"The Apprentice" é um programa televisivo lançado em 2004 e apresentado até 2015 pelo actual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ficou conhecido pela frase com que afastava os candidatos a empresários: "está despedido".

A frase teve tanto sucesso que ele tentou mesmo registá-la como marca para os seus casinos. O pedido feito à entidade de registo de marcas e patentes dos EUA em Fevereiro de 2004 foi abandonado em Dezembro de 2006.

O actual inquilino da Casa Branca deixou o programa quando se candidatou à presidência dos EUA. Como explicava em Fevereiro a revista Bloomberg, "poucos dos ricos da vida americana levaram o programa a sério. Parecia mais um passo em direcção à conjunção de dinheiro, fama e vulgaridade, não o início de uma carreira presidencial".

Trump concordava com essa visão. Ele não gostava de "reality shows" por os considerar para as "mentes mais baixas da sociedade" mas achava que o programa o ia mostrar mais "humano" e menos "bárbaro".

O programa obteve algum sucesso doméstico, com 20 milhões de espectadores na primeira emissão. Depois, seguiu-se o declínio para uma média de 7,6 milhões de telespectadores em 2015, que o atirou para a 67ª posição dos programas mais vistos, segundo as audiências medidas pela Nielsen.

O antigo governador da Califórnia e actor Arnold Schwarzenegger assumiu a apresentação do "The New Celebrity Apprentice" em Setembro de 2015, até sair em Março passado, após alguma polémica com o próprio Trump sobre as "fracas" audiências.

Um outro sucesso pode ser medido pelas versões do programa televisivo exibidas em mais de uma dúzia de países e como transformou homens de negócios em políticos - porque isso não ocorreu apenas com Trump.

Qual a razão para este efeito? A Bloomberg sintetizou como "a porta giratória entre o espectáculo e a governação coincide com uma onda de eleitores em todo o mundo que culpam os políticos do 'establishment' por uma série de males, desde baixos salários até à perda de empregos". Assim, o programa "tornou-se uma plataforma para os empresários cultivarem credenciais como 'outsiders' experientes em roda livre para fazerem coisas". Todd Gitlin, da Columbia Journalism School, acrescenta que "a estrela da 'reality TV' cria uma ligação estranhamente íntima com um público que o vê como seu deputado ou representante".

Foi o que sucedeu em vários países, com apresentadores do "The Apprentice" que nem sequer apoiam Trump mas o precederam no aproveitamento mediático para se lançarem na carreira política.

Geórgia: o apresentador banqueiro que foi primeiro-ministro

A versão do programa televisivo intitulava-se "Kandidati" e era apresentado pelo banqueiro Vladimer ("Lado") Gurgenidze, um ano antes de ser nomeado primeiro-ministro do país entre Novembro de 2007 e Outubro de 2008. O vencedor do programa seria empregado no Banco da Geórgia, fundado por Gurgenidze.

"A motivação do presidente em nomear-me à época era eu ser um tecnocrata, não um político", disse à Bloomberg. "Não acho que tenha nada a ver com o programa de TV. Mas, sem dúvida, eu era reconhecido nas ruas em resultado do programa de TV antes do meu período político".

Na sua conta pessoal no LinkedIn, lê-se que regressou à banca e é actualmente presidente executivo do Liberty Bank, entre outros cargos no sector financeiro da ex-república soviética. Segundo a Caucasus Business Week, deverá continuar a liderar este banco até final de 2019.

Finlândia: política pela televisão ou pelos divórcios?

Na Finlândia, Hjallis Harkimo - ou Harry Harkimo - apresentou o "The Apprentice" em 2009 e 2010. Há dois anos, foi eleito membro do parlamento finlandês.

Harkimo, também um homem de negócios mas ligado ao hóquei no gelo (é presidente do conselho de administração da equipa Jokerit), é fã do presidente dos EUA, apesar de o considerar um "personagem dos desenhos animados". Mas, "independentemente das ideias estúpidas de Trump, devemos todos pensar sobre de onde vem a sua popularidade", escreveu em Dezembro passado.

Com uma fortuna avaliada em 300 milhões de dólares, o seu interesse na política parece advir das suas duas anteriores esposas, ambas parlamentares.

Holanda: apresentador casa com vencedora

O divórcio também esteve presente na edição holandesa do programa.

O ex-advogado Bram Moszkowicz já era conhecido do público quando apresentou a primeira versão do "The Apprentice", em 2005. Nascido numa família de advogados (pai e dois irmãos), ele próprio defendeu o político extremista Geert Wilders. Perdeu a licença na advocacia em 2012, acusado de evasão fiscal.

Era tão conhecido na Holanda que o programa usou o nome de "The New Moszkowicz", diz a BBC. "Como Trump, Moszkowicz também esperava liderar o país e manifestou o desejo de ser candidato a primeiro-ministro nas eleições de 2017. Ele tornou-se o líder do partido nacionalista de direita Voor Nederland em Abril de 2015, mas só durou nove meses, após desentendimentos internos sobre o seu empenho na política".

O resultado final do programa acabou por ser algo diferente dos seus congéneres: Moszkowicz acabou por deixar a mulher para se juntar à vencedora, Nienke Hoogervorst.

Brasil: perfeito ou prefeito?

João Doria foi apresentador da versão brasileira do programa no início desta década, antes de ser eleito governador da cidade de São Paulo em Outubro passado com 53% dos votos e ter tomado posse em Janeiro.

Empresário e proprietário no sector da comunicação e marketing, no Grupo Doria, o antigo responsável do turismo do Brasil considera que o programa televisivo o mostrou como um "administrador". Segundo ele, "não sou político, sou um homem de negócios".

A mesma opinião tem Paulo Baiá, sociólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro: "a linha de Doria é a de que não é um político, é do mundo do trabalho".

Doria não é fã de Trump (aliás, apoiou publicamente Hillary Clinton e é admirador do ex-"mayor" de Nova Iorque, Michael Bloomberg) mas, como Trump, nasceu numa família abastada: o pai foi congressista antes de se exilar após o golpe militar de 1964. Também como Trump, afirmou que o vencimento pelo cargo político seria doado a organizações de caridade.

A ideia do marketing está presente nas suas atitudes, mesmo após a eleição, e transformou-se num limpador de ruas em São Paulo para "promover" a sua campanha de "Cidade Linda", dizia o The Guardian.

Tal como Trump para os EUA, afirmou que queria "gerir a capital paulista com mais eficiência, como uma empresa". "Sou gestor e empresário, embora respeite os políticos", disse à BBC, e "não vou começar meu primeiro dia pensando como vou ser reeleito, mas em como serei um bom prefeito".

Com 420 mil seguidores no Twitter e 2,7 milhões no Facebook, ele "tem ainda a sorte de poder contar com a 'cidadania' das empresas", afirmando que "a iniciativa privada já doou mais de 256 milhões de reais [cerca de 73 milhões de euros] em bens e serviços para a cidade". E "garante que não há contrapartidas, 'nem agora, nem no futuro', mas faz propaganda das [empresas] colaboradoras em suas redes sociais".

Há poucos dias, "apresentou-se como um gestor com experiência empresarial e procurou desvincular-se da 'velha política'. Disse que pretende levar para a administração pública princípios de gestão da iniciativa privada", segundo o Folha de São Paulo.

Após os seus primeiros 100 dias, Doria "tem sido apontado como potencial candidato [do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)] às eleições presidenciais de 2018 e, embora prometa 'lealdade' ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), admite que sua popularidade é, hoje, maior que a de seu padrinho político". Isto porque uma sondagem "aponta que 43% dos moradores da cidade de São Paulo aprovam a gestão Doria, o que representa um recorde na comparação com todos os antecessores".

Reino Unido: negócios falhados mas sucessos políticos

Alan Sugar apresenta o programa televisivo desde 2005 e é conhecido do mundo dos negócios por ter fundado a empresa de electrónica Amstrad em 1968, a que se seguiram outras.

Membro da House of Lords desde 2009, foi igualmente nomeado "campeão das empresas", cargo em que foi reconduzido no ano passado com a missão de criar novos negócios.

Com mais de 5,3 milhões de seguidores no Twitter e utilizador também frenético desta rede social, Sugar comparou em Abril de 2016 algumas mensagens de Trump às de Hitler. A divergência entre ambos já vinha de trás, desde pelo menos 2012, quando Trump escreveu no Twitter que sem o seu programa televisivo, Sugar "não seria nada".

O modelo de "The Apprentice" foi modificado por Sugar, com o vencedor de cada temporada a ser contratado para uma das suas empresas ou, mais recentemente, a obter um investimento de quase 300 mil euros do milionário no negócio proposto no "reality show". Mas nem tudo está a correr bem.

Sugar vendeu em Abril passado a sua quota no negócio de caldeiras a gás da ImpraGas ao vencedor do programa em 2015 e agora seu ex-sócio Joseph Valente.

Este mês, foi criticado por Tom Gearing, um concorrente eliminado do programa, ao recusar em 2012 o negócio de gestão de vinhos de qualidade Cult Wines por ser uma "oportunidade arriscada". A empresa tem crescido 50% ao ano desde 2015.

Também este mês, soube-se que a vencedora do programa em 2006, Michelle Dewberry (que se afastou de Sugar 11 meses após o triunfo, quando tinha um contrato de 12 anos), se vai candidatar como independente ao Parlamento britânico nas próximas eleições, a 8 de Junho.

Ela considera-se "uma mulher de negócios - eu sei que precisamos de fazer os negócios funcionarem melhor para o Reino Unido no pós-Brexit. Quero ver mais pessoas comuns na política e vozes mais diversas. Nem todos nos encaixamos nos partidos tradicionais, a política deve ser muito mais 'escolher e misturar'".

Indonésia: o seguidor milionário de Trump

Quando se é parceiro de negócios de Donald Trump e se olha para o seu sucesso eleitoral nos EUA, parece ser fácil querer seguir os seus passos.

Na Indonésia, Hary Tanoesoedibjo fez exactamente isso. No início deste ano, anunciou que "poderia concorrer a presidente".

Hary Tanoe tem projectos turísticos com Trump em Bali e na periferia de Jacarta mas, como disse a Australian Broadcasting Corporation, as suas ambições políticas "significam que há um potencial para que dois líderes mundiais também sejam parceiros de negócios - criando um campo minado de potenciais conflitos de interesse".

Tanoe especificou ter de "limitar a cooperação e interacção" com o presidente norte-americano, apesar de ter "acesso a ele, obviamente".

Como tantos dos apresentadores do "The Apprentice" que passaram para a política, revelou que "se não houver ninguém em que eu acredite que pode resolver os problemas do país, posso tentar concorrer a presidente".

Uma das limitações à sua candidatura é ser cristão num país maioritariamente muçulmano. Mas a sua fortuna - também acumulada nos sectores da comunicação social, mineiro e imobiliário - pode ajudar a eleger o Perindo, o seu "partido das soluções do mercado livre", como lhe chamava a Breitbart News.

Nesta entrevista, dada a um orgão de comunicação social próximo de Trump e ainda antes de este tomar posse, Tanoe diz que concorrerá como "um homem de negócios a trabalhar para expandir a oportunidade económica para todos".

Em Março, declarou à revista Forbes que, "em 10 anos, penso estar a gerir o país". Tal como Trump pegou no slogan de Ronald Reagan "Make America Great Again", Tanoe quer usar o "Make Indonesia Great Again".

Tanoe está a ponderar lançar uma versão do "The Apprentice" para a Indonésia, sendo ele o apresentador. Em vez de usar a frase "You're fired", a despedida dos concorrentes seria com um mais veemente "You're stupid".

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