A crise, mais do que colocar em jogo as relações entre Estados, abre caminho para "questões sensíveis como a tolerância e a xenofobia" e "na história europeia temos velhos demónios", alertou Durão Barroso.

"Hoje em dia, existe a impressão de que há uma insensibilidade concreta, que cada um pensa apenas em si, e isso é muito perigoso para o conceito europeu", observou Daniel Cohn-Bendit, deputado europeu durante 20 anos e líder estudantil do Maio de 68 francês.

Segundo Alain Lamassoure, deputado conservador europeu desde 1989 a UE enfrenta a sua crise mais grave porque, pela primeira vez, "os dirigentes nacionais não aplicam as decisões que os próprios tomaram em termos de União". O ex-ministro francês dá como exemplo o plano de divisão dos 160 mil refugiados na UE. Até agora, apenas 642 pessoas foram recolocadas e alguns países do leste europeu contestam o plano na a justiça.

A Hungria, por exemplo, prevê submetê-lo a referendo. "Não só o plano não é aplicado pelos países que votaram contra (e que, no entanto, devem aplicá-lo), como também nem mesmo os países que são a favor o estão a aplicar", destaca Alain Lamassoure, que vê nesta atitude uma "grave violação do direito comunitário".

Estes analistas concordam que a UE está igualmente dividida pela falta de grandes dirigentes. Com exceção de Angela Merkel, que adotou uma política de portas abertas aos migrantes, "todos os outros envolveram-se numa escalada de demagógica, esquecendo que antes de tudo, trata-se de uma tragédia humanitária", afirma Lamassoure. Para Daniel Cohn-Bendit, a chanceler alemã, "tem uma envergadura europeia, os demais são anões políticos".

A única solução

"A crise é muito grave e poderá romper o projeto europeu", alertou o liberal Guy Verhofstadt, ex-primeiro-ministro belga. Nos últimos meses, surgiram políticos que "pensam que podem resolver os problemas ao ouvir respostas apenas por detrás das fronteiras nacionais", assinalou, advertindo para o perigo da queda do espaço Schengen, a zona de livre circulação na Europa, e um dos êxitos mais emblemáticos do bloco europeu.

"No fundo, estamos a dar-nos conta de que a União Europeia é fundamentalmente uma união económica", que pode impor decisões e sanções no âmbito económico, mas que é incapaz de fazê-lo em temas como as migrações, que competem com a soberania nacional, analisa Alain Lamassoure.

"Temos Schengen, mas não temos guardas fronteiriços comuns, nem política comum de asilo, nem política migratória comum", resume Guy Verhofstadt. "Para superar isso, a única solução é dar um passo em frente na integração europeia", assegura. Para Daniel Cohn-Bendit, o caminho para sair deste beco seria "restaurar com energia a solidariedade europeia".

"Seria necessário que a França, a Itália e outros países propusessem um pacto a Merkel, em que os países dispostos a organizar a solidariedade beneficiariam de um plano de investimento e não apenas para os refugiados", afirmou Durão Barroso que, apesar de tudo, é otimista: "como sempre na UE, graças à negociação e ao compromisso, haverá no final uma solução comum".

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