“Vi as declarações da Santa Sé, através da Nunciatura, à Lusa, e para já ficamos à espera dos próximos passos, dos próximos desenvolvimentos, por parte da entidade legitima, com credibilidade, que depois nos pode orientar sobre como gerir esta situação”, disse José Ramos-Horta, à Lusa, à chegada a Díli, depois de participar na Assembleia Geral da ONU.

“Quero esperar até novos desenvolvimentos por parte da Santa Sé”, reiterou o líder timorense, que em 1996 foi agraciado, ao mesmo tempo que Ximenes Belo, com o Nobel da Paz.

O chefe de Estado referia-se a declarações à Lusa do representante máximo do papa em Timor-Leste, o monsenhor Marco Sprizzi, que na quarta-feira disse que o caso de Ximenes Belo está nas mãos dos órgãos competentes da Santa Sé, sem confirmar se o prelado foi ou não investigado por abusos de menores.

“Pessoalmente não posso nem confirmar nem desmentir porque é uma questão de seriedade da minha parte, visto a competência ser dos meus superiores na Santa Sé”, disse Sprizzi.

“Esta questão deve ser dirigida diretamente à Santa Sé”, referiu, quando questionado sobre a veracidade das denúncias de abusos de menores alegadamente cometidos ao longo de vários anos por Ximenes Belo, hoje a residir em Portugal.

Marco Sprizzi explicou que o caso “está à atenção dos Dicastérios competentes da Santa Sé e da Secretaria de Estado de sua Santidade o Papa Francisco”, numa referência a estruturas que integram a Cúria Romana.

“Eles estão a examinar este artigo e o seu conteúdo e de outros que estão a ser publicados neste momento e a partir disto, qualquer resposta virá diretamente da Santa Sé”, explicou. O assunto está diretamente com o Vaticano e a Santa Sé. A Igreja local e a Nunciatura não têm mais competência direta”, enfatizou.

Na sua edição online, o jornal holandês De Groene Amsterdammer publicou na quarta-feira testemunhos de alegadas vítimas de abusos sexuais, quando eram menores, crimes que terão sido cometidos durante vários anos por Ximenes Belo.

O jornal explica ter ouvido várias vítimas dos crimes, alegadamente cometidos na década de 1980 e 1990, e 20 pessoas com conhecimento do caso, incluindo “individualidades, membros do Governo, políticos, funcionários de organizações da sociedade civil e elementos da Igreja”.

“Mais de metade das pessoas pessoalmente conhecem uma vítima dos abusos e outras têm conhecimento do caso. O De Groene Amsterdammer falou com outras vítimas que recusaram contar a sua história nos media”, refere a jornalista Tjirske Lingsma.

“O Paulo e Roberto”, as duas alegadas vítimas entrevistadas para o artigo — que pediram o anonimato -, “conhecem outras vítimas”, refere o jornal, um dos principais semanários do país.

Marco Sprizzi disse que o jornal holandês foi “correto” ao contactar a Nunciatura a quem colocou várias perguntas que foram “transmitidas da parte da Nunciatura aos competentes Dicastérios da Santa Sé”.

Sprizzi recusou-se a confirmar se foram impostas algumas restrições a Ximenes Belo, nomeadamente o impedimento de visitas a Timor-Leste, confirmando só que “não foi laicizado”.

Os contornos da saída de Ximenes Belo de Timor-Leste, em novembro de 2002, nunca foram totalmente clarificados pelo Vaticano, com o assunto a tornar-se tabu no país.

Outras fontes da igreja em Timor-Leste, ouvidas pela Lusa, explicaram que “nenhuma vítima” denunciou alegados abusos, de forma presencial, tanto na Nunciatura como na Igreja timorense, não havendo informações de qualquer denúncia junto das autoridades civis.

Ainda assim apontam a realização de uma investigação, cujos contornos não são conhecidos.

Em 2020, em declarações à Lusa, um elemento superior da Igreja Católica em Díli, que solicitou o anonimato, escusou-se a revelar se houve ou não uma demissão formal de Ximenes Belo pelo então papa João Paulo II.

A mesma fonte referiu-se, porém, ao que disse serem “instruções” para “ter um perfil baixo, não viajar, não mostrar insígnias episcopais, ter uma atitude modesta”.

Parte do silêncio sobre o Nobel da Paz deve-se, admitiu a mesma fonte, ao facto da postura do Vaticano relativamente a abusos sexuais na Igreja ter mudado com os dois últimos papas, com a adoção de uma política de “tolerância zero”.

“Houve esta progressiva consciencialização da Igreja sobre a gravidade do assunto e sobre a atitude, a reação que a Igreja deve ter para expulsar e corrigir ao máximo possível este crime dentro da igreja, especialmente dentro do clero”, afirmou a mesma fonte.

Na altura, em comunicado, Ximenes Belo anunciou a sua resignação do cargo, alegando problemas de saúde e a necessidade de um longo período de recuperação.

“Estou a sofrer de fadiga mental e física, o que requer um longo período de recuperação”, referiu Ximenes Belo, num comunicado em que informava ter escrito à Santa Sé solicitando a renúncia do cargo de Administrador Apostólico de Díli, função que exercia desde 1983.

A 27 de novembro de 2002 o Vaticano confirmou, através da gazeta “L’Osservatore Romano”, que “o Santo Padre aceitou a renúncia do ofício de Administrador Apostólico ‘Sede vacante et ad nutum Sanctae Sedis’ de Díli (Timor Oriental), apresentada por sua excelência reverendíssima, monsenhor Carlos Felipe Ximenes Belo, bispo titular de Lorium, em conformidade com o cânone 401.2 do Código de Direito Canónico”.

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