A estreia da versão “live-action” de "Mulan" estava marcada para março, mas o filme acabou por ser lançado sexta-feira, dia 4 de setembro, após vários adiamentos devido à pandemia de Covid-19.

O filme, dirigido por Niki Caro, custou 200 milhões de dólares e traz à vida real os desenhos animados de 1998, que contam a história de uma mulher chinesa que decide tomar o lugar do pai no exército e lutar pelo seu país.

Parte do filme foi gravado em Xinjiang, o local de alegados abusos aos direitos humanos contra o povo indígena Uighur e outras minorias muçulmanas.

Uma das controvérsias agora conhecida é o facto de os créditos finais de “Mulan” incluírem “agradecimentos especiais” a oito entidades do governo de Xinjiang, incluindo a Secretaria de Segurança Pública de Turpan, uma cidade no este de Xinjiang onde vários campos de re-educação foram identificados.

Segundo a BBC e o The Guardian, julga-se que nesta província estejam cerca de um milhão de pessoas detidas contra a sua vontade, a maioria Uighurs muçulmanos. Ainda de acordo com a BBC, a China diz que os campos de detenção são necessários para melhorar a segurança.

O filme também expressa agradecimentos ao departamento de propaganda do Partido Comunista Chinês em Xinjiang.

O filme estreou em 2020, mas ainda em 2017, Niki Caro, a realizadora de “Mulan” publicou fotografias da capital de Xinjiang (Asia/Urumqi) na rede social Instagram. O ano seguinte é apontado como ano do início da construção dos campos de re-educação em Xinjiang. Na altura, num comentário podia ler-se “Tenha vergonha, #BoycottMulan e fale contra o genocídio Uyghur”.

Hoje, esta publicação “renasceu” devido às várias notícias sobre o filme e tem comentários como “Bom trabalho a não mostrar os campos de concentração” e várias menções ao boicote do filme e à libertação de Xinjiang.

No entanto, Adrian Zenz, especialista em questões sobre a China, partilhou no Twitter um documento que prova que a menção mais recente a estes campos é de agosto de 2013. O documento fala em campos "re-educação" de "determinados grupos" para "erradicar o solo para a propagação de extremismos religiosos”.

Zenz disse à BBC que a Disney é uma “empresa internacional a lucrar na sombra de campos de concentração”.

“A Disney deve divulgar os detalhes sobre as devidas diligêncisa de direitos humanos que realizou - se as houve - antes de tomar a decisão de filmar em Xinjiang, que acordos fez com as autoridades de Xinjiang para fazer as filmagens e que assistência recebeu das autoridades”, disse Yaqiu Wang, investigadora da Human Rights Watch China.

Também Joshua Wong, líder ativista pró-democracia proeminente de Hong Kong e candidato às eleições primárias, se pronunciou: “Isto só piora! Agora, quando se assiste a #Mulan, não só se ‘fecha os olhos’ à brutalidade policial e à injustiça racial (devido ao que os atores principais defendem), está-se também a ser potencialmente cúmplice no encarceramento em massa de Uyghurs muçulmanos.” Wong termina com o apelo ao boicote ao filme com a hashtag #BoycottMulan.

Isto porque, há cerca de um ano, a protagonista chinesa Liu Yifei expressou, na rede social chinesa Weibo, o seu apoio à polícia de Hong Kong, que tem sido acusada de usar força desmedida para travar os protestos pró-democráticos.

Estreia de "Mulan" em streaming 

O filme não chegou a passar pelas salas de cinema do mundo e foi diretamente para os serviços de streaming da Disney Plus, por um preço adicional: 29,99 dólares (25,4€), para além do valor normal da subscrição.

O único país onde "Mulan" figura nos grandes ecrãs dos cinemas é a China, avança o The Wall Street Journal. As salas de cinema chinesas reabriram em julho e o público tem agora a oportunidade de ver o filme.

A decisão de privilegiar o serviço streaming abalou os donos de salas de cinema, bem como os próprios atores. "A decisão de estrear no Disney Plus foi um choque para muitos de nós", disse o ator Jason Scott Lee, que interpreta o principal vilão do filme, acrescentando à Agence France-Presse que a produção foi "feita para ser vista" nas grandes telas.

"No início foi devastador", disse Tzi Ma, que interpreta o pai de Mulan, à AFP, "Mas depois de um dia ou mais, pensei no lado bom... com a Covid-19, as nossas responsabilidades aumentam. Queremos manter todos seguros".

A disponibilização do filme no Disney Plus e não nos cinemas significa arrecadar a totalidade dos lucros, já que não são partilhados com as salas de cinema.

“Estamos a olhar para ‘Mulan’ como um caso isolado em vez de significar um novo modelo de negócio”, afirmou o presidente executivo da Disney, Bob Chapek, na apresentação de resultados da empresa, citado pela Variety.

Com Lusa e AFP

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