"Há uma insegurança e um medo de que as pessoas da comunidade negra se vão virar para nós e perguntar quem são vocês? Os vossos antepassados iniciaram a comercialização de escravos, vocês não têm o direito de ter uma opinião sobre isto", disse a lusodescendente Amanda DaRosa, durante o segundo fórum sobre racismo organizado pela Coligação Luso-americana da Califórnia (CPAC).

A coligação, juntamente com o Conselho de Liderança Luso-americano (PALCUS) e a Associação San Pablo Holy Ghost, perto da baía de São Francisco, foram as únicas organizações que se pronunciaram a favor do movimento desde que os protestos foram para a rua após a morte do afro-americano George Floyd.

"Há um equívoco, as pessoas não entendem a necessidade do Black Lives Matter", afirmou a lusodescendente Monique Kelley-Valance durante o fórum. Isso deve-se, em parte, ao tabu e ausência de debate. "Não temos este tipo de conversas em que falamos sobre porque é que estas coisas são necessárias".

Rose B. Martins, que também participou, disse que a exposição a outras culturas é importante para desmontar as ideias pré-concebidas que foram ensinadas. "Quando as pessoas compreenderem a base do movimento Black Lives Matter, torna-se muito simples apoiá-lo e ir em frente", afirmou.

Michael Souza, um dos responsáveis da San Pablo Holy Ghost, acrescentou que este movimento "não é uma afirmação política" e que conseguiu atrair pessoas de todos os segmentos, numa "interseccionalidade bem sucedida".

"Não estamos a ver isso na comunidade portuguesa por medo. As pessoas ou não querem ter a conversa ou não sabem como tê-la", afirmou. "Agora é o momento de começar".

Parte da discussão organizada pela CPAC focou-se no passado colonialista de Portugal e nas atitudes que muitos emigrantes levaram para os Estados Unidos nas grandes ondas de emigração das décadas de 50, 60 e 70.

"Temos de reconhecer que Portugal foi uma nação colonizadora e não são apenas os luso-americanos que são racistas, há racismo em Portugal", afirmou Rose B. Martins.

"Muitos luso-americanos nem sequer conhecem a história portuguesa e do mundo em geral. Não conhecem o papel que Portugal teve no racismo e desumanização do povo africano", apontou.

Michael Souza considerou que os portugueses não são críticos da sua própria história e é preciso desconstruir o ponto de partida. "Estamos unicamente posicionados para nos conciliarmos com essa parte da história", salientou.

O fadista David Garcia, também presente na discussão, lembrou que muitos emigrantes portugueses nunca tinham visto um negro, mexicano ou asiático antes de entrarem nos Estados Unidos. A atitude negativa em relação aos afro-americanos "talvez seja por associação à guerra nas colónias, em que lutaram contra os negros em Angola e Moçambique, e isso ficou associado a algo mau".

A homogeneidade nos Açores, de onde saiu a esmagadora maioria dos emigrantes portugueses que foram para a Califórnia, contribuiu para essa mentalidade, segundo Monique Kelley-Valance.

"Muitos portugueses já emigraram sendo racistas, muito porque cresceram numa ilha onde toda a gente se parecia com eles, toda a gente era católica como eles", disse. "A minha mãe tinha 20 anos quando viu um afro-americano pela primeira vez e ficou assustada. Tinha ouvido histórias sobre pessoas de pele escura, que raptavam e coisas assim".

A lusodescendente disse também que mesmo as pessoas que concordam com o Black Lives Matter vão ter receio de o dizer numa Festa ou evento comunitário.

"Os portugueses importam-se muito com o que os outros pensam deles e querem integrar-se, ninguém quer sobressair desta forma", afirmou.

Os intervenientes salientaram que, dada a ligação estreita entre a comunidade e a religião, o progresso pode passar por aqui e pelas organizações baseadas na fé católica. "É incompreensível que não haja uma mensagem de igualdade a vir daí", disse Michael Souza. Rose B. Martins também considerou que "estas conversas deveriam ser endereçadas igualmente nas igrejas".

Apesar de indicar que "o racismo na comunidade luso-americana é quase uma coisa inerente", Amanda DaRosa mostrou-se otimista. "Agora temos uma geração mais informada e a minha esperança é que esta norma possa mudar".

*Por Ana Rita Guerra, da Agência Lusa

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