Dos tumores cerebrais em adultos, o glioblastoma, com uma prevalência na população estimada em um por cada 100.000 habitantes, é o “mais frequente e aquele com pior prognóstico”, devido à capacidade que o tumor tem de invadir o tecido cerebral circundante, tornando a sua remoção por cirurgia “extremamente difícil”, podendo mesmo “invariavelmente reaparecer após cirurgia”, explica o IGC.

De acordo com o instituto, este reaparecimento deve-se ao facto de “as células cancerosas facilmente se misturarem com as células normais do tecido envolvente, dificultando o trabalho do cirurgião quando tenta remover todo o tumor”. Para além disso, o glioblastoma contém em si células ditas ‘estaminais’ do cancro, ou seja, estas têm a capacidade de originar um novo tumor, principalmente quando são “deixadas para trás”.

“A capacidade de invasão deste tipo de tumor é um assunto tão grave que muitos investigadores se dedicam a tentar compreender quais os mecanismos que permitem às células do glioblastoma invadir o tecido cerebral à sua volta”, diz Diogo Castro, investigador que liderou a equipa que realizou o estudo, citado num comunicado do IGC.

Uma molécula que se sabia estar implicada no processo de invasão do glioblastoma chama-se Zeb1. “A Zeb1 pertence a um importante grupo de moléculas reguladoras denominadas ‘fatores de transcrição’. Estes atuam dentro das células da mesma forma que um maestro conduz a sua orquestra, dizendo aos músicos quando devem começar a tocar ou deixar de o fazer. Os ‘fatores de transcrição’ fazem a mesma coisa com os genes”, explica Pedro Rosmaninho, primeiro autor deste estudo e investigador no grupo de Diogo Castro.

De acordo com o comunicado, o investigador do IGC afirma que esta descoberta mostrou como a molécula Zeb1 “desempenha o seu papel dentro das células cancerosas quando permite que estas sejam capazes de invadir os tecidos do cérebro saudáveis à sua volta”, confirmando assim o papel crucial da molécula no glioblastoma.

Os investigadores utilizaram culturas de células criadas a partir de biópsias humanas e bases de dados que continham o perfil genético de centenas de tumores de glioblastoma, de forma a mapear no genoma humano quais os genes que são regulados pela Zeb1.

Essa experiência mostrou que “a molécula orquestra alterações importantes nas propriedades das células cancerosas, desempenhando um duplo papel, ou seja, a sua presença consegue ‘ligar’ ou ‘desligar’ simultaneamente um grande número de genes”. Isto acaba por alterar a interação entre as células cancerosas, conseguindo-se infiltrar no tecido cerebral no qual o tumor se desenvolve.

No comunicado divulgado hoje, Diogo Castro realça a importância desta investigação: “Quanto melhor percebermos como as células do tumor de glioblastoma invadem os tecidos envolventes, mais perto estaremos de um dia encontrarmos terapias eficazes que possam interromper este processo.”

A investigação foi conduzida no Instituto Gulbenkian de Ciência em colaboração com investigadores do Edinger Institute of Neurology (na Alemanha) e da McGill University (no Canadá) e foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), pela Deutsche Forschungsgemeinschaft (Alemanha) e pelo Canadian Institutes of Health (Canadá).

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