Segundo o professor universitário no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) com várias obras publicadas sobre o tema das migrações, “mesmo alguns anos antes da grande crise, antes dos problemas de terrorismo, antes das grandes incertezas dos últimos anos, mesmo na altura em que tudo parecia bem na União Europeia, as migrações nunca receberam grande consenso por parte dos Estados europeus”.

“As migrações são uma daquelas áreas em que tradicionalmente havia divergências, sempre foi atribuído o princípio da subsidiariedade, isto é, cada país resolve os problemas como entender, e aquilo que se encontrou foram entendimentos mínimos, algumas diretivas comunitárias, mas poucas”, explicou o especialista.

“Há muito tempo que sabemos que, ao nível da União Europeia, é extremamente difícil ter uma visão de política comum na área das migrações. Se isto era verdade nos tempos de paz, nos tempos de expansão, ainda é mais verdade nos tempos de conflito e de recessão”, sustentou.

Para João Peixoto, se já antes existiam divergências entre os Estados membros do bloco comunitário, “nos últimos anos, em que as situações se têm complicado, em que os britânicos votaram ‘Brexit’ (saída do Reino Unido da UE), em que o sentimento de insegurança tem vindo a aumentar, em que se assistiu à chamada crise dos refugiados, as divergências tornaram-se muitíssimo maiores”.

“Em parte, isto compreende-se, porque os problemas de cada país são completamente diferentes”, acrescentou.

Um dos oradores da conferência intitulada “Perspectives on Migration: Political Action and Civic Engagement – Portuguese-German Forum” (Perspetivas sobre as Migrações: Ação Política e Compromisso Cívico – Fórum Portugal-Alemanha) que se realiza na segunda-feira em Lisboa, no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, o sociólogo referiu ser “um daqueles que entendem que Portugal e a Alemanha, de entre os países europeus, têm tido uma aproximação correta, tranquila, ao tema das migrações”.

“Eu diria que fazem parte dos bons exemplos. Mas se formos ver as realidades de um e de outro, não têm nada a ver: a Alemanha, em 2015, teve uma pressão migratória enorme, quase um milhão de refugiados que chegou ao país, o que provocou uma alteração política muito significativa nos anos seguintes, com a subida da extrema-direita, e depois, essa abertura que os alemães revelaram em 2015 mudou, passaram a ser menos expansivos e menos abertos do que antes - ora, este tipo de problema, Portugal nunca o teve”, frisou.

“Os problemas que Portugal tem tido nos últimos anos têm que ver com tudo menos com a crise dos refugiados: ‘troika’, recessão, desemprego… Portanto, é normal que as políticas portuguesas e alemãs sejam diferentes, porque os problemas são radicalmente diferentes”, observou.

“Quando digo que, apesar de tudo, ambos os países fazem parte das boas práticas, no caso português, estou à vontade, sou daqueles que têm elogiado a política migratória portuguesa, nós temos tido uma aproximação serena, correta, ao tema das migrações, isto é, não é objeto de disputa política, tem havido um consenso”, defendeu, acrescentando que “todos os observadores estão de acordo nisto: tem havido em Portugal um consenso assinalável no que diz respeito aos principais aspetos da política migratória, portanto há uma certa paz política, chamemos-lhe assim, porque o que aflige os portugueses são outros problemas”.

No caso dos alemães, João Peixoto afirmou “louvar a coragem que eles tiveram em 2015 de serem um dos poucos países europeus que tentaram resolver de uma forma cooperativa o problema dos refugiados”.

“Mas depois as coisas complicaram-se, porque a política doméstica alemã também condicionou as opções políticas. Eles têm um partido de extrema-direita hoje com um peso importante, e não se pode ignorar isso”, comentou.

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