Serafim dos Anjos, 35 anos, é cigano e é um dos mentores da iniciativa que quer abrir as portas do mercado de trabalho para os elementos desta etnia e vai incidir a sua atuação nos mais jovens.

Para o efeito, segundo afirmou à agência Lusa, o trabalho da ANSEC vai passar por sensibilizar as câmaras e as juntas de freguesia, isto porque acredita que, se estas entidades “começarem a abrir as portas, tudo o resto acontece”.

“O principal objetivo desta associação é a integração dos indivíduos ciganos, sem sombra de dúvida, e é tentar arranjar-lhes emprego porque isso vai fazer toda a diferença”, reforçou a advogada Carla Chaves Barroso, que também integra a recém-criada associação.

A ANSEC quer “promover o acesso ao emprego e à inclusão social de ciganos”, e ainda “aumentar a literacia, a participação cívica e as competências técnicas de ciganos em diversas áreas”.

Visa também “aumentar as competências pessoais básicas de ciganos” e “sensibilizar os mais novos (crianças e jovens não ciganos) para o não preconceito”.

“Nesta altura é urgente esta mudança, é urgente esta integração. Esta segregação que existe tem que acabar de vez, não faz sentido, somos todos seres humanos”, salientou a advogada.

Serafim dos Anjos descreve uma comunidade de cerca de 100 famílias na zona de Vila Real, das quais muitas têm como atividade principal as festas populares e que têm sentido crescentes dificuldades por causa da pandemia de covid-19.

Uns vivem em bairros sociais, outros em acampamentos, a maioria acima dos 35 anos é analfabeta e, nesta comunidade, vários usufruem do Rendimento Social de Inserção (RSI).

Mas, segundo ressalvou, “muitos querem trabalhar”. “Há muito interesse, os jovens procuram trabalho, mas não arranjam. Eles estão a ir para campanhas e quando aparece trabalho nas vindimas eles vão”, referiu.

Em Vila Real, segundo Serafim dos Anjos, “há apenas uma mulher cigana com contrato de trabalho” e dois homens que estão, neste momento, a trabalhar numa junta de freguesia. “Isso não é nada”, sublinhou.

“Se começarem a trabalhar nas juntas, a ir para as aldeias limpar, as pessoas começam a ver que o cigano quer trabalhar”, reforçou.

O objetivo é, pelo menos, conseguir trabalho à experiência para que possam depois mostrar se “realmente têm capacidade ou não”.

E, depois das autarquias, acrescentou, as empresas privadas e as outras entidades podem também começar a abrir as portas, principalmente para os jovens.

“Nós ciganos queremos realmente integrar-nos”, frisou.

Referiu ainda que, em Vila Real, “não há nenhum cigano que tenha crédito para uma casa ou para um carro.

“Como é que nós, sem trabalho e com o rendimento mínimo, vamos pedir a uma financeira um empréstimo”, referiu.

No seu caso, contou, já trabalhou na construção civil, em campanhas agrícolas no estrangeiro e como segurança, estando neste momento à procura de outro trabalho. E mais do que a atual crise pandémica, Serafim acredita que a dificuldade em conseguir trabalho está no facto de ser cigano.

A sua ambição é que os seus filhos, gémeos de 7 anos, estudem até ao ensino superior e apontou que ele quer ser juiz e ela médica.

A associação fica sediada em Vila Real, mas a sua área de atuação pretende ser mais ampla e alertar para situações vividas por outras comunidades como, por exemplo, as 30 famílias que “vivem em condições precárias, sem água e sem luz e sem casas de banho”, em Carrazeda de Ansiães, no distrito de Bragança.

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