“A ideia de criar um cerco medieval à cidade revela um total desconhecimento da vida da região. Só no Hospital de São João, três quartos dos profissionais vêm de fora do Porto e uma percentagem significativa de fora da Área Metropolitana. Isso, só por si, revela que esse alegado cerco sugerido pela Direção-Geral da Saúde iria criar muitos mais problemas do que ajudar ao esforço contra a propagação do vírus”, alertou Manuel Pizarro, também médico e eurodeputado, em declarações à Lusa.

Para o vereador socialista, “a cidade do Porto funciona, em relação a diversos serviços essenciais, com uma interdependência tal dos municípios vizinhos, da Área Metropolitana do Porto (AMP) e da região que esse cerco é uma impossibilidade prática”.

Pizarro junta-se, por isso, às “declarações de indignação” de Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, em resposta às afirmações da diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, sobre a decisão de impor uma cerca sanitária na região do Porto, uma medida que diz estar a ser equacionada e poderá ser tomada hoje.

A Câmara do Porto disse hoje que não aceita o cerco sanitário "absurdo" e "inútil" que está a ser equacionado pelas autoridades de saúde, anunciando deixar de reconhecer autoridade à diretora geral.

Para Pizarro, está em causa, por parte da DGS, “uma visão centralista absurda”.

“Em relação aos serviços essenciais, os hospitais centrais do Porto serão aqueles que mais chamam a atenção relativamente à interdependência entre este concelho e a região, mas há muitos outros”, alerta.

Para Manuel Pizarro, “a partir do momento em que os números mostram um aumento significativo de casos diagnosticados no Porto”, é necessário “refletir sobre essa realidade”.

“Neste momento, nem sabemos se o aumento de casos não resulta apenas de estarmos a fazer bem o que é recomendado, ou seja, testar toda a gente”, avisou.

Para o eurodeputado, poder-se-á questionar as medidas tomadas ou “avaliar se estamos a fazer tudo ao nosso alcance para limitar a propagação”, mas não avançar com uma cerca sanitária.

Dados da Direção-Geral de Saúde (DGS) divulgados hoje, e que se referem a 75% dos casos confirmados, precisam que o Porto é o concelho que regista o maior número de casos de infeção pelo coronavírus SARSCov2 (941), seguida de Lisboa (633 casos), Vila Nova de Gaia (344), Maia (313, Matosinhos (295), Gondomar (276) e Ovar (241).

Os dados da DGS revelados no domingo, atualizados até às 24:00 de sábado e também referentes a 75% dos casos confirmados, indicavam que Lisboa era a cidade que registava o maior número de casos de infeção pelo coronavírus SARSCov2 (594), seguida do Porto (317 casos), Vila Nova de Gaia (351), Maia (296), Matosinhos (294), Gondomar (242) e Braga (208).

Para a Câmara do Porto, a ideia de um cerco sanitário à cidade é “absurda num momento em que a epidemia de covid-19 se encontra generalizada na comunidade em toda a região e país”

A autarquia esclarece que tal medida “não foi pedida pela Câmara do Porto, pela Proteção Civil do Porto ou pela Proteção Civil Distrital”.

Na conferência de imprensa diária para fazer o ponto da situação da pandemia de covid-19 em Portugal, Graça Freitas assegurou a articulação entre as autoridades de saúde e as autoridades municipais desde logo, com a Câmara, a Segurança Social e com a Comissão Municipal de Proteção Civil.

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