"É claro agora que a vontade do Partido Conservador é que deve haver um novo líder do partido e logo um novo primeiro-ministro. (...) e o processo de escolher um novo líder deve começar agora". As palavras são de Boris Johnson, que anunciou esta quinta-feira a sua demissão do cargo de líder do Partido Conservador, tendo como consequência o fim do seu mandato enquanto primeiro-ministro.

"O calendário será anunciado na próxima semana", acrescentou.

No imediato, foi nomeado um governo de gestão que se manterá em funções até à escolha do novo líder do Partido Conservador.

"Quero dizer aos milhões de pessoas que votaram em nós, em 2019, muitas das quais votaram pela primeira vez no Partido Conservador, obrigado por esse mandato incrível, a maior maioria conservadora desde 1987", sinalizou Boris Johnson.

"A razão por que lutei tanto nos últimos dias para cumprir esse mandato pessoalmente não foi apenas porque o queria, mas porque sentia que era o meu trabalho, o meu dever, a minha obrigação para convosco, para continuar a fazer o que prometemos em 2019", justificou.

"E, claro, estou muito orgulhoso pelo que foi alcançado por este governo, levar adiante o Brexit, definir as nossas relações com o continente [a Europa], restaurando o poder para que este país possa fazer as suas próprias leis no parlamento; conduzir-nos durante a pandemia, conseguir a mais rápida distribuição de uma vacina na Europa, a mais rápida saída do confinamento e, nos últimos meses, liderar o Ocidente face à agressão de Putin", enumerou.

Boris Johnson quis deixar uma palavra aos ucranianos neste discurso: "Nós vamos continuar a apoiar a vossa luta por liberdade até quando for preciso".

Visivelmente contrariado por ser obrigado a sair pelo seu próprio partido, Johnson lamentou não ter conseguido convencer os seus pares de que seria "excêntrico" mudar de liderança neste momento, com uma maioria do partido conservador e um contexto — a guerra e a crise económica — tão desafiante, enumerou.

Ao líder que for eleito, Boris garantiu dar "todo o apoio". Aos eleitores, Johnson quis deixar claro o quão "triste" está "por deixar o melhor trabalho do mundo".

O Reino Unido vive uma crise política e o dia hoje arrancou em contagem decrescente para o momento em que Boris Johnson iria oficializar a demissão da liderança dos Conservadores e, consequentemente, a saída do cargo de primeiro-ministro.

Se Johnson começou por dizer, ontem, que a sua intenção era permanecer na liderança dos conservadores e do país, esta quinta-feira amanheceu com a notícia de que teria concordado demitir-se.

Todavia, foi também avançado que a sua intenção era manter-se no cargo até que seja nomeado um novo primeiro-ministro pelo partido Conservador, no outono, mas até à sua comunicação oficial era incerto se tal teria o aval do partido e em que moldes iria decorrer.

Recorde-se que o líder do executivo britânico estava a ser pressionado para sair pelo seu próprio partido e pelos membros do seu governo — já se contam mais de 40 demissões desde terça-feira.

A liderança de Boris Johnson foi abalada por sucessivas polémicas, a mais grave conhecida como "Partygate", o escândalo das festas semanais em Downing Street quando o país estava confinado, razão pelo qual foi sujeito a uma moção de censura em junho. Venceu, mas saiu debilitado.

À data, o professor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Sheffield, Matthew Flinders, lembrou que “Johnson é famoso por sobreviver a feridas políticas". “Fica safo no futuro próximo e vai aguentar eventualmente até às próximas eleições legislativas”, previstas para 2024, mesmo ficando "preso por um fio", antecipava.

Já a politóloga Felicity Matthews, também da Universidade de Sheffield, dava conta do "desespero sentido por muitos deputados conservadores, que estão cansados de defender o primeiro-ministro". “Ganhar a votação desta noite é muito diferente de manter o poder e a legitimidade a longo prazo”, acrescentou a académica, dizendo mesmo que a sua autoridade estava "destinada a desaparecer”.

A mais recente crise foi causada pela admissão de Johnson de que cometeu um "erro" ao nomear Chris Pincher para o Governo em fevereiro como responsável pela disciplina parlamentar. Recorde-se que Pincher se demitiu a semana passada, após ter sido acusado de ter apalpado dois homens. Esta terça-feira, e depois de alegar o contrário, Downing Street reconheceu que o primeiro-ministro tinha sido informado já em 2019 de antigas acusações contra Pincher, mas que teria esquecido o assunto.

Nos próximos dias será conhecido o calendário para a substituição de Boris Johnson na liderança do Partido Conservador e em breve deverá ser conhecido o nome de quem o irá substituir. No início desta semana ainda se avançou com a possibilidade de ser dissolvido o parlamento e convocadas eleições antecipadas, mas tal não seria favorável ao Partido Conservador, que detém maioria no parlamento e um mandato ainda longo pela frente. As próximas eleições legislativas no Reino Unido têm lugar em 2024.

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