A Assembleia Nacional francesa adotou durante a noite o projeto de lei enviado pelo governo, e decidiu ampliar a aplicação do estado de emergência por seis meses, até janeiro de 2017, como defendia a direita.

Os deputados  aprovaram também o restabelecimento de revistas em carros e bagagens sem autorização judicial, a supressão da redução de penas para casos de terrorismo, e a criação de uma comissão de controlo do estado de emergência, integrada por sete deputados e sete senadores.

O texto, aprovado por 489 votos contra 26, e quatro abstenções, deverá ser debatido no Senado esta quarta-feira.

Correndo o risco de ser apelidado de "fatalista" pelos críticos, o primeiro-ministro Manuel Valls advertiu mais uma vez que haverá "outros atentados" em França e que as pessoas terão que "aprender a viver com a ameaça".

"Embora estas palavras sejam difíceis de pronunciar, é meu dever fazê-lo: haverá outros atentados e mais inocentes mortos", disse Valls aos deputados durante o debate que precedeu a aprovação da medida no Parlamento.

"Não nos devemos acostumar, mas devemos aprender a viver com a ameaça", acrescentou Valls.

O projeto de lei previa uma prorrogação de três meses do estado de emergência, mas um consenso com a oposição acabou por estender a medida por mais seis meses. Este regime, decretado após os atentados de 13 de novembro, facilita as revistas policiais e a prisão domiciliar de suspeitos.

O presidente francês, François Hollande, era favorável à prorrogação deste regime de exceção por até seis meses.

"Quando há um ataque do qual não sabemos se haverá réplicas (...) a minha responsabilidade e a do Parlamento é prorrogar o estado de emergência, por três meses, e estou disposto a ir até três meses mais", disse esta terça-feira numa conferência de imprensa em Lisboa.

Desde o massacre de 14 de julho, em Nice, a oposição de direita continua a atacar o poder. Na segunda-feira, reivindicou uma comissão parlamentar de investigação sobre a tragédia, que deixou 84 mortos e cerca de 300 feridos, 19 dos quais continuavam em estado crítico.

O partido Os Republicanos, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, além de defender o alargamento do estado de emergência por seis meses, propôs um endurecimento das medidas previstas neste contexto.

Não a uma "legislação de exceção"

"O governo não se vai opor à ideia de estender o estado de emergência de maneira razoável", confirmou o secretário de Estado para as Relações com o Parlamento, Jean-Marie Le Guen.

Já o primeiro-ministro, Manuel Valls, recusou com veemência a ideia de instaurar uma "legislação de exceção”, defendendo que a França deve continuar a ser um Estado de direito.

A legislação de exceção provê a possibilidade de revistas administrativas a qualquer hora do dia e da noite, sem a necessidade de autorização judicial, assim como a análise de dados dos computadores e telefones encontrados.

O ataque em Nice é o terceiro assassinato em massa na França desde janeiro de 2015. A nove meses da eleição presidencial, o ataque envenenou o clima político, com a oposição de direita e da extrema direita a acusar o governo socialista não fazer o necessário para combater o terrorismo.

Manuel Valls foi vaiado segunda-feira na cerimónia de homenagem às vítimas no local do massacre, a famosa Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses), à beira do Mediterrâneo.

A tensão é agravada pela aproximação das primárias em novembro da direita, que serão disputadas pelo ex-primeiro-ministro Alain Juppé, favorito, e o ex-presidente Nicolas Sarkozy.

Uma consulta divulgada esta terça-feira reflete o repúdio maciço dos franceses em relação aos principais candidatos. Setenta e três por cento não querem "em hipótese alguma" que François Hollande seja reeleito e 66% não desejam a volta de Sarkozy à Presidência.

Os investigadores confirmaram esta segunda-feira o "caráter premeditado" do atentado, "pensado e preparado" por Mohamed Lahouaiej Boulhel.

Entre os mortos no atentado estão 38 estrangeiros de 19 países, segundo as Relações Exteriores. Trinta eram muçulmanos, a maioria franco-tunisianos, segundo um encarregado da comunidade muçulmana da região de Nice.

Apesar da reivindicação pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI), "nenhum elemento da investigação demonstra até agora a lealdade (e o pertença) de Mohamed Lahouaiej Boulhel à organização terrorista", declarou o procurador de Paris, François Molins.

Em troca, a análise do seu computador mostra que teve um "interesse claro e recente" pelo islão radical, acrescentou Molins.

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