Tudo começa com um artigo do jornal norte-americano ‘The New York Times’, publicado a 5 de outubro. Apesar de ter pouco mais de uma semana, a sua raiz aprofunda o passado, trazendo ao presente  um assunto considerado tabu, uma vez que relata algo que há muito se dizia acontecer por quem privava na indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Weinstein, um dos mais importantes nomes de Hollywood, andou durante décadas a assediar sexualmente atrizes, colaboradoras e funcionárias. Mais: alcançou, durante décadas, uma série de acordos extrajudiciais para pôr termo a denúncias de assédio sexual.

Algumas acusações remontam aos anos 90. Harvey Weinstein, juntamente com o irmão Bob, estava então à frente da Miramax, empresa de produção e distribuição de cinema independente que fundaram no final da década de 70. Em 1993, fariam negócio com a Walt Disney Co., tornando-se parte do poderoso estúdio, ainda que se mantivesse na liderança da empresa que criara com o nome dos pais. E foi durante este período que se acredita que o mongol do cinema chegou a acordo com pelo menos oito mulheres.

Após as notícias dos últimos dias, em que se multiplicaram relatos de vítimas, Weinstein acabou despedido e suspenso pela Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA). O conselho de administração da The Weinstein Company passou o controlo para as mãos do irmão do produtor, Bob Weinstein, e do diretor de operações David Glasser.

Javier Bardem abraça Weinstein na entrega dos Oscars em 2008, pela vitória do filme "Este país não é para velhos". créditos: EPA/Darren Decker

Surgem entretanto mais alegações de atrizes como Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie ou Asia Argento, e que remontam há quase duas décadas. Mas também as de Rosanna Arquette, Mira Sorvino, Romola Garai, Katherine Kendall, Rose McGowan, Emma de Caune, Ashley Judd e Cara Delevingne. Os nomes, esses, vão-se acumulando com o passar das horas, com o passar dos dias. E o escândalo atinge várias gerações de mulheres, de vários locais e de várias nacionalidades. 

Segundo a investigação de dez meses da ‘New Yorker’, 13 mulheres acusam Weinstein de assédio sexual desde a década de 1990 até 2015, com histórias que confirmam as reveladas pelo The New York Times na passada quinta-feira.

Os casos mais graves, porque se trata de violações, são três, onde se inclui a de Argento e da antiga aspirante a atriz Lucia Evans, para além de casos de “toques” ou “avanços sexuais não desejados”, que se podem considerar abusos, e outros de “exibicionismo”.

Diz a agência noticiosa Associated Press, Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow admitiram à publicação internacional ‘The Times’ que Weinstein as teria assediado, levando Jolie a recusar trabalhar com o influente produtor desde a sua participação no filme "Entre Estranhos e Amantes", de 1998.

Três outras mulheres, incluindo a atriz italiana Asia Argento, terão acusado Weinstein de as violar, num artigo colocado 'online' pela revista norte-americana ‘New Yorker’. Contudo, um representante do magnata negou com veemência as alegações, num comunicado dirigido à revista.

Weinstein na gala amfAR, em Nova Iorque, em 2016. créditos: EPA/Andrew Gombert

O discurso de Harvey: "O meu caminho será agora aprender sobre mim e derrotar os meus demónios"

Num comunicado enviado ao Times, Harvey procura explicar-se. “Cheguei à maioridade durante os anos 1960 e 70, quando todas as regras sobre comportamentos e lugares de trabalho eram diferentes. À época, era essa a cultura.”, escreve o produtor.

“Desde então, tenho aprendido que isso não é uma desculpa, seja no escritório - ou fora dele. Para ninguém.”, prossegue.

“Compreendo que a forma como me comportei com colegas no passado causou muita dor e peço sinceras desculpas por causa disso.

Apesar de estar a tentar fazer melhor, sei que ainda tenho um longo caminho pela frente. É esse o meu compromisso. O meu caminho será agora aprender sobre mim e derrotar os meus demónios.”, diz ainda, explicando que está a ser acompanhado por uma equipa de terapeutas. Citando Jay Z - “Não sou o homem que pensava ser e ai de mim que não seja esse homem para os meus filhos” (de 4:44) - e pedindo perdão à comunidade.

“Mas sei que tenho de trabalhar por isso”, escreve o produtor, hoje com 65 anos.

“Perdi a minha mulher e as minhas filhas, que são as coisas que mais amo”, disse Harvey ao Page Six. A imprensa norte-americana explica esta semana que Weinstein foi para uma clínica de reabilitação no Arizona para tratar o seu vício em sexo.

Harvey Weinstein e Georgina Chapman, no festival de Cannes, em 2015. créditos: EPA/Ian Langsdon

O caso está a afetá-lo. A imprensa dos Estados Unidos conta que a filha do produtor teve de telefonar, esta quarta-feira, para a linha de emergência 911 (equivalente ao 112 europeu) para relatar que o pai estava “deprimido” e que apresentava tendências “suicidas”.

Isto foi confirmado pela polícia de Los Angeles, que diz ter recebido uma chamada por causa de uma “altercação” que as autoridades classificaram como “discussão familiar”, sem a ocorrência de delito.

Polícia de Nova Iorque investiga

Esta quinta-feira, a polícia nova-iorquina confirmou que está a investigar uma denúncia de abuso sexual contra Weinstein. O crime terá ocorrido em 2004, mas os treze anos não impedem a investigação, já que neste estado não há limite de prescrição para o delito em causa.

O ‘Daily News’, jornal local, diz que as autoridades estão a investigar as acusações de Lucia Evans, que denunciou Weinstein à New Yorker. “Ele atacou-me”, diz Evans. Na altura, era ainda uma jovem universitária com o sonho de entrar no mundo do cinema. Diz ter sido obrigada a praticar sexo oral no escritório de Weinstein, no bairro de Tribeca.

“Forçou-me a praticar sexo oral nele”, descreve. “Disse várias vezes ‘Não quero fazer isso, pare, não’. Tentei ir embora (...) mas não queria dar-lhe um pontapé ou lutar com ele”.

Outra denúncia chegou em 2015 às mãos das autoridades nova-iorquinas. Ambra Battilana Gutierrez, uma modelo italiana de origem filipina, então com 22 anos, acusou-o de lhe ter apalpado o seio.

No dia seguinte, com a ajuda da polícia, a jovem voltou a encontrar-se com Weinstein. Escondido ia também um gravador que apanhou o produtor a insistir para ser acompanhado por Battilana ao quarto de hotel onde estava hospedado. Sobre o episódio da noite anterior, é possível ouvi-lo dizer, conta a AFP, que “não o [voltará] a fazer”.

Falta de provas. Foi isto que o procurador de Manhattan, Cy Vance, alegou para não apresentar queixa contra Weinstein, explica a mesma fonte.

Segundo a agência Press Association, Weinstein estará também sob investigação no Reino Unido. Foi esta semana, conta a polícia de Merseyside, em Liverpool, que caiu sobre a mesa da polícia no noroeste de Inglaterra, uma queixa sobre um abuso sexual ocorrido em Londres.

A identidade da vítima não é confirmada pela polícia local, que entretanto passou o caso para as mãos da Scotland Yard, a polícia londrina.

Como Weinstein se tornou um problema político

Enquanto a justiça vai trabalhando, as condenações vão chegando. Barack Obama, antigo presidente norte-americano, condenou esta semana os alegados abusos sexuais cometidos por Weinstein. Para Obama, “qualquer homem que humilha e degrada as mulheres desse modo tem de ser condenado e responsabilizado, para além da riqueza ou estatuto”, disse em comunicado conjunto com a mulher, Michelle Obama.

Obama chegou a receber fundos do produtor para a campanha presidencial em Hollywood. Num comunicado, o ex-presidente elogia “a coragem das mulheres que se atreveram a contar estas histórias dolorosas”, e apela à necessidade de “construir uma cultura” para que este tipo de comportamentos “seja menos frequente no futuro”.

As palavras dos Obama juntam-se às da ex-candidata presidencial Hillary Clinton, que no Twitter se declarou “surpreendida e revoltada” pelas revelações sobre o importante contribuinte do Partido Democrático (partido tanto de Obama como de Clinton), sublinhando que o seu comportamento “não pode ser tolerado”.

Sendo Weinstein um importante apoiante do Partido Democrático, os Democratas estão, ainda assim, a ser acusados de demorar demasiado tempo a distanciar-se deste que é um dos seus generosos doadores.

As primeiras notícias saíram a 5 de outubro. E foram precisos cinco dias também para que Hillary Clinton reagisse. “Hillary levou levou cinco minutos para acusar o NRA [associação pró-armamento] após o atentado [de Las Vegas] cometido por um louco, mas cinco dias para denunciar, a contragosto”, Harvey Weinstein pelas agressões sexuais, comentou Kellyanne Conway, assessora do presidente Donald Trump.

“Talvez agora Hollywood pare de dar estúpidas lições de moral”, acrescentou o filho mais velho do presidente norte-americano, Donald Jr.

O Republicanos acusam os democratas de hipocrisia. “É preciso passar das palavras às ações: devolvam todo o dinheiro sujo de Harvey Weinstein”, defende um vídeo divulgado pelo partido.

Alguns senadores Democratas fizeram-no. Pegaram nas doações e foram dá-las a organizações de caridade ou de defesa das mulheres. E mesmo o Partido, que durante anos recebeu centenas de milhões de dólares do produtor, anunciou que quer devolver parte do dinheiro.

Quanto dinheiro deu Weinstein aos democratas? 1,4 milhões de dólares (1,18 milhões de euros) foram entregues pessoalmente pelo produtor a candidatos, comissões democratas e ao próprio partido nos últimos vinte anos. É o que mostram dados do Center for Responsive Politics, citados pela AFP.

Para além deste valor, Harvey Weinstein fez campanhas para angariar centenas de milhares de dólares tanto para Barack Obama como para Hillary Clinton.

David Parfitt, Dianna Gigliotti, Harvey Weinstein, Edward Zwick e Marc Morman após vencerem o Oscar por "Shakespeare in Love", em 1999. créditos: Lusa

Tolerância foi aquilo que a BAFTA não teve com o produtor galardoado com um Óscar pela produção de "A Paixão de Shakespeare" (1998).

Além da suspensão de Weinstein por parte da Academia, conhecida pela sigla BAFTA, da designação original inglesa, vários membros do Partido Trabalhista do Reino Unido assinaram uma carta dirigida à primeira-ministra Theresa May, solicitando que o título honorífico de Excelentíssima Ordem do Império Britânico (CBE), atribuído ao nova-iorquino pela Rainha Isabel II, lhe fosse retirado.

Recorde-se que os dirigentes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas John Bailey e Dwan Hudson consideraram ser "prematuro fazer mais afirmações neste momento" em resposta à má conduta de Harvey Weinstein, assim como à sua posição como membro da Academia. Ainda assim, rejeitaram os indícios de que a instituição de Hollywood tivesse silenciado os casos de abuso sexual, realçando que "os membros [da Academia] apoiam a tolerância (...) o respeito e não o medo".

Ex-presidentes, candidatos, associações… E a mulher. Georgina Chapman, disse à revista People que vai deixar o produtor, classificando como indesculpáveis as ações do marido, ao mesmo tempo que pede privacidade para si e para os dois filhos que tem com Weinstein. O produtor e a fundadora de marca de luxo Marchesa conheceram-se em 2004 e estão casados desde 2007.

Karl Lagerfeld, Diane Kruger e Harvey Weinstein, no leilão de caridade da amfAR, em 2012. créditos: EPA/Ian Langsdon

Tarantino precisa de tempo, Stone fala de justiceiros

São poucos os que saem em defesa de alguém nas condições de Weinstein. Se Quentin Tarantino, que colaborou com ele durante décadas, disse precisar de tempo para reagir - já que está de “coração partido” ao saber o que aconteceu ao amigo de mais de 25 anos -, Oliver Stone foi mais rápido.

O realizador disse esta sexta-feira que Harvey está a ser “condenado por um sistema de justiceiros”. “Sou da teoria de que é preciso esperar até que isso vá a julgamento”, disse a jornalistas na Coreia do Sul. “Se ele infringiu a lei isso virá à tona.”

Hollywood está cheio de “histórias de terror”, mas as acusações contra Weinstein são, diz Stone, por enquanto rumores.

Para perceber por que ninguém disse nada em décadas,  é preciso perceber quem são os irmãos Weinstein. Harvey e o irmão, Bob, eram duas das figuras mais importantes da cena independente nos anos 1990. Distribuíram filmes como “Pulp Fiction”, de Tarantino, e “Sexo, Mentiras de Vídeo”, de Steven Soderbergh.

A Miramax nasceu do nada em 1979, em Buffalo, Nova Iorque. O nome nasce na combinação do primeiro nome dos pais: Miriam e Max. E tinha como objetivo distribuir os filmes independentes que não era considerados viáveis do ponto de vista comercial dos grandes estúdios.

Peter Biskind, que em 2004 escreveu um livro precisamente sobre o crescimento do cinema independente, desenha Weinstein como um homem algo bruto e violento, que, porém, conseguia encantar as pessoas certas em Hollywood, lançando vários filmes vencedores de óscares.

Bem humorado, não tinha pejo em fazer graças com qualquer um. Certa vez, conta Biskind, Harvey falava de alguém que descrevia como “o tipo de gajo a quem tens de segurar a mão enquanto o estás a decepar”.

O livro não fala das histórias de alegados assédios. Todavia, descreve a forma violenta como Harvey Weinstein tratava os empregados — desde atirar mesas, arrancar telefones das paredes, dizer a um subordinado para saltar de uma varanda… É a “Weinstein Way” de que Biskind falava em 2004, na Vanity Fair.

Os rumores que já na altura Biskind dizia existirem em torno da figura eram “um segredo aberto” em Hollywood. Não entraram no livro, porque o livro não era uma biografia, mas sobre cinema independente, justifica o autor.

Para além disso, Weinstein era efetivamente muito poderoso em Hollywood. Biskind recorda a história de estar a fazer um trabalho sobre a Miramax para a ‘Premiere’ e de repente, Harvey ameaçar retirar a publicidade da revista. A história foi abandonada ali.

Outra história que Harvey e Bob tentaram que fosse abandonada foi precisamente a deste livro que agora recordamos. Biskind lembra-se do bastão de baseball que estava num canto da sala. Lembra-se do tom provocador de Harvey. Lembra-se da proposta de escrever outros livros em que a Miramax talvez estivesse interessada. Biskind recusou a oferta e seguiu com o livro.

Para o autor, Weinstein “tornou-se intocável”. “As pessoas tinham medo de dizer algo sobre ele para além de ‘Obrigado, obrigado, Harvey’ na entrega dos óscares”. Eram os tempos do "Paciente Inglês", de "Pulp Fiction", do "O Discurso do Rei", do "O Amor de Shakespeare" ou de "Chicago".

Mas o intocável está agora mais próximo. Para Biskind, a armadura ficou mais frágil com o aparecimento de outros casos semelhantes - Roger Ailes, Bill Cosby, Bill O’Reilly -, mas também com o decrescer da aura dourada decorrente da produção de flops. Outro dos aspetos que Biskind aponta para a diminuição do poder de Harvey Weinstein pode ser a cada vez maior profissionalização do cinema independente.

No texto que escreveu em 2004, Biskind cita Matt Damon com uma fábula. “É a velha história do escorpião e do sapo. O escorpião está na margem do rio e um sapo passa por ele. O escorpião diz, ‘leva-me para o outro lado’, O sapo responde, ‘Não, porque quando chegarmos ao outro lado e tiveres o que queres vais picar-me’. O escorpião responde: ‘Era incapaz de fazer isso. Por favor, peço-te, não consigo nadar. Preciso da tua ajuda’. O sapo concorda por fim, põe o escorpião nas costas e atravessa. Assim que chegam ao outro lado, o escorpião pica o sapo. Enquanto morre, o sapo pergunta ‘Porque fizeste isso?’, o escorpião olha para ele e diz-lhe simplesmente, ‘Porque sou um escorpião. É a minha natureza’. É o mesmo com o Harvey, é a natureza dele”, disse então Matt Damon.

[Com AFP e Lusa]

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