Na concentração que hoje juntou trabalhadores, sindicalistas e representantes do BE à porta da fábrica, a propósito da greve a decorrer nessa empresa entre as 00:00 e as 23:59 de hoje, contra o despedimento coletivo de 41 operários, Arménio Carlos criticou o facto de a poucos metros da corticeira se encontrarem duas carrinhas de intervenção da GNR e respetivos operacionais.

"A GNR está aqui a fazer o quê? Quem a convocou? Veem aqui algum confronto, algum problema de ordem pública?", questionou o secretário-geral da intersindical nacional.

"O que há aqui é cumplicidade entre as forças de segurança e as entidades patronais, porque o Governo, em vez de pôr o Ministério do Trabalho a intervir em questões laborais para evitar um despedimento injustificado, tem o Ministério da Administração Interna a pôr cá a GNR para intimidar os trabalhadores", afirmou.

O protesto e a greve resultam de a Pietec, detida pelo grupo francês Oeneo, ter anunciado que ia dedicar-se exclusivamente à produção de rolhas em cortiça microgranulada e, por isso, extinguir 41 postos de trabalho afetos ao fabrico em macrogranulado, estando recetiva a reintegrar esses 41 operários na nova unidade, sem perda de antiguidade, mas apenas se aceitarem o regime de laboração contínua.

Para Arménio Carlos, despedimento coletivo implica perda de volume de negócios e o que acontece com a Pietec é apenas "chantagem", porque "a empresa anuncia investimentos, prevê mais produção e o que quer é obrigar as pessoas a trabalharem mais tempo, por menos dinheiro, sem direito a vida pessoal e familiar".

O argumento de que acaba a produção de rolhas macrogranuladas e por isso se extingue o posto de trabalho é "uma mentirola" para disfarçar. "Então estas pessoas têm que ser mandadas embora porque não fazem rolhas de microgranulado e, se aceitarem a laboração contínua, já podem ser contratadas logo a seguir para fazerem precisamente essas rolhas de microgranulado?", afirmou o secretário-geral da CGTP.

Para Arménio Carlos, "a questão de fundo é que, se estes operários se mantiverem como estão hoje, o serviço ao sábado ou ao domingo é remunerado como trabalho suplementar, mas, se eles passarem ao regime de laboração contínua, o fim de semana vai ser pago como dia normal – e o que a empresa quer é pagar-lhes menos".

Óscar Santos e Filipe Silva são porta-vozes dos 41 trabalhadores despedidos e afirmam que a mudança, a avaliar por simulações de horários futuros, implicará situações em que "se vai trabalhar quatro fins de semana seguidos ou oito dias consecutivos".

Rejeitam que isso seja necessário: "Isso faz sentido para médicos, polícias e até jornalistas, que não podem controlar quando acontece alguma coisa em que eles são precisos. Mas para fazer rolhas? As rolhas podem muito bem esperar".

Os dois porta-vozes acusam a Pietec de "manipulação" por dois grandes motivos e o primeiro é que a "desculpa de extinguirem os postos das rolhas de macrogranulado é só para enganar, porque os operários já passaram por muitos setores e estão totalmente aptos a também fazer rolhas de microgranulado sem se alterar nada no contrato".

A outra critica é relativa à redistribuição interna do pessoal da fábrica em vésperas do despedimento: "Houve trabalhadores que trabalhavam noutros setores e no dia anterior ao comunicado foram mandados para as secções abrangidas pelo despedimento só para poderem ser mandados para a rua. E muitos deles tinham trabalhos em que tanto tratavam das macrogranuladas como das microgranuladas".

Contactada pela Lusa, fonte oficial do comando distrital de Aveiro da GNR diz que "é habitual [essa força policial] estar nos locais de greve quando a sua intervenção é solicitada" e que "isso não é para intimidar ninguém e sim para zelar pela ordem púbica".

A mesma fonte disse não saber de quem partiu o pedido, mas indicou que, mesmo que o soubesse, "não iria revelá-lo".

A Pietec confirmou ter comunicado a greve à GNR, "sem solicitar nenhum policiamento especial".

Quanto às mudanças na estrutura organizativa dos trabalhadores em vésperas do despedimento, garante: "Todas as situações estão justificadas. Nos casos de funções comuns tanto à produção de macrogranulado como de microgranulado, o despedimento resulta de haver excesso de funcionários para desempenhar funções iguais na nova estrutura organizativa".

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