Se é português e está no Reino Unido envie-nos o sua visão dos acontecimentos para o e-mail conteudos_sapo@.sapo.pt. A informação será partilhada neste artigo.


Rui Augusto, residente em Londres

"Expressar algum sentimento neste estado de choque geral que se vive em Londres não é fácil, mas pode-se dizer que depois de fazer faculdade aqui, viver e integrar-me ao ponto de me sentir já londrino (sempre achei que só aqui se podia dizer que sou londrino do Porto) para ir ontem dormir londrino e acordar estrangeiro, é muito difícil.

Não fossem as manifestações de incredulidade de todos os meus amigos e colegas britânicos nos social media e isto seria bem pior. Todos os europeus que conheço estão tão desiludidos que o ar quase se tornou irrespirável.

Devo dizer que os ingleses sempre chamaram aos europeus, europeus, como se esta ilha fosse a mil quilómetros a sul dos Açores ou a norte da estrela polar, como se o Reino Unido, com estes tiques imperialistas que há muito deviam estar enterrados, não fizesse parte do velho continente. 

Não quero cair no clichê mas De Gaulle tinha razão em 75 quando afirmou que o Reino Unido seria o cavalo de Tróia dos americanos na Europa unida.

Ironia das ironias, Trump aterra no Reino no dia do Breshit! Enquanto uns se vão arrepender de não votar depois de uma ressaca de Glastonbury, outros aproveitam já para dizer que se arrependem de votar para sair porque 'pensavam que não ia contar e que seria só um voto de protesto'.

Lições que vão a longo prazo sair bem caras. Entre nós (porque hoje parece que somos nós e eles) o sentimento além do choque é de medo. Medo da implosão da Europa, medo do aumento da xenofobia, medo que os hooligans voltem de França, medo de perder as relações que temos e os  amigos que fizemos por termos ou querermos sair daqui, caso se justifique.

Alguns perguntam-me com quase compaixão - porque não pedes a cidadania, é mais um passaporte que podes ter; simples, respondo eu. Eu sou cidadão europeu, não um súbdito Britânico.”


Rebeca Coimbra, portuguesa a residir em Londres, Inglaterra

"Aqui as opiniões dividem-se no meio dos imigrantes. Engraçado, até ontem não nos chamávamos assim porque não existia este muro (ainda invisível mas já bem presente).

A maioria das opiniões no lado dos portugueses é de preocupação. Conheço casos de pessoas que vivem de benefícios e estão preocupadas com o que o futuro trará. Outras dizem que ficarão e logo se vê. Ainda tem quem pense em ir embora. As opiniões estão divididas, mas também ainda é cedo. Temos de esperar por mais notícias e pelos próximos desenvolvimentos.

Sinceramente eu pensava que o #remain ganharia. Até porque ontem também foi o memorial da member of parliament assassinada (Jo Cox). No meu caso eu já comecei a pensar em deixar o Reino Unido há algum tempo, por isso acho que já não me afeta muito os planos futuros.

Não tenciono voltar para Portugal mas com estas mudanças no Reino Unido talvez comece a pôr como hipótese. Não sei se me sinto mais segura aqui, ouve-se muito sobre o peso dos imigrantes na economia e como são responsáveis por tudo de mau que se passa no Reino Unido. Quero estar num sítio onde me sinta bem. Já não sei se aqui me sentirei.

Por outro lado, é interessante ouvir as pessoas com quem trabalho (falando apenas dos britânicos): ninguém assumiu ter votado #leave, por isso não tenho uma opinião de alguém a favor da saída no meu local de trabalho. Mas a opinião deles era de descrença também. Muitos falavam de sentirem-se envergonhados e tristes por esta decisão. Por norma as pessoas mais idosas são a favor da saída.

Penso que esta decisão põe tudo em perspetiva no significado da União Europeia a todos os níveis. Isso pode levar e deve de levar outros países a quererem também o referendo, e acredito que o Reino Unido agora é um caso de estudo para os países pro-saída da UE.

De um modo geral, imigrantes... as pessoas estão preocupadas em como a libra vai ficar e que taxas vamos pagar. Confesso que isso me preocupa um pouco também. No entanto, ainda foi só o primeiro dia. Muita coisa ainda tem de ser desenvolvida. Acho que é um pouco isso".


Tatiana Bond, portuguesa a residir em Paignton, Sul de Inglaterra

"Confesso que o resultado não me chocou. A zona de Torbay onde vivo teve 63% dos votos para sair e isso notou-se nas conversas dos últimos tempos.

Naturalmente tenho muita pena que os britânicos tenham votado desta forma principalmente porque penso que as pessoas acabaram por votar pelos motivos errados. Dentro do próprio Reino Unido há fragmentação porque a Escócia e a Irlanda do Norte não estão satisfeitas com este resultado.

A nossa vida ficou de pernas para o ar porque os planos que tínhamos provavelmente não vão ser concretizáveis. O meu marido é britânico e os meus filhos têm dupla nacionalidade e temos muito receio que a sua liberdade e biculturalidade esteja comprometida, onde quer que seja que escolhamos viver.

Penso que a UE vai querer fazer do Reino Unido um exemplo para deter outros países de sair também e isso vai refletir-se no modo como vão lidar com os 2,9 milhões de europeus a trabalhar aqui.

Não acredito que nos vão deportar mas só o facto de existir esse debate faz-me sentir o peso deste céu cinzento nas costas. Nunca pensei que os meus filhos fossem crescer num mundo segregado, sempre achei que caminhávamos no sentido oposto. Nos próximos dois anos vamos viver em limbo e depois disso vai ser tempo de fazer algumas das decisões mais importantes e difíceis das nossas vidas".


Alexandre Teixeira, português a residir e a trabalhar no centro de Inglaterra

"O que mais me entristece é a reação dos meus colegas britânicos que votaram maioritariamente a favor do "Remain" e que estão visivelmente desapontados e receosos com este resultado.

Sentem-se de certa forma “traídos" pela geração mais velha que lhes embutiu uma decisão cujas consequências serão eles mais a sentir.

De certa forma, e como cidadão português, sinto-me privilegiado por ainda ter a possibilidade de ou permanecer no Reino Unido, ou voltar para qualquer outro pais da UE".


Mafalda Reis, portuguesa residente em Glasgow, Escócia

"Estou na Escócia há 16 meses, residindo atualmente em Glasgow. Aqui foi um dia igual a tantos outros.

Acordei, fui trabalhar na loja onde estou desde novembro e apenas um cliente me falou disto, porque é um “british” a residir em Espanha. De resto, foi um dia igual a todos os outros.

Saí do trabalho e fui tratar do PVG, que e uma espécie de registo criminal cá, para poder fazer voluntariado em algumas associações que trabalham com crianças e em nenhum sítio tive qualquer situação desconfortável.

Se estou com receio... nem por isso, talvez mais cautelosa. Apesar de o Reino Unido ter saído, sinto-me mais segura aqui do que se estivesse em Portugal. E não creio que eles comecem pura e simplesmente a mandar todos os imigrantes embora. Acredito que alguns corram esse risco, mas confio que eles vejam o histórico de cada pessoa antes a mandar embora, porque verdade seja dita, existem muitos imigrantes que vieram para cá aproveitar os benefícios que este país tem. Lembro-me de uma inglesa me ter dito que existem muitos imigrantes da Europa da Leste que estão a receber benefícios pelos filhos que têm, apesar destes estarem no seu país de origem. Não sei até que ponto será verdade, mas é esta a revolta dos britânicos.

Portugal sempre teve boa relação com o Reino Unido mesmo antes da União Europeia, não acho que seja razão para tanto alarmismo. Nunca senti qualquer tipo de descriminação por ser portuguesa, muito pelo contrário, eles adoram o nosso pais.

Agora é esperar para ver, parece que a Escócia vai avançar para novo referendo pela independência, por isso o caminho ainda é longo e as coisas não mudam de um dia para o outro. Li algures que pode durar até dois anos até tudo estar tratado. Não assustem as pessoas".


Ana Margarida Faustino, portuguesa a residir em Liverpool

"Devo começar por dizer que penso que ainda é cedo para fazer previsões sobre o futuro. A única certeza deste referendo seria a incerteza que iria gerar a vitória do Leave.

Em relação ao meu futuro, devo dizer que moro em Liverpool e esta cidade e os seus arredores foram dos poucos councils em que em Inglaterra ganhou o Remain. Ao contrário de muitas opiniões que já li, não me sinto de todo excluída. A realidade que me rodeia não é de contentamento por este resultado nem de sentimento de desconfiança em relação os imigrantes. Não sinto o meu emprego nem a  minha vida aqui em risco.

A única consequências imediata, e que já se sentiu, foi a queda da libra face ao dólar/euro. Mas isso acredito que vá estabilizar.

Sou contra pânicos generalizados e a favor de pensar nas coisas com calma. Irá demorar algum tempo (muito tempo) até se verem consequências práticas na vida dos imigrantes portugueses (e de outros países da EU) no Reino Unido. A situação será com certeza mais complicada para quem não tem emprego certo, mas para quem já cá está há algum tempo, está integrado e fala inglês, suspeito que a única consequência prática será que daqui a um ou dois anos teremos de nos candidatar a um visto de residência permanente como fazem todos os imigrantes de fora da União Europeia. Isso, e as filas nos aeroportos que vão ser mais longas!

No entanto, para além da perspetiva de imigrante, tenho também de pensar nas consequências que traz para todos (nacionais do UK e imigrantes). Afinal, este é o país onde eu escolhi viver, receber ordenado, pagar impostos, ir ao supermercado e receber cuidados de saúde. Nesse sentido as consequências preocupam-me um pouco mais. O primeiro ministro já se demitiu, a Escócia já anunciou um segundo referendo para a independência e os irlandeses pedem um referendo para uma Irlanda unida. Um dos líderes da campanha do Leave já veio retirar um dos maiores argumentos da sua campanha.

Ontem a perspetiva de ganhar o Leave parecia longínqua, mas o que é certo é que ganhou e que agora todos vamos ter de viver com isso. Aqui na região do Merseyside está tudo um pouco incrédulo.

Uma das coisas mais interessantes deste referendo foi como dividiu a população. Politicamente, este é um país bipartidário, mas este referendo causou clivagens sérias dentro de ambos os partidos. Causou também discussão entre jovens e idosos, entre norte e sul e talvez classes sociais e níveis de educação (mas sobre estes dois últimos itens ainda não há números). Causou também discussão entre os eurocéticos que acham que a saída é solução e os eurocéticos que acham que ficar e reformar é o caminho. Não acredito que todos os que votaram Leave são xenófobos nem que todos os que votaram Remain acham que a EU é perfeita.

 Termino como comecei, é muito cedo para fazer previsões e quem o faz só está a especular e isso não ajuda ninguém.

Obrigada".


Ana Ruth Cesário, portuguesa a residir no Sul de Inglaterra

"Hoje acordámos num misto de incredulidade e confirmação das expectativas. Hoje ainda não saí de casa mas pelas reações nas redes sociais pode ver-se que o Reino Unido está mesmo dividido.

Eu moro no Sul de Inglaterra e posso dizer que há semanas que esperava este resultado. Só se via campanha pelo “Leave”. Ontem, na rua, a campanha com pessoas a empunhar cartazes “Leave Europe” continuava. O sistema aqui é muito diferente de Portugal e a campanha continua quase até à mesa de voto.

Tudo se resumiu muito à questão da imigração e a verdade é que Londres é muito diferente do resto do país. E no resto da Inglaterra nota-se muito a ideia de que os estrangeiros vieram piorar as condições de vida locais e isso influenciou muito a tendência de voto. Agora estamos todos na expectativa pois na realidade ninguém sabe o que aí vem".

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