Vai-se tudo juntando à beira da televisão. José Rodrigues dos Santos, que na RTP conduz a emissão, dá a contagem decrescente para o encerramento das urnas nos Açores, o que permite que sejam divulgadas as primeiras projeções dos resultados das legislativas desta noite.

Na sala “Londres” do hotel Altis, ali na rua Castilho, no centro de Lisboa, os apoiantes do Partido Socialista vão guardando a expectativa. À entrada para o hotel, António Costa dizia aos jornalistas que o PS “nunca” estabeleceu como meta a maioria absoluta. “É necessário que a estabilidade exista, qualquer que seja o resultado”, afirmou aos jornalistas, sem gerar esperanças desmesuradas.

20:00. As projeções desenham-se nos ecrãs das várias televisões e o resultado é claro pelos festejos: os socialistas conquistavam mais votos que todos os outros — embora não os suficientes para uma maioria absoluta.

Não importa, é vitória na mesma. E isso mesmo gritam as bocas todas, de punho ao alto. Ana Catarina Mendes fala já numa “claríssima vitória do PS”.

créditos: MARIO CRUZ/LUSA

“Há uma clara vontade dos eleitores de continuarmos com um governo de estabilidade liderado pelo PS. E o PS empenhar-se-á no sentido de que os próximos quatro anos sejam de estabilidade política, social e de progresso em Portugal”, anuncia a secretária-geral adjunta do partido.

E acrescenta: a confirmarem-se as projeções, há ”uma derrota histórica no conjunto do PSD e do CDS”.

Quando ela sai, ali ao lado, no meio das cadeiras de veludo escarlate, vai parando Tiago Brandão Rodrigues. Não quer comentar demasiado as projeções, que são apenas isso — projeções —, mas sublinha que apontam para “uma vitória inequívoca” dos socialistas. e mostram ainda que, por outro lado, “o PPD-PSD e o CDS-PP são os grandes derrotados destas eleições”.

Parece que “os portugueses viram que esta solução governativa liderada pelo PS demonstrou estabilidade e confiança, mas, acima de tudo, a liderança do Partido Socialista, que foi reafirmada por estes resultados”, aponta ao SAPO24.

Ainda é cedo, porém. Agora, "entre todos, temos de esperar serenamente pelos resultados, para podermos, penso eu, celebrar ainda mais e com mais convicção a grande celebração que tivemos aqui às 20h”, diz.

É que, apesar da euforia, o PS continua sem maioria absoluta. Todavia, o até agora ministro da Educação diz que o importante é apenas "ter condições para governar com estabilidade”.

“Nos últimos quatro anos o Partido Socialista não tinha maioria absoluta e pôde dar essa estabilidade aos portugueses", lembra ao SAPO24. “O mais importante é termos estabilidade — os próximos passos irão pertencer acima de tudo aos eleitores, porque foram eles que deram os mandatos aos deputados, mas, depois, também aos órgãos próprios do partido, e, nomeadamente, ao secretário-geral do PS, atual primeiro-ministro", conta.

Questionado sobre qual o partido com que preferia um acordo, Brandão Rodrigues não quer fazer previsões: "poderíamos estar aqui com grande dialética entre nós, com um grande diálogo, mas isso é história conjuntural. Para história estrutural temos de esperar pelos resultados — e, depois, quem de direito terá também de tomar essas opções.”

Sobre os novos partidos, Brandão Rodrigues destaca que a "pluralidade democrática é sempre importante. O facto de quem foi votar hoje ter visto pela primeira vez tantos partidos num boletim de voto é muito significativo, demonstra que, de certa forma, existem cada vez mais portugueses a organizar-se em partidos políticos ou em coligações e isso também demonstra a nossa maturidade democrática."

"Ninguém está a salvo de extremismos", atira. "Temos de trabalhar todos os dias, em conjunto, como sociedade, através do sistema educativo, através do elucidar do que implica termos extremismos — e nomeadamente extrema-direita — nos nossos parlamentos. Basta ver o que aconteceu no passado ou o que acontece no presente nalguns dos sistemas democráticos extremamente consolidados e a que nós tantas vezes nos queremos comparar.”

"É muito importante darmos uma resposta rotunda de que a extrema-direita não tem lugar em Portugal para governar, mas obviamente que quem decide essas questões são os portugueses", diz.

João Gomes não tem dúvidas: “Este homem [António Costa] devolveu-nos tudo!” — todavia, o resultado eleitoral “é escasso, mas bom”.

Veio ao Altis “para apoiar o PS, para apoiar um grande primeiro-ministro: um homem que mudou Portugal, que nos tirou daquele saque dos vencimentos, dos pensionistas e de quem trabalha", conta ao SAPO24, ali no meio do rebuliço do princípio da contagem oficial.

As projeções permitem otimismos, e, por isso ali está, “para fazer mais quatro anos”. “Para vivermos em paz e sossego e sem medo de que amanhã nos voltem ao vencimento”.

Sobre eventuais cenários para garantir a governabilidade, João Gomes diz que "há várias oportunidades — não só o Bloco de Esquerda como o PAN, ou outros de esquerda, que podem dar uma mãozinha ao Costa”. Por ele, tanto faz: "não me importava de que fosse o PCP, o Bloco ou o PAN — gosto deles todos, acho que fizeram um bom trabalho com o Costa e acho que estão lá e que o vão ajudar novamente".

Já o PSD e o CDS-PP “estão a pagar pela própria língua. Foram para a campanha sem programa, a dizer mal... Era Tancos, eram os fogos de Pedrógão... Isso já é história passada. Quando não se tem do que falar, diz-se mal do vizinho. Eles pecaram e o povo condenou-os", teoriza o militante, um dos vários que vieram à rua Castilho celebrar a vitória socialista. "Vão para o carrinho!"

“Não haverá repetição da cena do papel”

A meio da avenida da Liberdade, que rasga de alto a baixo o coração de Lisboa, está feito o obituário: Jerónimo de Sousa anuncia que não há repetição da ‘Geringonça’. A denominada "geringonça" — as posições conjuntas entre PS, BE, PCP e PEV de 2015 — chegou ao seu fim, pois "não haverá repetição da cena do papel", referindo-se à assinatura dos acordos bilaterais há quatro anos.

A CDU, que junta comunistas e ecologistas, recuou nas eleições legislativas deste domingo em percentagem e votos, perdendo deputados em Lisboa, Porto, Setúbal, Braga e Faro, mas prometeu que "a luta continua" pelos "trabalhadores e o povo”.

"Assim que a Assembleia da República abrir, lá estarei, a intervir na defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo. Como os meus camaradas me apoiam nesse objetivo, quem deve ficar preocupado são aqueles que parece que nos querem mandar embora. Este grande coletivo partidário está unido", garantiu o secretário-geral comunista, em resposta aos jornalistas, depois de um longo discurso no centro de trabalho da CDU em Lisboa.

créditos: EPA/JOAO RELVAS

Quem entrasse no edifício, a caminho das 22h, encontrava uma mão cheia de gente de olhos postos numa televisão. Lá, a RTP ia mostrando a contagem, a entrada, deputado a deputado, na Assembleia da República. Em silêncio, quem ali estava ia escutando.

“Não estamos autorizados a falar”, dizem dois jovens da JCP. Sem insistir, ficamos especados à espera de Jerónimo, na sala de imprensa. Ele lá chega e, depois de um falso arranque, culpa dos compromissos publicitários que sempre se intrometem na agenda dos líderes políticos que querem falar.

A noite está a ser pesada para a coligação. O PEV perdeu Heloísa Apolónia, que desde 1995 marcava presença na Assembleia da República, sempre pelo círculo de Setúbal. Desta vez, foi a aposta da CDU em Leiria, círculo em que a coligação (então designada APU) não elege desde 1987 — ficou de fora.

António Costa não está tão certo de que a ‘Geringonça’ tenha acabado. “Os portugueses gostaram da ‘geringonça’ e desejam a continuidade da atual solução política, agora com um PS mais forte”, disse o secretário-geral socialista num vitorioso discurso, que terminou com o hino nacional a ressoar nas paredes do Altis.

O também primeiro-ministro revelou que o partido vai estabelecer contactos com o PAN para “um acordo político no horizonte da legislatura”, assim como com o Livre, que elegeu pela primeira vez um deputado, e “cuja presença no parlamento” o PS entende “como um reforço da solução política que produziu boas políticas e, sobretudo, bons resultados”.

“Vamos procurar junto dos nossos parceiros parlamentares renovar a solução política que os portugueses disseram que querem continuidade”, frisou Costa, realçando que os socialistas vão “empenhar-se, como é seu dever, em garantir a construção das soluções de estabilidade” para os próximos quatro anos.

O dirigente socialista reforçou a ideia de que “a estabilidade política é essencial à credibilidade internacional” de Portugal, acrescentando que é esse “o reforço da confiança que permite o investimento”.

Porta aberta

Pouco depois de Jerónimo começar a falar, Catarina Martins subiu ao púlpito do Teatro Thalia, em Lisboa, quando os resultados do partido estavam ainda longe de estabilizados. A coordenadora do Bloco quis deixar claro que "o PS tem todas as condições para formar Governo" e, sem maioria absoluta, caso precise de apoio parlamentar dos bloquistas, tem duas opções:

"Procurar uma solução de estabilidade que assuma a continuidade da reposição de direitos e rendimentos ao longo da legislatura, e isso deve estar refletido no programa de Governo que vier apresentar, ou realizar negociações ano a ano para cada orçamento. O BE manifesta a sua disponibilidade e, se a primeira não se realizar, estaremos também disponíveis para a negociação caso a caso", garantiu.

Costa, deixou depois o recado: "Quem fixou como objetivo único da sua campanha eleitoral impedir uma maioria absoluta do PS tem responsabilidades acrescidas de agora contribuir para a estabilidade política nos próximos quatro anos”.

"O PCP já disse que o quadro político é diferente e que não está disponível para repetir o que há quatro anos aceitou. Vamos ver se é assim ou se pode evoluir na sua posição. O Bloco de Esquerda disse que pode ser assim, como também poderia ser de forma diferente", observou Costa.

Ou seja, segundo António Costa, "se for possível dessa forma" encontrar estabilidade política, "excelente; se não for possível dessa forma, ter-se-á de encontrar caminho para assegurar a estabilidade".

Mas o secretário-geral do PS deixou ainda mais avisos ao Bloco de Esquerda e ao PCP sobre a possibilidade de estas forças políticas aumentarem o caderno de encargos junto do seu Governo.

"Cada uma assumirá as suas responsabilidades. No exterior, elogiam Portugal por ter garantido quatro anos de estabilidade governativa - uma vantagem que não podemos desperdiçar, porque isso traduz-se em resultados concretos. Tudo faremos para garantir a estabilidade política em Portugal e se os outros não nos acompanharem assumirão as suas responsabilidades", frisou.

Catarina arrancou pouco depois de falar. No Teatro Thalia, nas Laranjeiras, já fora do coração de Lisboa, Mariana Mortágua diz que ninguém falará. Chegámos tarde para ouvir Catarina Martins, a quem estão reservadas as palavras, explica a deputada, eleita por Lisboa.

Aqui no quartel-general do Bloco, o nome de cada deputado eleito é gritado em voz alta, a que se segue uma festa — mais um. Os apoiantes do partido vão fazendo contas, projetando os lugares que hão de segurar na Assembleia da República.

De repente, fala Rui Rio na televisão. Os bloquistas ouvem em silêncio a reação do líder social-democrata. Porém, quando Rio vai dizendo que a “hecatombe” anunciada do PSD não aconteceu, vão soltando gargalhadas.

Rio pode estar do lado dos derrotados, mas deste lado, do lado da ‘Geringonça’, ainda há muito trabalho a ser feito nos bastidores. Costa não tem maioria. Pode juntar-se apenas ao Bloco, ou apenas à CDU — mas com um deles terá de falar, porque apenas a soma do PAN e do Livre não chega para uma parceria à esquerda.

A menos que a esquerda não seja o único caminho. É fazer as contas.

(Artigo atualizado às 21:50 de 08/10 — clarifica a frase de Jerónimo de Sousa: "não haverá repetição da cena do papel")

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