“Embora a fome no mundo tenha diminuído gradualmente desde 2000, em muitos países o progresso é demasiado lento e a fome continua a ser grave. Além disso, estas regiões são altamente vulneráveis ao agravamento da insegurança alimentar e nutricional causada pela sobreposição de crises sanitárias, económicas e ambientais de 2020″, refere o Índice Global da Fome (IGF) 2020, lançado este mês e que hoje dá o mote para uma conferência ‘online’ sobre esta temática.

Os dados do IGF apontam que em mais de 50 países do mundo os níveis da fome continuam muito elevados e alertam que, embora a Organização das Nações Unidas (ONU) tenha inscrito a erradicação da fome nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, um conjunto de 37 Estados não conseguirá atingir um nível baixo dentro dos próximos 10 anos.

“Foram identificados níveis alarmantes de fome em três países – Chade, Timor-Leste e Madagáscar – com base nos resultados do IGF. Com base noutros dados conhecidos, a fome em níveis alarmantes foi também provisoriamente identificada em mais oito países – Burundi, República Centro Africana, Comores, República Democrática do Congo, Somália, Sudão do Sul, Síria e Iémen”, menciona o documento.

Venezuela, Angola, Moçambique, Índia, Paquistão, Coreia do Norte ou Afeganistão constam entre os 40 países (alguns provisoriamente classificados) onde a fome está classificada como grave.

O IGF classifica e ordena as situações de fome verificadas nos países a partir de uma escala de 100 pontos, em que 0 é a melhor pontuação (sem fome) e 100 é a pior. Na prática, nenhum destes extremos é atingido, existindo assim cinco níveis de fome: baixo, moderado, grave, alarmante e extremamente alarmante.

Para organizar tal escala, o índice tem em conta quatro indicadores: subalimentação, emaciação infantil, raquitismo infantil e mortalidade infantil.

Numa escala global, a fome está atualmente classificada como “moderada”, ao registar uma pontuação de 18,2, menor do que os 28,2 pontos verificados em 2000 e que representavam então um cenário classificado como “grave”.

No entanto, segundo demonstra o relatório, os números mundiais mantêm-se demasiado elevados: quase 690 milhões de pessoas estão subalimentadas; 144 milhões de crianças sofrem de raquitismo (um sinal de subnutrição crónica); 47 milhões de crianças sofrem de emaciação (um sinal de subnutrição aguda) e, em 2018, 5,3 milhões de crianças morreram antes do seu quinto aniversário, em muitos casos como resultado da subnutrição.

Estes números variam amplamente de região para região.

Tanto na África Subsariana como no sul da Ásia, a fome é classificada como “grave”, em parte devido à grande proporção de pessoas subalimentadas e às elevadas taxas de raquitismo infantil.

“Além disso, a África Subsariana tem a taxa de mortalidade infantil mais elevada do mundo, enquanto que o sul da Ásia tem a taxa de emaciação infantil mais elevada do mundo”, acrescenta o documento.

Em contraste, segundo salienta o IGF, os níveis de fome, por exemplo, na Europa e na Ásia Central, na América Latina e Caraíbas ou no norte de África são caracterizados como “baixos” ou “moderados”, embora a fome registe níveis elevados entre certos grupos dentro dos países destas regiões.

Sobre as várias crises que estão a agitar 2020, o IGF avisa que estas estão a agravar as perspetivas para o flagelo da fome, que é, segundo frisa o documento, “o maior fracasso moral e ético da nossa geração”.

“A pandemia da covid-19 e a consequente recessão económica, bem como uma praga maciça de gafanhotos do deserto no Corno de África e outras crises, estão a exacerbar a insegurança alimentar e nutricional de milhões de pessoas, uma vez que estas crises vêm juntar-se à fome existente causada por conflitos, condições climáticas extremas e choques económicos”, alerta o relatório do IGF.

Apesar dos dados apresentados no documento ainda não refletirem o impacto “das catástrofes sobrepostas de 2020″, o IGF antevê que nos “pontos quentes”, onde a insegurança alimentar e a subnutrição já são graves, os atuais acontecimentos irão potenciar os riscos de “crises alimentares agudas” e de “fome crónica no futuro”.

Apesar de destacar que a experiência consolidada nas últimas duas décadas revelou a possibilidade de progressos nesta matéria, o relatório realça que a múltiplas crises que simultaneamente marcam o presente e um futuro próximo exigem “persistência” e um “esforço coletivo”, nomeadamente na reformulação dos sistemas alimentares.

“Neste momento crucial, é necessário agir para reformular os nossos sistemas alimentares para os tornar justos, saudáveis e amigos do ambiente, a fim de enfrentar as crises atuais, evitar a ocorrência de outras crises sanitárias e alimentares, e traçar um trajeto para atingir o patamar da ‘Fome Zero’ até 2030″, conclui.

O IGF, da autoria das organizações Concern Worldwide e Welthungerhilfe, e que inclui a participação de especialistas da Chatham House e do European Centre for Development Policy Management, procura de forma abrangente “medir e rastrear a fome a nível global, regional e nacional”.

Para a edição de 2020 do IGF foram avaliados dados de 132 países.

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