Acabaram as férias, e agora? Depois dos dias sem despertador, sem rotinas e sem obrigações, em que o seu dever maior era aproveitar cada minuto de sol e não deixar escapar o senhor das bolas de berlim, eis que a realidade se impõe. Há quem consiga adaptar-se rapidamente, e até veja com bons olhos este regresso à rotina, mas para muitos pode ser um processo difícil, tendo mesmo um impacto negativo no seu estado de espírito. Embora não existam fórmulas milagrosas, há comportamentos, atitudes e até aplicações que podem tornar o período pós-férias menos stressante.

Já ouviu a expressão "depressão pós-férias"? É tipicamente utilizada por quem regressa ao trabalho. Aquilo que se verifica são "sintomas similares aos observados em situações de depressão clínica - tristeza, anedonia, apatia, irritabilidade - mas que tendem a ser transitórios", explica Renata Benavente, psicóloga e membro da direção da Ordem dos Psicólogos.

Catarina Rivero, psicóloga clínica, especialista em Psicoterapia e em Psicologia Comunitária, confirma que a dificuldade em voltar à rotina diária tem, normalmente, uma adaptação de curto-médio prazo. No entanto, se a sintomatologia for prolongada no tempo "poderão sugerir indícios de uma depressão ligeira. Nestes casos, em que esta tristeza ou angústia profunda se mantêm ao longo de meses, poderá ser importante recorrer a um profissional de psicologia", indica.

E cada pessoa, sua sentença. "[Regressar ao trabalho] é, como se costuma dizer, proporcional ao bronze [quanto maior o bronze, pior o regresso]. É sempre doloroso", diz Tânia Ferreira, enfermeira no Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT). E o primeiro dia "é o pior", confessa.

Já para Susana Alves o regresso ao trabalho é sempre motivador. "Não há nada que me apoquente", diz. Para a assistente operacional do CHMT voltar à rotina — que no seu caso implica trabalhar por turnos — é uma mais-valia para o seu bem-estar e para a sua relação familiar.

Voltar a ganhar ritmo

A dificuldade em regressar ao trabalho está muitas vezes associada à quebra da rotina e, claro, à discrepância entre a rotina de férias e a do tempo de trabalho. "Pode sempre custar voltar a uma rotina mais exigente, que nem sempre permite dormir o suficiente ou ter tantos momentos gratificantes. Para muitas pessoas há mesmo um grande descontentamento com a rotina durante o ano, associada ao trabalho e/ou rotinas familiares", explica Catarina Rivero.

A desadaptação pode ser agravada, segundo Renata Benavente, pelo facto de o "número de horas de trabalho, em contexto nacional, ser elevado, e pelo facto de se observar uma tendência para que o trabalhador se mantenha disponível para o exercício da atividade fora do horário de trabalho estabelecido — através de e-mail, contacto telefónico".

Além disso, "muitas pessoas têm um trabalho pelo qual não têm muito entusiasmo, ou mesmo qualquer gosto, quer pelo trabalho em si, quer pelos horários que lhes são exigidos, quer pelo ambiente em que se encontram — em situações de ambientes profissionais tóxicos, pode tornar-se muito desafiante emocionalmente voltar das férias", refere Catarina Rivero.

E os filhos?

Para muitos, o regresso à rotina implica também o retorno à rotina escolar, estando implícito o ato de ir levar os filhos à escola, às atividades, etc. O desgaste pode ser maior nestes casos, pelo que é importante que pais e filhos promovam uma "interação dinâmica, caracterizada pelo facto de se influenciarem mutuamente", diz Renata Benavente, salientando que o estado de espírito dos cuidadores "irá influenciar a adaptação da criança às novas rotinas associadas ao retorno às aulas".

créditos: NUNO VEIGA / LUSA

Tânia Ferreira, enfermeira e mãe de uma menina com 17 meses, que todos os dias têm de a deixar ao cuidado da avó antes de seguir para o trabalho, diz que o "pior" é trabalhar por turnos porque dificulta a coordenação de horários entre pais e filhos, nomeadamente porque os menores têm um horário regular. "Nós [pais que trabalham por turnos], a nível psicológico, andamos num sofrimento porque as rotinas que as outras pessoas têm nós não podemos ter".

Para Ana Violante, também enfermeira e mãe de um menino de 5 anos e uma menina de 10 meses, aliar a rotina laboral e escolar, sobretudo no caso do filho mais velho, é " andar com o tempinho todo contado. Deixar as crianças na creche, ir para o trabalho e trabalhar por turnos implica ter de se gerir tudo com o resto da família para alguém estar a assegurar o cuidado das crianças quando não estou", exemplifica.

Apesar das dificuldades, cabe aos pais influenciar positivamente os filhos. Catarina Rivero defende que se os filhos crescerem "a ouvir os pais a queixarem-se de que têm de ir trabalhar vão interiorizando que trabalhar é uma coisa má ou uma obrigação penosa que os adultos têm. Essa cultura do queixume passa para os miúdos, na forma como olham para a escola. Mostrar algum entusiasmo com o novo ano, novas aprendizagens e desafios, irá ajudá-los a valorizar o seu percurso e a terem maior bem-estar — com ganhos também para os adultos".

Esta é uma ideia que Susana Alves tem sempre presente. Com um 'estado de espírito' renovado, que traz das férias, transmite aos dois filhos, com 12 anos e 4 anos, que a escola é "algo bom". E os resultados estão à vista, diz. Ambos têm gosto em voltar à escola depois do período de descanso.

Adotar comportamentos que transmitam tranquilidade facilita "a comunicação sobre dúvidas, angústias ou inseguranças que as crianças possam sentir, e permite que esta adaptação ocorra com sucesso", acrescenta Renata Benavente.

Regressar ao trabalho sem stress

A 'medida-chave' é a organização. Quer regresse de férias com antecedência ou na véspera de voltar ao trabalho, ter a casa e as tarefas domésticas preparadas ajuda a atenuar o 'choque' do regresso à rotina laboral. Naturalmente, integrar uma equipa agradável, em que exista equidade, salários e benefícios, condições de trabalho, liderança e relações estáveis são pontos que facilitam o processo de adaptação. No entanto, Catarina Rivero deixa algumas sugestões para a construção de uma rotina gratificante fora do tempo de férias, para graúdos e miúdos:

  • Definir objetivos e desafios para a rentrée: criar metas e definir desafios é uma forma de estimular o entusiasmo para o regresso. Se para os mais novos as aprendizagens, os colegas, as atividades extra-curriculares, as compras de novo material escolar são fonte de entusiasmo, tal pode igualmente acontecer com os adultos. Definir objetivos e planos para atividades em família pode também ser muito positivo.
  • Criar ou manter hobbies e não descurar a atividade física: hobbies são uma excelente fonte de bem-estar e de ânimo — jardinagem, dançar, correr, caminhar, pintar ou desenhar, escrever, cantar num coro, tricotar, aprender novos cozinhados e bricolage são alguns exemplos. A investigação sugere que os hobbies e a atividade física estão fortemente associados a maiores níveis de bem-estar.
  • Identificar aquilo que quer mudar: identificar aquilo que está a ser difícil na rotina do dia-a-dia é também fundamental. Sente necessidade de ter tempo para si? Estar com quem gosta? Mais programas em família? Juntar os amigos? Fazer mais programas culturais? Ou ir ver um jogo de futebol com amigos? Perceber o que está ao seu alcance mudar é o primeiro passo.
  • Manter uma vida social gratificante: muitas pessoas sentem-se mais isoladas socialmente durante o ano, pelo que pode valer a pena criar uma agenda social. Planear momentos com amigos e familiares, pessoas cuja companhia aprecia. Seja um almoço com aquele amigo que trabalha perto, ou um piquenique com amigos ao fim de semana, ou receber pessoas queridas para jantar lá em casa. Agendar e planear será sempre fundamental para conseguir concretizar estes planos. Promover os relacionamentos sociais é fundamental neste processo.
  • Dormir horas suficientes: o descanso é essencial e muitas vezes as horas de sono são descuradas. Fazer uma boa gestão do sono (as pessoas variam na necessidade de dormir, mas geralmente precisam entre 7 e 9 horas) é fundamental para o bem-estar. O regresso ao trabalho é também o regresso ao despertador para acordar. A adoção de rotinas de sono deve ser progressiva. Para algumas pessoas pode ser positivo acionar o despertador para a hora de dormir, de modo a garantir o descanso fundamental, quando já não há espaço para aquela sesta que as férias de verão muitas vezes permitem.
  • Planear fins de semana diferentes: as férias podem trazer novas ideias para fins de semana diferentes, seja um passeio mais perto ou fazer uma escapadela em família ou com amigos. Tal poderá ativar o entusiasmo de todos no planeamento e depois, claro, na própria experiência.
  • Planear as férias do próximo ano: começar a sonhar com o próximo período de férias é outra das estratégias que pode ser positiva, mas tendo em conta que vale a pena valorizar todos os momentos do ano, readaptando a rotina do dia-a-dia de modo a que todos os dias sejam gratificantes.

Num mundo cada vez mais tecnológico existem também várias aplicações que prometem facilitar-lhe a vida: seja para organizar as suas tarefas diárias, para gerir os seus rendimentos, para o ajudar a decidir o que fazer para o jantar, para saber onde atestar o depósito do seu veículo ou a que horas chega o próximo autocarro, para acordar relaxado, para ajudar o seu filho a ter os deveres em dia, para ter acesso rápido a todas as suas redes sociais ou até para o ajudar escolher o que vestir no dia seguinte.

São apenas alguns exemplos, um desafio para que procure as ferramentas que melhor servem o seu dia-a-dia e as suas necessidades.

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