"Agora que compreendemos o interesse histórico da loja, decidimos renovar o contrato de arrendamento, que deveria expirar a 17 de janeiro, e queremos continuar com a Tabacaria Martins como inquilino no futuro", refere a Sublime Argumento (empresa detida por ingleses), numa nota enviada à agência Lusa.

Em causa está uma reconversão do palacete (imóvel classificado) onde a Tabacaria Martins está situada, junto ao Largo de Camões, para ali nascerem seis apartamentos de luxo - de tipologias T3 a T5 -, numa área de construção de 2.454 metros quadrados, segundo o projeto licenciado pela Câmara de Lisboa.

"A Tabacaria Martins é uma das três lojas [além de uma mercearia e de uma pastelaria] que está integrada no Sandomil Palace [nome dado ao projeto]. Essas três lojas fazem parte do belo e histórico palácio que estamos a renovar, em estreita coordenação com a Câmara de Lisboa" e "queremos mantê-las", acrescenta a Sublime Argumento na informação enviada à Lusa, escrita em inglês.

Ana Martins, atual proprietária da tabacaria, faz parte da terceira geração da família que está à frente do estabelecimento e contou à Lusa que quando o prédio em causa foi vendido, no início de 2016, mostrou interesse em continuar naquele local.

"Foi-me sempre dito que não era possível. Esgotadas todas as possibilidades, começámos a dizer às pessoas que tínhamos de fechar", assinalou.

Foi aí que a dona do espaço atingiu o seu "momento de glória", ao perceber a contestação que o possível encerramento gerou junto de clientes e moradores na zona.

Esta manhã, a responsável foi contactada por um representante dos proprietários que lhe disse que "precisavam de conversar", segundo indicou à Lusa.

Entre os contestatários do fecho do estabelecimento estão os moradores Francisco Kessler e João Tabarra, que hoje estiveram a distribuir panfletos junto à tabacaria com a inscrição "Não à expulsão e fecho da Tabacaria Martins. 145 anos da nossa história não são propriedade privado, são vivência coletiva".

Além de residente, Francisco tem uma loja de vinhos no Calhariz e explicou à Lusa que esta foi a forma por si encontrada para sensibilizar as pessoas.

"Os velhotes que aqui vêm [à tabacaria] não têm conta nas redes sociais", exemplificou.

João Tabarra, artista plástico, resolveu associar-se à ação por considerar que "Lisboa está a ficar uma cidade de fachada" já que "está a desaparecer tudo o que é típico".

O processo da Tabacaria Martins está a ser acompanhado pela Câmara de Lisboa.

Em declarações à Lusa, o vice-presidente da autarquia, Duarte Cordeiro, vincou que o município teve um "comportamento adequado" desde o início, pois desde "o licenciamento que se protegeu o espaço da loja".

"Na altura, o [departamento de] Urbanismo preservou as lojas e, em particular, o espaço comercial alusivo à tabacaria", precisou Duarte Cordeiro.

Para justificar o inicial desinteresse do proprietário em renovar o contrato com a Tabacaria Martins, o vice-presidente do município apontou o "desconhecimento sobre o fenómeno de esta ser considerada uma loja histórica".

"Perante esta constatação, houve a consciência do facto e também da intransigência por parte do município contra qualquer alteração no projeto de licenciamento quanto àquele espaço, havendo depois uma disponibilidade no sentido da renovação do contrato", adiantou.

A Tabacaria Martins é um dos espaços que integram o programa municipal "Lojas com História", que prevê a atribuição de apoio financeiro (no âmbito de fundo com uma dotação inicial de 250 mil euros) aos estabelecimentos classificados para intervenções em áreas como a arquitetura e restauro, cultura e economia.

Porém, a definição das regras da candidatura à distinção "Lojas com História" e de acesso ao fundo municipal ainda tem de ser aprovada pela Assembleia Municipal.

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