A inflação obrigou o moçambicano de 43 anos a pedalar todos os dias cerca de 90 quilómetros — ida e volta — e carregar quatro cachos de banana na bicicleta, para ter lucro, porque diz que as tarifas dos transportes já subiram muito este ano e estavam a levar-lhe o rendimento.

“O combustível subiu e as tarifas de transporte também, então comecei a ver vantagem em carregar a banana sozinho, de bicicleta”, para o negócio continuar a sustentar a família, disse Adelino Vasco à Lusa, enquanto luta para equilibrar a bicicleta carregada.

Antes recorria ao ‘my love’, carrinhas de caixa aberta usadas para transporte de mercadorias e pessoas na caixa de carga e onde os utentes têm de se abraçar (daí o termo ‘my love’) para não caírem.

O preço para o transporte de um cacho de banana duplicou de 20 para 40 meticais (30 para 60 cêntimos de euro) de Chicanga, interior de Macate, para Chimoio, a capital de Manica, desde que a tarifa de transporte foi agravada em março, devido o aumento do preço dos combustíveis.

Parece pouco dinheiro, mas é o suficiente para desequilibrar as compras essenciais na casa de Adelino.

Em várias cidades moçambicanas a tarifa já foi reajustada, nalguns casos até mais que uma vez, desde o início do ano.

O camponês comprava a banana a um valor médio de 80 meticais (1,22 euros) cada cacho e vendia o lote de três cachos a um preço de 450 meticais (6,84 euros).

No final, integradas as despesas, tinha um lucro de 150 meticais.

Uma boa fração desse lucro passou a ser absorvida pelo aumento do transporte, passando Adelino Vasco a ganhar 90 meticais (1,37 euros) pelo mesmo lote de três cachos de banana.

E do lucro o camponês precisa ainda de pagar a taxa do mercado onde vende.

“É normal usar a minha bicicleta, porque se eu recorrer ao carro, sai caro e não tenho vantagem”, descreve Adelino Vasco.

Não é o único a pensar assim.

Centenas de camponeses e pequenos comerciantes nos distritos de Gondola, Macate e Sussundenga, na província central de Manica, estão a recorrer a bicicletas para escoar e comercializar os produtos agrícolas, sobretudo a banana verde e tangerina.

É uma forma de escapar à alta do preço das tarifas de transporte.

Com um blazer azul a esvoaçar, calças rotas e dobradas pelo joelho, Elias Caerera, um camponês de Chicanga, aproveita o embalo da descida para “ganhar tempo” na acidentada estrada que percorre todas as vezes que leva banana verde para o mercado de Chimoio.

Ao contrário de Adelino Vasco, o camponês colhe a banana da sua própria horta e vende para suprir outras necessidades da sua alargada família.

Pedalando preserva “o lucro”, que deve servir para aquisição de outros produtos cujo preço também está “a disparar”.

“Assim eu posso ganhar um pouco mais”, pedalando na própria bicicleta, diz à Lusa, vincando que a subida do preço de transporte fez recuar os planos de cobrir a sua casa precária com chapas de zinco.

“O preço de ‘chapa’ também subiu muito e já não dá para usar transporte público para carregar a banana. Então, mais vale usar a minha bicicleta” e poupar para outras necessidades, acrescentou.

As bicicletas usadas no transporte da banana verde são, na maioria, de fabrico indiano e de qualidade duvidosa.

Muitos ciclistas improvisam travões e pedais com borrachas de pneus usados, devido a ineficiência e resistência das peças originais.

Enquanto empurra uma bicicleta já empenada de carga, outro vendedor de banana, Dias Farnela, diz que sempre poupou transportando de bicicleta a carga de Boavista (Macate) para vender no mercado de Chimoio, o seu único negócio, para sustentar nove membros da sua família.

“Com a bicicleta é uma vantagem porque poupo os 40 meticais de cada cacho que devo pagar de Chicanga para o mercado”, diz à Lusa.

Na movimentada estrada que liga a cidade de Chimoio ao distrito de Macate a circulação de bicicletas, a maioria sobrecarregadas, supera de longe o número de “my love” que ainda tentam disputar o transporte da banana verde.

A inflação homóloga em Moçambique subiu para 9,31% em maio, o valor mais alto dos últimos quatro anos e sete meses, influenciada pelas pressões nos preços a nível global, nomeadamente com a guerra na Ucrânia.

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