterações climáticas e a protecção do ambiente e, finalmente, o combate ao terrorismo.

Há um ano, no topo das preocupações estava o terrorismo e o crescimento económico aparecia em quarto lugar. Mas em setembro, há apenas cinco meses, era a imigração o tema que mais afligia os europeus.

Apesar de não haver projecções impossíveis, Philipp M. Schulmeister não falou em taxas de abstenção. Mas o assunto haveria de vir à baila, trazido pelo académico Alberto Alemanno, professor de Direito Europeu, que revelou que “apenas 41% dos eleitores sabe que vai haver eleições. Logo, são esses que vão votar”. E isto é se todos os que sabem forem votar, porque pode acontecer que não vão. Há quatro anos, a taxa de abstenção total nas eleições europeias foi de 57,39%, com especial incidência na faixa etária entre os 18 e os 24 anos. Nestas eleições como em todas as outras, “só há uma maneira de garantir que ninguém decide por nós: votando”, como afirmou a eurodeputada sueca Cecilia Wikstrom.

* Em Bruxelas

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