Parece uma tira de banda desenhada: de cores garridas e traços largos, a ilustração mostra uma mulher de olhos fechados e cabelo a voar. Parece cair de costas, de cara sofrida; na mão segura uma caixa de comida. Atrás, um homem de sobrancelhas franzidas e punho cerrado, corpo tenso, questiona: "A sério, uma Bicky falsa?".

A cena alude a uma agressão em que o homem, de fato e gravata, parece esmurrar a mulher, de camisola curta e decote aberto, por esta não lhe ter trazido o hambúrguer que queria, mimetizando uma linhagem de anúncios de teor sexista que remonta a meados do século XX.

A imagem, publicada na rede social Facebook, vinha acompanhada da pergunta “Quem é o salvador do século?”. De seguida, indaga ainda: “Que outra casa de fritos merece um castigo?“, dando ideia de que a agressão foi para a embalagem de comida e não para a mulher, ainda que o desenho não o deixe claro.

Conta o jornal ‘El Español’ que em pouco mais de sete horas o anúncio recebeu mais de 1.600 comentários, gerando polémica nos ‘media’, nos políticos e na internet belga. Pelo pouco tempo que teve no ar, o Conselho de Publicidade, um órgão disciplinar independente do setor na Bélgica, registou cerca de 300 ações judiciais desde terça-feira, disse hoje a sua diretora Sandrine Sepul à AFP.

A ministra dos Direitos da Mulher de Valónia, estado da Bélgica, lembrou na rede social Twitter que “em 2017, 38 mulheres foram assassinadas na Bélgica porque eram mulheres. Em 2016, registaram-se 18 mil denúncias de violência doméstica na Federação Valónia-Bruxelas.”

“É um assunto sério e é totalmente irresponsável trivializá-lo”, conclui.

Já as Secretárias de Estado pela Igualdade de Oportunidades nas regiões de Bruxelas e Valónia, Nawal Ben Hamou e Christie Morreale, respectivamente, anunciaram ter levado o caso ao Conselho de Publicidade.

Como escreve o Brussels Times, a primeira recordou através da sua conta do Facebook que “estando a apenas semanas do dia contra a violência contra a mulher [25 de Novembro], e à medida que o número de mulheres a serem assassinadas pelos seus parceiros violentos continua a aumentar, a Bicky Burger decidiu lançar uma campanha doentia e completamente irresponsável”.

Também Christie Morreale utilizou a mesma rede social para lembrar que “cerca de uma em cada quatro mulheres sofrerá violência durante a sua vida e algumas delas morrerão”, pelo que “usar a violência contra as mulheres na publicidade é irresponsável”.

Na imprensa belga também se condena a ação. A emissora pública, RTBF, qualifica o anúncio como “publicidade de mau gosto” numa altura em que “as campanhas de sensibilização contra a violência contra as mulheres estão a aumentar”, cita o ‘El Español’.

O diário ‘La Dernière Heure’ considera a publicação “publicidade misógina”, cita o mesmo jornal.

Ao ‘Het Nieuwsblad’, citado pelo ‘Brussels Times’, o marketeer Tom Sevens disse que a empresa “[condena] qualquer tipo de violência. Este não era o ângulo da publicação. Dentro do contexto da marca, do público alvo e do canal usado, o objetivo é dizer que vender ou comprar Bickys falsas não é feito”.

Já em 2016 outra campanha da mesma marca gerou polémica: aludindo a pessoas com Alzheimer, alegava que “há pelo menos uma vantagem, poder comer uma Bicky a cada meia hora sem sentir culpa”.

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