Paramos onde as palavras não repousam. Suspensos pelo tempo. Vivos e mortos. Ordinários, sem deixar marcas. Subterrâneos encarnados, alheios à realidade, horas, mundo, pessoas. Condenados à liberdade.

Foster fixa o olhar pela janela e suspira, indiferente, às cinzas que marcam as páginas do Moleskine preto, com páginas sem linhas e apontamentos de tinta da mesma cor. A fumaça do cigarro compõe uma tela imaginária de esquemas, tramas, diálogos e turning points. Passa da meia-noite no Phillies. Moe repõe outra xícara de café.

O passado foi um arremedo de intenções. O porvir, excitante. O presente a nos negar e afirmar. Brincar com a elasticidade de nossas possibilidades nos protegeu e nos entregou a fatalidades. Havia chegado a hora de pagarmos a conta, que desde o início sabíamos inafiançável.

A caneta pousa abruptamente sobre o bloco de notas. Foster percebe a companhia de um casal, alienado da rotina do bar. Sussura ao barman: “Você conhece-os?”

Os dois encontram-se todos os dias em torno das cinco, há pelo menos sete meses. Inicialmente, não demonstravam conhecer um ao outro. Sentavam-se em mesas próximas, tomavam café, fumavam, liam jornais, ela apreciava revistas. Comecei a perceber os olhares no primeiro mês de idas ao Phillies. Despediam-se do sítio num intervalo de quinze minutos, invariavelmente.

O escritor sorri pelo canto da boca, o suspiro dissipa a fumaça. Seguro de que os originais seguirão pela manhã ao editor. Sorve outro gole de café.

Linda parou em frente ao espelho, após o banho. Vestida de combinação, pressentiu o desfecho. Devia escolher o melhor no guarda-roupa. Peças para compor as telas da memória que seriam revividas pelos dois. Imagens gastas com o tempo, lembranças desbotadas de uma rotina remota.

Walter trincava os dentes e batia os pés no chão, enquanto esperava por Linda na calçada do Phillies. Às cinco surge de salto doze, vestido vermelho, cabelo ruivo suspenso por um grampo revelando a face direita. Aura de pompa e reverência. O pacto implícito materializava-se.

Pouco falaram, os olhares fixos na bancada. Mistura de perfumes e cigarro, a sombra do chapéu de Walter sobre a bancada. Os dedos finos de Linda recolhendo mais um gole, deixando marcas vermelhas de batom na xícara. Era madrugada quando se olharam pela última vez. Walter retira o chapéu em reverência, Linda sorri. Dedos esbarram-se na bancada de Moe e ela sai. Pela primeira vez, o cavaleiro pede um gin a Moe. Não era momento para reprimir chavões. A cada dose, compartilhava com o barman fragmentos da relação finda, proibida. Momentos de vida que colidiram em meio à notoriedade política e artística de ambos. O bar-gaiola por onde voavam os sonhos impossíveis.

Foster pede a conta e se despede do Phillies após a saída de Walter. Os vencimentos do livro a ser entregue poucas horas depois ao editor, pela manhã, comprovaram-se suficientes para os sete meses dedicados à nova obra.


Texto por Renata FradeHoje, dia 25 de abril, publicamos uma seleção dos textos que resultaram da iniciativa lançada pelo SAPO24 e O Primeiro Capítuloassinados por novos nomes de quem tem na escrita uma forma de expressão. 

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