João, Rute e os filhos Marta, 14 anos, Afonso, oito, e Carmen, cinco, estavam a dar a volta ao mundo num veleiro quando a pandemia provocada pelo novo coronavírus se intrometeu pelo caminho. Partiram de Portugal, em julho, do ano passado e , desde o dia 11 de março, vivem, na marina de Santa Marta, localidade no mar do Caribe, na Colômbia, dentro do barco que tem Domum (casa, em Latim) como nome de registo.

Os cinco e uma comunidade de “15 veleiros de nove nacionalidades diferentes”, todos igualmente confinados, vivem, desde então, naquele espaço vedado, relata, ao telefone com o SAPO24, Rute Gonçalves. Tudo porque as fronteiras e os portos fecharam e não puderam sair do país. A “quarentena” que estavam a ter em alto mar nesta viagem, passa, agora, a ser vivida com o barco fundeado em águas colombianas.

Quando chegaram à Colômbia, mesmo antes de atracarem, aperceberam-se que algo estava diferente desde que tinham saído das Caraíbas, cinco dias antes. A Covid-19 não passava, então, de uma palavra e uma miragem. Nada mais.

“A Guarda-Costeira contactou-nos quando estávamos a uma hora de distância. Autorizaram-nos a ficar ancorados na baía, à entrada da marina, durante a madrugada. De manhã, pediram para fazer uma inspeção a bordo. Quando atracámos, estava um marinheiro de máscaras e luvas à nossa espera. Saltei para ajudar na manobra e o homem ficou em pânico”, relembra. “Fizeram uma inspeção ao barco, um interrogatório sobre os portos por onde tínhamos estado, os delegados do ministério da saúde mediram-nos a temperatura e deram luz verde para dar entrada no país”, descreve.

“Pensámos ficar cinco dias”, conta. “Queríamos ir a Cartagena das Índias e seguir para o Panamá, entre Bocas del Toro e a cidade do Panamá, onde tínhamos encontro marcado com amigos portugueses que iam passar férias, connosco, a bordo”, continua.

Foram a Cartagena, sim, num autocarro de “20 lugares”. Decidiram ir de máscaras. “Usámos umas que temos para lixar o barco. As pessoas olhavam de lado”, sorri.

Regressaram ao barco e a Santa Marta. De repente, “tudo mudou muito depressa”, recupera. “A polícia militar tem a facilidade de colocar as ordens em prática muito rápido. Liguei para a embaixada portuguesa, a 18 de março. Estávamos de barco e a perceber que o país estava a fechar. Já não tínhamos hipótese. Podíamos sair de avião, foi essa a recomendação da embaixada”. A opção foi ficar. “O barco é a nossa casa (Domum)”, solta.

O barco é a casa, a marina, o quintal de onde não saem

Rute volta atrás na história. Em minuto e meio faz o resumo de oito meses de viagem. Desde a saída, a seis de julho de 2019, de Portugal, o primeiro percurso, no Mediterrâneo, a travessia do Atlântico, Canárias, Cabo Verde, a 10 de dezembro, a chegada, na véspera do Natal, à Martinica (Pequenas Antilhas) e o saltitar de ilha em ilha, no total de 12, entre mares de azul-turquesa e de areia branca como a cal.

Sorte, é o substantivo que atira para a conversa. “Se estivéssemos num ilha, nas Caraíbas, que não tinham as mesmas condições que aqui (Colômbia), ou mesmo na Polinésia Francesa, tínhamos sido repatriados para Portugal e tínhamos deixado o barco para trás”, frisa.

Passaram quase dois meses desde que a marina de Santa Marta é a casa de onde não saem. O barco, a divisão onde dormem. “O barco é pequeno (40 m2), a casa é pequena, mas temos um jardim muito grande”, a marina, um espaço onde vivem em segurança. “Temos a armada militar aqui ao nosso lado”, que a tranquiliza, assegura.

Não estão sozinhos. Estão acompanhados de outras famílias, cada qual com a sua história, ali retidos, com viagens interrompidas, proibidos de sair da marina. “15 veleiros e nove nacionalidades, alemãs, ingleses, espanhóis e russos, 11 crianças, dos oito meses aos 14 anos (a minha filha, Marta)”, conforme disse atrás. Agora, com uma achega. “Uns jovens suecos que estavam a fazer a viagem de uma vida, ficaram sem dinheiro, foram repatriados de avião e deixaram aqui o barco”, conta.

“Somos uma família dentro da marina. Partilhamos os espaços e preenchemos os dias. Temos aulas de francês, de ioga, às terças-feiras apanhamos lixo, cinema ao ar livre. Fazemos vida em comunidade, com respeito por cada um”, relata.

Por causa do confinamento imposto no país, Rute, João e os demais velejadores, assim como a restante população, só têm autorização para sair um dia por semana. Idas ao supermercado ou farmácia. “Uma saída determinada pelo número de passaporte e por género. Eu tenho autorização para sair às quintas-feiras. O dia do João é às quartas-feiras”. As crianças, essas, não podem sair de todo para fora da marina.

“Nos supermercados, só entro de máscara, tudo desinfetado e é muito cuidado. Não falta comida, porque há regras e porque não há dinheiro para açambarcamentos”, sublinha. “Deixaram de vender álcool para proteger as mulheres, porque há problemas de alcoolismo, depois levantaram, agora limitam outra vez. Só uma garrafa de vinho”, descreve.

“Vivemos numa bolha, aqui na marina. Rodeados de apartamentos de luxo, que são casas onde vivem estrangeiros que foram embora, mas dois quilómetros para dentro é a miséria”, atenta. A localidade vive do turismo. “Diria que 90% da população. Faziam tudo na rua. Até a depilação”, ri. “Essa gente desapareceu”, comenta.

Atentos, a comunidade náutica decidiu ajudar uma população que ficou, entretanto, sem sustento. “Fomos ao terreno. Dois alemães, que não têm filhos, foram fazer compras, meteram tudo numa carrinha e distribuíram.

A telescola na quarentena

Ao lado de onde estão, de um lado e de outro, têm praias, para onde não podem ir. Não tomam banhos. Com exceção do João que aproveita para mergulhar nos arranjos que tem sido necessário fazer no casco. Outros remendos sucedem-se. O congelador, motor e as velas.

O solo firme a que estão vetados conferiu, no entanto, à família de João e Rute uma janela de oportunidade que, só a espaços, foram tendo no percurso que encetaram à volta do mundo. “Temos internet. E é isso que os agarra. A minha filha mais velha aproveita para falar com amigas. E nós também”, sublinha.

Mas há mais. “Apercebi-me da telescola. Uso esse recurso. E a escola virtual, gratuita. Inscrevi os três filhos, embora um deles só tenha 5 anos. Estou a dar uma folga a mim...”, suspira Rute, que assumiu a pele de professora nesta quarentena familiar sem data de fim à vista, em alto mar, a bordo de um veleiro, à volta do mundo.

Até agora, a nível escolar os dois filhos mais velhos estavam entregues a si mesmos, um programa de estudo doméstico delineado desde que o projeto começou a ganhar forma, em 2018. “O Afonso começou a fazer TPC’s”, ri.

Todos os passos que dão ficam imortalizados nas redes sociais. Um diário de bordo dos tempos modernos no Facebook e no Instagram.

Hoje, 11 de maio, a Colômbia começa a fazer ligeiros levantamentos na sociedade e na economia, mas o isolamento preventivo obrigatório prolonga-se até 25 de maio, data recentemente renovada pelo presidente Iván Duque, já depois da conversa tida.

Ficam na Colômbia, pelo menos, até 30 de maio, dia em que “serão abertas as fronteiras e portos, pelo menos é isso que apontam”, embora com um “se” que depende da abertura de outros portos, de outros países.

Se não fosse este percalço “já estaríamos a atravessar o Pacífico. A época está a fechar e por questões de segurança não será possível”, atenta. Sobre o que lhe espera, deixa no ar. “O Afonso disse que queria ficar aqui até 15 de junho quando faz anos”, sorri.

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