“Ronda do Soldadinho” (1969):

Foi em 1967 que José Mário Branco se estreou nos lançamentos, com o EP 'Seis Cantigas de Amigo' (projeto construído a partir de poemas medievais, constando D. Dinis entre os créditos), mas foi com o single “Ronda do Soldadinho/Mãos ao ar!” que levantou ondas. Em França desde 1963 por força da perseguição da PIDE, o cantautor editou este tema que entrou em Portugal clandestinamente e foi motivo de apreensões. Por entre a doçura das cordas e o candor da voz numa canção de embalar, estava uma mensagem clara contra a guerra no Ultramar: “Menino cresceu / Mas não colheu / De semear / Os senhores da terra / O mandam p’rà guerra / Morrer ou matar”.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” (1971):

Corria o ano de 1971 quando José Mário Branco editou o seu primeiro álbum de longa duração, tendo como nome “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades”. Gravado nos Strawberry Studios no Château d'Hérouville, localizado na vila com o mesmo nome, a norte de Paris (onde, por exemplo, Elton John gravou o seu seminal “Goodbye Yellow Brick Road” e onde grande parte de “Low”, de David Bowie, ganhou forma”), o álbum termina com a canção do mesmo nome. Foi num misto de argúcia e erudição que transformou os sonetos de Luís de Camões, publicados a quatro séculos de distância, num manifesto contra o Estado Novo sem nunca precisar de invocá-lo pelo nome. Os destinatários desta canção — construída tendo como base “La Nouvelle Génération”, do seu amigo no exílio Jean Sommer — saberiam sempre que o refrão adicionado aos versos do poeta — “E se todo o mundo é composto de mudança/ troquemos-lhe as voltas, que ainda o dia é uma criança” — era um convite ao engajamento político.

“Grandola Vila Morena” (1971):

Apesar da multiplicidade de canções que deixa, a conversa quanto a José Mário Branco nunca pode focar-se em exclusivo na sua atividade enquanto cantor e compositor e não versar no seu papel enquanto produtor. Foram vários os trabalhos discográficos de qualidade que supervisionou (“Os Sobreviventes”, de Sérgio Godinho, por exemplo), mas o mais importante terá sempre de ser “Cantigas do Maio”, de Zeca Afonso, em 1971. Também ele gravado em Hérouville, foi deste disco que saiu o maior dos hinos de Abril, canção que cantou junto do Aeroporto da Portela em Lisboa quando regressou do exílio, a 30 de abril de 1974 (como é possível ver aqui, a partir dos 8:20 minutos). Para que se entenda a importância de José Mário Branco na composição de "Grândola Vila Morena", foi ele que, baseando-se nas suas estadias na aldeia de Peroguarda, sugeriu a Zeca Afonso dar a estrutura de cante alentejano à canção e a gravar os passos que se ouvem no início do tema.

“A Cantiga é uma Arma” (1974):

Já em Portugal, no rescaldo febril da Revolução e em pleno PREC, José Mário Branco integrou o GAC - Grupo de Acção Cultural, coletivo artístico ao qual também pertenceram vultos da música de intervenção como Fausto Bordalo Dias, Tino Flores e Afonso Dias. E é justamente de intervenção de que este tema se trata, assumindo-se sem pejo como um veículo estético da mensagem política. Replicando o que o cantor já tinha feito em França, junto das comunidades emigrantes, o GAC procurou espalhar a sua mensagem de ideário explicitamente à esquerda junto das classes trabalhadoras, entre fábricas e cooperativas. Porque “canto mole em letra dura, nunca fez revoluções”.

“FMI” (1979-1982):

Se José Mário Branco foi um escultor da palavra, FMI é a sua canção-monumento. Escrita “de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79”, FMI, mas apresentada “oficialmente” no Teatro Aberto em 1982, este magnum-opus do cantautor é um reflexo cristalino do período em que foi escrito, entre as intervenções do Fundo Monetário Internacional em Portugal em 1977 e 1983. Lamento neurótico e torrencial, desabafo com o coração na garganta, texto performativo repleto de pérolas de uma observação astutíssima, são 25 minutos entre a canção folk e o spoken-word de laivo teatral que ficaram para a história. É deste tema que saiu uma das suas mais célebres tiradas: “Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.”

“Ser Solidário” (1982):

Na entrevista que deu ainda neste ano ao SAPO24, José Mário Branco deixou o desabafo de quanto à fraqueza da produção musical atual e do descurar da componente ética da música, o “ato criativo enquanto relação com a comunidade”. Fazendo jus aquela que foi a sua postura enquanto artista ao longo da vida, as suas canções sempre transpareceram essa dimensão, mesmo quando não foram explicitamente políticas. Disso é fino exemplo “Ser Solidário”, tema que se inicia despojado, acompanhado de acordeão, mas que na segunda parte abraça arranjos mais refinados e eletrónicos, denotam a influência da canção francesa. É também uma canção onde o seu ideário socialista se exprime, não diretamente na mensagem, mas no sentimento: “Ser solidário sim, por sobre a morte / Que depois dela só o tempo é forte / E a morte nunca o tempo a redime / Mas sim o amor dos homens que se exprime”. De resto, deste álbum, podiam ser apenas usadas canções para preencher esta seleção.

“1900 (Carta a Anton Tchekhov)” (1990):

Falava-se acima de que “FMI” se apresenta numa dimensão quasi-teatral, e assim o é também porque José Mário Branco teve na dramaturgia uma paixão para lá da música. A sua ligação ao teatro já se tinha manifestado nos tempos de exílio em França, e manteve-se já em Portugal. Depois de uma passagem pelo Teatro da Comuna — onde, em 1978, compôs música para “A Mãe”, e subiu ao palco em “Homem Morto, Homem Posto”, ambas peças de Bertolt Brecht —, José Mário Branco co-fundou, com a sua companheira Manuela de Freitas, o grupo Teatro do Mundo. Foi neste coletivo onde, por exemplo, musicou e participou como autor na peça “O guardião do rio". Dada esta forte ligação ao teatro, não é de espantar que encerre o seu álbum de 1990, “Correspondências” — onde cada canção é escrita como uma epígrafe a alguém — com uma homenagem ao dramaturgo oitocentista russo Anton Tchekhov, criada a partir de um poema de Mário Jorge Bonito.

“Canção dos Torna-Viagem” (2004):

No seu último álbum de originais, já numa fase de menor fulgor de produção, José Mário Branco manteve-se igual a si próprio no que concerniam os seus propósitos criativos, a começar pela capa — o quadro “Resistência”, de Júlio Pomar — e pelo título. “Resistir é Vencer” trata-se do “lema ético” que o cantautor trouxe da sua estadia em Timor-Leste. Esta “Canção dos Torna-Viagem” é quase uma súmula celebratória daquilo que foi a sua carreira, seja pela comparência de inúmeros convidados — Fausto Bordalo Dias assim como vários grupos corais na voz, a sumptuosidade trazida pela Orquestra de Gratz —, seja pela toada lírica, uma radiografia do legado colonial português. O apogeu deste tema, uma teia intricada de canto em cânone, é capaz de deixar os pelos da nuca eriçados ou ouvinte mais empedernido.

"Eu vi este povo a lutar (Confederação)" (2009):

Apesar da sua aversão em tocar ao vivo, José Mário Branco voltou aos palcos para uma espécie de volta olímpica em 2009, juntando-se aos parceiros de décadas Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias para os concertos “Três Cantos”. Atuações onde conjugaram as suas três icónicas vozes para cantar temas de cada um, "Eu vi este povo a lutar (Confederação)" é um tema que se reveste de especial pertinência relevar desses espetáculos, pois foi uma canção criada a partir da música que os três compuseram para o filme "A Confederação", realizado por Luís Galvão Teles em 1977. Aqui interpretada na forma final que foi editada em “Ser Solidário”, assente na propulsão dos bombos e nos rasgos das gaitas, este é um grito de guerra triunfal que ecoa ainda hoje.

“Inquietação” (2019):

A influência do cantautor portuense é imensurável no panorama musical português, como vários contemporâneos e sucessores viriam a constatar. Perante esse legado, sucedem-se não tributos ou homenagens, mas sim agradecimentos, como aquele que se manifestaria no álbum “Um Disco para José Mário Branco”, editado neste ano. Uma das versões — de músicos e projetos tão variados como Ermo, Batida, Primeira Dama ou Peste & Sida —, mais conhecidas que viria a comparecer neste álbum é a de JP Simões para “Inquietação”, uma das canções maiores de José Mário Branco. Entre esta gravação e a de Camané — com quem José Mário Branco viria a colaborar extensamente — é difícil escolher.

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