Se uma das funções do jornalista é transportar os leitores para o palco dos acontecimentos, esta crónica sobre a última sessão do encontro “O homem promotor da igualdade”, que na sexta-feira decorreu, no ISCTE, em Lisboa, foi a forma encontrada de o fazer com a maior honestidade. O evento era sobre o papel da imprensa quando reporta casos de violência. E o que era para ser uma simples notícia acabou por se tornar um murro no estômago.

Antes de avançar, uma nota prévia: sou uma jornalista que antes trabalhou alguns anos no mundo da psicologia, que foi, aliás, a minha primeira formação. Uma mistura de experiências que, ao contrário do que se poderia pensar, às vezes complica a tarefa de olhar para os factos e para as pessoas com as lentes que a leitura jornalística requer.

Mas a empatia é sempre bem-vinda - na psicologia e no jornalismo, no internacional e no local, na economia, na política, no desporto e nas artes, nas relações profissionais e nas interações familiares ou com amigos. A empatia coloca-nos no lugar do outro e ajuda-nos a garantir que não negligenciamos o sentido humano das histórias, mesmo quando a pressão do tempo se impõe.

Na sexta-feira, o que se impôs foi a força dos testemunhos pessoais. Estávamos na última sessão do encontro da Quebrar o Silêncio e o tema era “O impacto dos órgãos de comunicação social e das notícias nas vítimas de violência e nas estruturas de apoio”.

Muitas vezes, aquilo que nos cabe reportar leva-nos até histórias de vida que nos desafiam. Esta não foi a primeira ocasião em que isto aconteceu - nem será a última.

Mas a sessão falava diretamente aos jornalistas. Chamava para o centro da conversa os órgãos de comunicação, e os oradores iam munidos de avisos, orientações e sugestões. Para dificultar a tarefa, do início ao fim da sessão, ouvimos relatos na primeira pessoa de histórias de violência, de abusos, de morte.

Os sucessivos murros no estômago acabaram por gerar uma resposta emocional que optei por não ignorar. Porque não foi fácil ouvir o que todos na sala ouvimos e, no meu caso enquanto jornalista, reforçou a responsabilidade de trazer a reflexão sobre o tema para fora daquelas quatro paredes.

Como é que isto tudo se gere? É o que tento fazer a seguir. Começando com o primeiro murro no estômago.

“Olá, estou aqui porque com doze anos fui testemunha da morte da minha mãe pelas mãos do meu padrasto”.

Foi desta forma que começou a sessão. Assim. Direta, forte, sem hesitações. Ali, firme, de pé, estava Cláudia Rosário, presidente da associação Contra o Femicídio. A ideia era “só” enquadrar o porquê de estar naquele lugar, naquele momento.

Cláudia, hoje com 27 anos, acrescentou que, depois do assassinato da mãe, foi entregue à “irmã mais velha, que também ela era vítima de violência doméstica”. E continuou: “Eu, a minha irmã e as minhas sobrinhas fomos parar a uma casa-abrigo da APAV. No meio disto, saí da casa-abrigo, prossegui os meus estudos, estive sempre a trabalhar em simultâneo porque o apoio familiar era muito pouco”. Ao longo de todo o processo, não teve “qualquer tipo de acompanhamento psicológico”. Tudo isto começou há 15 anos, mas Cláudia afirma, segura e crítica, que as “pessoas continuam desacompanhadas” em Portugal.

Na verdade, vai ainda mais longe e considera que o "Estado é cúmplice por negligência". "Vivemos num país que não previne, não valoriza as vítimas, não atua em tempo útil, não responsabiliza agressores", justifica.

Cláudia quer mudar isto. Em dezembro do ano passado, fundou a Associação de Familiares e Amigas/os de Vítimas de Femicídio. Para já, têm reunido num espaço seguro pessoas que passaram pela mesma situação para que possam “partilhar as experiências que têm em comum”, de forma “a ultrapassarem o processo de luto e a retomarem o controlo das suas vidas”, descreveu. Mas querem mais. No entanto, por agora os recursos ainda não permitem ir mais longe.

“Femicídio: violência contra as mulheres na sua forma mais extrema e fatal”, definiu Cláudia - lembrando que uma mulher que morra posteriormente, mesmo que em consequência das agressões de que foi vítima, oficialmente já não conta para as estatísticas do femicídio. “Temos de usar as palavras certas nos contextos certos. E uma mulher morta é o femicídio”, deixou bem claro.

Neste momento, as perguntas começaram a surgir: querendo informar sobre este assunto, faz sentido recorrer às palavras exatas do testemunho inicial? Será que expõe demasiado a vítima?

Algumas das orientações do Guia de Boas Práticas dos Órgãos de Comunicação Social na Prevenção e Combate à Violência contra as Mulheres e Violência Doméstica, lançado em setembro de 2019:

  • Evitar fatores explicativos individualizados
  • Convidar especialistas na área para elucidar sobre o tema
  • Dar informação rigorosa acerca deste tipo de crime (estatísticas, resultados de estudos científicos, etc.)
  • Evitar culpabilizar as vítimas
  • Evitar desculpabilizar as pessoas agressoras
  • Evitar as descrições pormenorizadas do crime para que não surja o risco de gerar nas pessoas agressoras o efeito de imitação
  • Evitar a espetacularização dos acontecimentos
  • Evitar a construção da notícia como um “incidente”, evitando os aspetos individuais trágicos, e explorando a questão com profundidade
  • Não usar o termo “crime passional”
  • Noticiar pela positiva, fazendo referência a casos de sucesso
  • Privilegiar a perspetiva das pessoas sobreviventes
  • Apresentar casos e testemunhos de vítimas que romperam o ciclo de violência contra as mulheres e doméstica e recuperaram o controlo da sua vida

A Quebrar o Silêncio vai publicar no próximo ano também um guia direcionado especificamente para as questões da violência sexual.

Tudo dúvidas a que as orientações partilhadas pelos profissionais acabaram por dar resposta: numa notícia sobre um caso de violência, é crucial garantir que a vítima que conta a sua história não é exposta sem concordar, nem o faz gratuitamente - isto é, que o testemunho individual é oportunidade para acrescentar algo mais sobre o tipo de violência em questão.

Assegurámo-nos de que isso aconteceria. Primeiro, confirmámos com Cláudia se estava confortável com a partilha do seu testemunho. Assim, palavra por palavra. Sorriu-nos que sim. Depois, recuperámos as sugestões dos profissionais.

Contexto, contexto, contexto

Talvez uma das palavras mais repetidas durante estes dias do encontro. “Há imensa literatura que sugere que os media tratam a violência como sendo episódica. Tendem em focar-se apenas em incidentes isolados. Temos o episódio, não temos o contexto”, explicou na quinta-feira, numa comunicação sobre as “representações mediáticas da violência”, Helena Ferro de Gouveia, jornalista e atual consultora da agência alemã Deutsche Welle Akademie.

Porquê a importância crucial do contexto? Para que não se reforce, na opinião pública, a ideia de que os casos de violência são meros “incidentes”. Existem dinâmicas na sociedade que explicam estas situações, concordaram os vários oradores do painel desta sexta-feira, além de Cláudia Rosário.

Um deles foi Ângelo Fernandes, presidente da Quebrar o Silêncio, associação que apoia homens vítimas de violência sexual. Quando lhe pedimos no final para nos explicitar que tipo de informação em concreto pode ser usada para dar o referido contexto, respondeu com uma comparação: quando surgem no Natal as notícias sobre os acidentes na estrada, por exemplo, nunca se fala de cada desastre como um caso isolado ou um “incidente” inesperado. É feito um enquadramento: quais os comportamentos que dão origem aos acidentes, quanto acidentes já houve nesse ano, quais as estatísticas do ano anterior, etc.

Assim deve ser também nos casos de violência doméstica ou sexual, explicou. Estes enquadram-se, na grande parte das vezes, em fenómenos sociais complexos. E, portanto, segundo Helena Ferro de Gouveia, importa esclarecer sobre as desigualdades nas relações de género que estão na base destes casos, mais do que colocar o foco na vida privada daquelas pessoas em particular.

Importa pedir a especialistas que comentem o crime, em vez de recorrer a “vizinhos e vizinhas” que acabam por traçar um perfil do agressor ou da vítima com base em impressões pessoais e que muitas vezes “desculpabilizam” o ofensor e “descredibilizam a vítima”, lembrou Ângelo Fernandes. Importa ainda recordar as estatísticas que ajudam a dar dimensão ao fenómeno.

No caso da violência doméstica, por exemplo, o Relatório Anual de Segurança Interna, a principal fonte de dados oficiais a nível nacional, indica que houve 25,712 participações em 2018. No ano passado, de 110 homicídios voluntários, 39 aconteceram em contexto de casal, sendo 61% das vítimas mulheres.

“Toda a vida me pus numa caixa e usei uma máscara”

Já passava das 17h30, quando chegou mais um testemunho pessoal que haveria de marcar a tarde com uma forte salva de palmas. Callum Hancock, um britânico lutador de boxe que foi vítima de abuso sexual quando tinha dez anos, partilhou a sua história para as cerca de 70 pessoas que, pregadas às cadeiras naquele auditório do ISCTE, adiavam a ida para fim de semana. Entre elas estava uma mulher que acabou por partilhar uma experiência de abuso sexual enquanto menor, na sequência do comentário ao caso de Callum.

Hoje em dia, Callum faz parte do projeto Survivors Manchester e estava ali com Duncan Craig, presidente desta associação que dá apoio a homens vítimas de abuso sexual e violação. Duncan tem marcado presença nos encontros anuais da Quebrar o Silêncio desde a primeira edição - esta é a terceira.

Este ano veio falar sobre a experiência de quando partilhou a sua história pela primeira vez em direto num programa de televisão no Reino Unido.

“Não estava à espera do que recebi de volta. Muitos sobreviventes vieram ter comigo”, contou, acrescentando: “Não recebi comentários negativos. Nunca recebi tanto amor”.

O facto de ser um lutador de boxe conhecido nos circuitos desse desporto poderia ter impedido Callum de fazer estas revelações. Mas as reações mostram que “as vozes das pessoas criam mudança”. Nos outros e no próprio. “Toda a vida me pus numa caixa e usei uma máscara. Por fim, atirei a máscara ao chão”, assegurou.

A partilha dos casos de violência nos meios de comunicação pode ter este efeito fortalecedor - terapêutico, até - na própria vítima, mas há um outro efeito que importa não negligenciar.

As notícias que ajudam a tirar a máscara e as que deixam as vítimas sem saída

As palavras importam. Quando se diz - caso real - que “um sacerdote teve um filho com uma catequista com quem se envolveu quando esta era menor” e que “o primeiro beijo entre ambos terá acontecido quando a jovem tinha 14 anos”, uma vítima que o ouça questiona-se sobre se “foi violada” ou se se tratou de um mero “envolvimento”, exemplificou Ângelo. Estas descrições tornam mais difícil as vítimas reconhecerem os seus casos como “trauma”, como “crime”.

Já Ângelo se tinha referido ao mesmo na intervenção anterior. Quando mal comunicadas, “as notícias são ativadoras de pensamentos intrusivos e desencadeadoras de crise, aumentam a ansiedade e o mal-estar, e reforçam crenças erradas”.

Mais: se uma vítima reconhece numa notícia uma situação semelhante àquela que viveu e a descrição desvaloriza o crime, isso leva a que a pessoa se sinta culpada e “não procure apoio”. “Estamos a contribuir para a manutenção do silêncio”, insiste.

Este é o peso da responsabilidade que recai sobre os ombros da comunicação social, concordaram todos os oradores presentes naquele painel, que incluía também Margarida Medina Martins, co-fundadora da Associação de Mulheres Contra a Violência (AMVC), organização que existe há 27 anos.

Esta perita em Direitos Humanos levou ao encontro as principais ideias de um estudo australiano sobre “as representações dos media da violência contra mulheres e seus filhos”.

Margarida Medina Martins acabou por resumir alguns dos traços comuns às várias comunicações: a forma como os meios de comunicação social noticiam os casos de violência tem relevância “porque molda a maneira de pensarmos, de consumirmos e de vermos o mundo”; “a linguagem e as imagens usadas moderam as respostas emocionais do público”, de aceitação ou condenação das pessoas envolvidas nos casos; e os mitos e crenças falsas que aparecem nas notícias perpetuam a violência e as atitudes dos agressores.

Às vezes usamos na redação do SAPO24 a expressão “isto é um bocado umbiguismo”. Dizemo-lo quando estamos perante notícias - nossas ou de outros meios - que falam de nós mesmos. Normalmente, a conclusão é de que essa é uma prática a não repetir. Neste caso, acreditámos que a decisão fazia sentido - até porque nos expõe e isso torna-nos mais responsáveis.

A sessão de sexta-feira foi uma constante alternância entre dois mundos: o do rigor dos factos e o das emoções à flor da pele; o da informação pura e dura e o da sensibilidade mais profunda; o das estatísticas e números e o dos testemunhos pessoais. Ouvir e reportar a dor do ser humano merecia, e merece sempre, um exercício desautomatizado.


Contactos que fazem a diferença

Uma das outras recomendações feitas pelos especialistas passou por sugerir à imprensa que disponibilize alguns contactos de apoio, sempre que são publicadas notícias sobre qualquer tipo de violência.

Numa lista que não é exaustiva, estes são alguns dos contactos que podem fazer a diferença:

Este artigo integra um conjunto de publicações realizadas no âmbito do encontro "O homem promotor da igualdade", da associação Quebrar o Silêncio, que se realiza nos dias 14, 15 e 16 de novembro, no ISCTE, em Lisboa.

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