Mudar não é fácil. Não é fácil pessoalmente — e não é por acaso que por esta altura do mês de janeiro já terão caído tantas resoluções de ano novo — nem enquanto a sociedade. É um processo que demora tempo e que por vezes encontra na novidade e na diferença obstáculos difíceis de digerir e contornar.

Mudança é provavelmente a palavra sobre a qual gira a noite no Altis Grand Hotel, no número 11 da Rua Castilho em Lisboa, onde este domingo o Partido Socialista montou o quartel-general para acompanhar as eleições legislativas.

Do lado deste jornalista que vos escreve, era difícil mudar o chip da noite autárquica de 26 de setembro de 2021 no Terreiro do Paço onde, contra todas as previsões, a coligação de esquerda, formada por PS e Livre, liderada por Fernando Medina, saiu derrotada pela coligação de direita encabeçada por Carlos Moedas. A certa altura, no início da noite de 30 de janeiro, esta parecia um guião desse outro serão já vivido.

Uma sala longe de estar cheia a poucos minutos da divulgação das sondagens das televisões às 20h00 associada às projeções que aproximavam os maiores partidos, PS e PSD, criavam a ilusão de uma nova surpresa, e até houve também uma manifestação negacionista à porta do hotel. Pouco ou nada fazia prever que os socialistas iriam conseguir a segunda maioria absoluta da história do partido, depois da alcançada por José Sócrates em 2005.

A sensação de déjà vu foi vencida no momento em que se soube que as sondagens da campanha foram atraiçoadas, novamente, pelas bocas das urnas que ditaram que os portugueses querem que o Partido Socialista continue a governar o país. E que em nome da estabilidade que António Costa viria a enfatizar no discurso de vitória, o país tirou lugares no Parlamento à CDU e ao Bloco de Esquerda, parceiros do PS na solução governativa de 2015, liderada por um governo socialista minoritário, para dar a Costa e ao futuro governo a possibilidade de serem senhores do seu próprio caminho sem a possibilidade de cenários como o do chumbo do Orçamento do Estado para 2022 que levou à dissolução da Assembleia da República pelo Presidente da República.

Antes que a sala onde o atual e futuro primeiro-ministro iria discursar viesse a ficar cheia, repleta de figuras da governação socialista, desde ministros a secretários de estado, passando por autarcas, antes que os cânticos dos jovens da Juventude Socialista, de gritos de campanha à Grândola Vila Morena e as suas bandeiras tomassem a sala de assalto, destacava-se um casal que, há já largas horas, quando só as bandeiras e os cartazes tinham lugar nas cadeiras, simplesmente aguardava aquilo que acreditava que viria a acontecer.

Paulo Cunha era uma das poucas pessoas naquela sala que, ainda antes das sondagens serem divulgadas, dizia que o PS iria vencer com maioria absoluta, uma previsão que nasce de uma revelação pessoal que teve durante as semanas de campanha. Tão certo como o destino, Paulo garantia em conversa com outros apoiantes que tinha prometido ir a Fátima a pé com a esposa caso o cenário eleitoral se verificasse.

Paulo e Filipa Cunha partem para Fátima sexta-feira a noite. Mas porquê esta quase devoção ao PS de dois simpatizantes do partido, ali sentados para cantar vitória?

“Estive 27 anos a viver como sem-abrigo, 13 anos agarrado ao álcool. Saí em 2004 das ruas, fui para uma instituição e em 2009 foi António Costa, na altura presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que me entregou a chave da casa onde estou”, conta Paulo Cunha que diz ainda que durante o governo do PSD não conseguiu “ter uma vida estabilizada”, estabilidade essa que conseguiu ganhar quando o PS venceu as eleições de 2015.

“Desde que António Costa foi para primeiro-ministro conseguimos ter uma vida estabilizada e consegui fazer face à despesa do dia-a-dia. Hoje tenho uma vida melhor e tudo se deve à governação de António Costa e dos outros membros do Governo", garante.

Se para Paulo, a estabilidade veio pelo trabalho na área social do executivo de Costa em Lisboa, para Filipa Cunha veio de um segurança que em 2006, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima na Avenida de Berna, aquando da procissão da Nossa Senhora de Fátima, lhe ralhou por estar na fila errada.

“Conhecemo-nos quando estava a fazer um serviço de segurança na igreja da Nossa Senhora de Fátima. Na altura, a minha esposa trazia uma caixa de mensagens e ela estava num sítio onde não devia estar. Ralhei com ela e depois olhe... ao fim de um tempo viemo-nos a reencontrar. Mas tem de ser ela a contar”, diz Paulo entre sorrisos.

“Eu e as outras pessoas tínhamos de ir com uma caixa em representação de cada igreja a que pertencíamos. Eram caixas de mensagens para Fátima. Ele ralhou comigo porque eu estava atrás de um cordão de escuteiros e ele disse-me que eu não estava ao pé das pessoas que tinham as caixas das igrejas para colocar as mensagens junto a Nossa Senhora. Na altura, nem contacto, nem nada. No mesmo ano, a 24 de novembro de 2006, reencontrámo-nos na igreja de S. Domingos. Ele estava a fazer segurança no concerto de Natal. Conversa puxa conversa, quando as pessoas se foram embora só ficámos eu e a minha mãe. No regresso, apanhámos o mesmo táxi e desde que o deixámos no Jardim Constantino até virarmos para a Almirante Reis, fui sempre a olhar para trás, para ele”, conta Filipa.

Alguns cafés e um pedido de casamento depois, onde esteve presente o então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, Filipa reconhece a mudança que a ação da Câmara teve na vida do marido. Primeiro um quarto, através da Comunidade Vida e Paz, e depois uma casa. Uma base para recuperar a vida que o álcool quase lhe roubou, mas a que Paulo se agarrou; com amor.

Hoje, devido a problemas de saúde que não permitem a Filipa ser autónoma, Paulo é, além de marido, um apoio essencial no dia a dia. Deixou de trabalhar para a poder ajudar. E agora vão os dois a Fátima naquela que não é a primeiro peregrinação do casal.

Quando António Costa subiu ao púlpito e disse que “esta foi uma vitória da humildade, da confiança e pela estabilidade” não se estava a referir a Paulo e Filipa. Mas foi assim que sentiram as palavras e, a julgar pelos números que deram a maioria absoluta ao PS, estabilidade terá sido uma palavra decisiva nestas eleições.

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