Cada português consome, em média, 61,5 kg de peixe por ano. Superamos todos os países da União Europa, cuja média ronda os 27 kg por pessoa e, mundialmente, só a Coreia (78,5 kg) e Noruega (66,6kg) podem dizer que metem mais peixe no prato.

Em 2018, a riqueza gerada pela economia do mar, ou "economia azul", em Portugal foi de 5,8 mil milhões de euros. O setor empregava então 258 mil pessoas. No entanto, só o turismo "pesou" 4,5 mil milhões de euros e 212 mil empregos nas contas do mar. Em comparação, mesmo aqui ao lado, em Espanha, o setor gerou nesse ano mais de 33 mil milhões de euros e empregou mais 928 mil pessoas.

Os portugueses têm, literalmente, como resumiu Tiago Pitta e Cunha, CEO da Fundação Oceano Azul, em entrevista ao SAPO24, uma "relação umbilical" com o mar — "que seria deste país sem o bacalhau e a sardinha", brinca —, reforçada pela narrativa histórica, pela propaganda política, pela literatura e até pela música. Mas entre o mito e a promessa adiada, o mar tarda em concretizar-se como desígnio nacional.

Com uma linha de costa de cerca de 2500 km e a terceira maior zona económica exclusiva da União Europeia (1,7 milhões de km2, o equivalente a 19 vezes o território nacional terrestre), Portugal tem, todavia, procurado fazer jus à narrativa de país marítimo e investir no setor, tendo mesmo assumido o mar como um dos pilares da recuperação económica pós-covid.

E, neste caso, o caminho faz-se navegando. Segundo o Blue Economy Report de 2021, a riqueza gerada pelo setor aumentou 73% face a 2009 e o emprego aumentou 54,3% no mesmo período. Na Conta Satélite do Mar, publicada no ano passado, estima-se que, em 2018, o impacto direto e indireto da economia do mar na economia nacional se tenha traduzido em 5,1% do Produto Interno Bruto.

No centro da Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030, aprovada em maio deste ano, está o combate às alterações climáticas, o investimento na bioeconomia e na biotecnologia azul; a sustentabilidade e segurança alimentar; a reindustrialização e na literacia dos Oceanos, reforçando, na próxima década, "a posição e visibilidade de Portugal no mundo enquanto nação eminentemente marítima".

O Plano de Recuperação e Resiliência prevê uma verba de 252 milhões de euros para financiar investimentos na investigação, na economia do mar e na segurança pesqueira. A esta verba, acrescem cerca de 300 milhões de euros provenientes do próximo Quadro Financeiro Plurianual, o "Portugal 2030", bem como fundos da ciência diretamente geridos pela União Europeia e aos quais as empresas e instituições portuguesas terão de concorrer.

"Temos a obrigação de ir mais longe, sobretudo no sentido de que o mar deixe de ser simplesmente uma retórica sobre a identidade nacional e passe a ser uma realidade do quotidiano do país", assumiu o primeiro-ministro, António Costa, em abril, quando anunciou estas alocações no setor.

Esta terça-feira, a propósito do Dia Nacional do mar, que se celebra desde 1994, quando entrou em vigor a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do mar, o ministro Ricardo Serrão Santos, detalhou que 87 milhões de euros do PRR vão ser dedicados à criação de centros de investigação e de desenvolvimento de produtos para a economia do mar no Algarve, Lisboa, Oeiras, Peniche, Aveiro e  Porto. Nos Açores haverá um hub similar financiado por outro projeto da componente mar no PRR.

Este "hub azul", como lhe chamou o governo, visa "potenciar o setor da transformação do pescado e a biotecnologia", promovendo uma maior ligação entre a investigação científica e as indústrias do setor. Objetivo? "Aumentar o número de patentes nacionais".

Olhar para o mar como "capital"

"A economia e o ambiente viveram sempre em oposição, mais ainda a partir da revolução industrial". E, nesta contenda, diz Tiago Pitta e Cunha, "o ambiente perde sempre". Por isso, "a única maneira de o ambiente não perder no futuro é ser ele próprio a economia". Isto implica, defende, uma "uma verdadeira revolução cultural" na forma como o homem se relaciona com a natureza, passando a encará-la como "capital".

Os mares e oceanos cobrem mais de 70% da superfície da Terra, contêm 97% de toda a água do planeta e sustêm 80% das formas de vida existentes. Este ecossistema absorve mais de 90% do excesso de calor retido pela Terra por causa das alterações climáticas, produz metade do oxigénio que respiramos e é a fonte primária de proteína para mais de três mil milhões de pessoas no mundo.

Não é possível, inteligente ou economicamente viável desenhar um futuro de costas voltadas para o mar.

Os setores tradicionais da economia azul, como as pescas, o turismo, os transportes marítimos, a construção naval e a exploração de recursos energéticos já representam 1,5% do Produto Interno Bruto da União Europeia e empregam diretamente 4,7 milhões de pessoas. Mas setores emergentes, como o das energias renováveis, da biotecnologia e da bioeconomia estão a criar novas oportunidades.

As algas (macro e micro), as bactérias, fungos e invertebrados estão entre os mais importantes recursos marinhos usados ​​como matéria-prima na bioeconomia azul, para uma variedade de aplicações comerciais, incluindo alimentos e suplementos alimentares, rações, cosméticos, fertilizantes e bioestimulantes de plantas e usos comerciais inovadores como biomateriais, biorremediação ou biocombustíveis. E todos os anos são descobertos centenas de novos compostos do meio marinho, o que é reflexo natureza inovadora e do potencial deste setor.

É aqui que entra o programa de aceleração Blue Bio Value, promovido pela Fundação Oceano Azul e a pela Fundação Calouste Gulbenkien, em parceria com a BlueBio Alliance e dinamizado pela Maze, cujo objetivo é "acelerar a transição para uma economia azul". Como? Apoiando startups que trabalham ativamente para fazer parte deste novo paradigma económico, dando-lhes as ferramentas necessárias para que levem as suas soluções do laboratório para o mercado.

A quarta edição do Blue Bio Value recebeu mais de 80 candidaturas, oriundas de 28 países, espalhados pelos cinco continentes, mas apenas 17 projetos chegaram à reta final, quatro dos quais portugueses.

A BOTL desenha, constrói e instala "recifes" artificiais que permitem a recuperação de ecossistemas marinhos danificados; a Fhair usa sal marinho da Ria Formosa em produtos de higiene; a n9ve usa macroalgas verdes para recuperar neodímio de ímanes permanentes e assim produzir óxido de neodímio, utilizado, por exemplo, no fabrico de vidro para telas de TV e de lasers para equipamentos de alta potência; a Sensefinity utiliza uma rede de sensores inteligentes para identificar peixes e monitorizar temperatura, humidade e movimento; a Seatrients desenvolveu uma bebida instantânea nutritiva a partir de algas marinhas.

Estes são alguns dos projetos selecionados, que pode conhecer aqui em detalhe.

Ao longo de sete semanas —  cinco remotas e duas presenciais, em Portugal — os empreendedores terão acesso a mentores nacionais e internacionais e formação nas mais diversas áreas: biotecnologia, gestão, acesso a financiamento, marketing e comunicação ou aconselhamento legal.

O pitch final acontece a 25 de novembro e as startups que mais se destacarem no decorrer da aceleração serão premiadas com um valor de 45 mil euros.

Até lá, os empreendedores têm pela frente 15 dias de périplo em solo nacional, onde se vão encontrar com especialistas, investidores e mentores ou conhecer empresas e centros de investigação na área biotecnologia azul em Aveiro, Cantanhede, Lisboa e Porto.

O programa Blue Bio Value já acelerou 42 empresas de 15 nacionalidades. Em quatro edições, a Fundação Oceano Azul e a Fundação Calouste Gulbenkian investiram um total de dois milhões de euros, contribuindo para que três startups internacionais se sediassem em Portugal.

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