Fazem escalas para tratar dos filhos, têm horários para usar os computadores que têm de servir para toda a família, tentam dividir as tarefas domésticas e, no final, sentem que toda esta organização só reduz um pouco o caos em que vivem desde meados de março, quando as escolas fecharam e começaram a trabalhar em casa. É assim a vida de cinco docentes que falaram com a Lusa.

Elvira Sousa é professora de Português na Escola Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, e tem duas filhas: uma menina de dois anos e outra de sete. Até março, a mais pequena ficava com os avós quando ia dar aulas.

Agora, os avós estão fechados em casa e os Sousa vivem num esforço diário para tentar manter uma certa normalidade.

“Antes, quando estava em casa tinha disponibilidade para elas, mas agora ou estou ao computador ou a olhar para o telemóvel para controlar os e-mails de trabalho. No outro dia, quando me viu ir para o computador a bebé começou a chorar. Não percebe porque é que não lhe dou atenção”, contou à Lusa a docente do 2.º ciclo.

Elvira Sousa sempre levou trabalho para casa, mas quando estava a corrigir testes, preparar aulas ou a ler textos dos seus alunos, o marido ficava com as miúdas. Agora, é impossível. Estão todos a trabalhar. “Na semana passada não conseguia enviar uma simples mensagem aos pais dos alunos, porque estava sempre a ser interrompida e perdia o raciocínio”, desabafou.

Além das aulas, das filhas e do trabalho doméstico, Elvira Sousa é sistematicamente invadida por outra preocupação: o pai tem uma doença oncológica e sair à rua aumenta os riscos de contrair Covid-19.

A professora faz questão de ir às compras para que o vírus não entre em casa dos pais. Mas, muitas vezes, chega tarde: “Sempre foram muito independentes e como não querem dar trabalho, fazem eles as coisas, mas fico muito preocupada”, contou à Lusa, explicando que gostava de poder retribuir mais até “por tudo o que sempre fizeram” por ela.

“Tenho que organizar muito bem o tempo, mas sinto que estou sempre a falhar”, desabafou. É também a falta de tempo que angustia Ana Rita Lourenço, professora numa escola de intervenção prioritária na região de Lisboa, que já se habituou a começar o dia de trabalho sentada na mesa da sala com uma filha de cada lado.

“Não conseguimos esticar o tempo nem temos mais braços”, disse a mãe de três raparigas de 15, 10 e 6 anos. A Beatriz está no 10.º ano, a Francisca no 5.º e a mais pequena no pré-escolar. Todas precisam de apoio. A mais velha é a mais independente, mas por vezes pede conselhos, a do meio “não trabalha sozinha” e a mais pequena “nem sequer consegue estar sentada muito tempo”.

Antes, quando saia de casa podia dedicar-se “a 100% aos alunos”. Agora a escola entrou dentro das quatro paredes da família Lourenço. “É uma loucura, muito difícil gerir os horários de todos”, desabafou Ana Rita Lourenço.

Nesta família de cinco só há um computador e a Beatriz tem aulas síncronas durante toda a manhã, altura que os pais também precisam de trabalhar. A opção é recorrer aos telemóveis.

Também Custódio Ribeiro, docente em Lisboa, com dois filhos, de 8 e 11 anos, está a dar aulas a partir de casa e quando faltam equipamentos não se importa de ser ele a trabalhar pelo telemóvel.

“Antes, quando chegava a casa, ajudava os meus filhos. Agora tenho de estar disponível na plataforma para dar aulas e apoiar os meus miúdos ao mesmo tempo. Cá em casa, decidimos que eu ajudava os miúdos e a minha mulher ficou com o trabalho doméstico”, contou à Lusa o professor do 1.º ciclo.

Mesmo com divisão de tarefas, todos admitem viver num caos, até porque a separação entre vida profissional e vida familiar se esvaneceu.

“Há um ‘stress’, um cansaço físico e psicológico para tentar acompanhar tudo e não falhar”, desabafou Custódio Ribeiro, que também está a trabalhar em casa desde 16 de março, quando todas as escolas foram encerradas pelo Governo para conter a disseminação do novo coronavírus.

Na casa dos Pereira o sentimento é igual, já que é preciso gerir os horários de trabalho com os das duas filhas e ainda com os dos dois cães.

Além das aulas por videoconferência, a professora Joana Pereira, docente num colégio em Oeiras, tem reuniões de coordenação com a direção da escola, com os colegas do 1.º ciclo e ainda com a colega do mesmo ano.

Com uma filha de 2 anos, “que ainda não percebe nada, mas quer atenção”, e outra de três anos e meio “que já tem atividades do pré-escolar”, Joana Pereira olha para esta experiência como uma espécie de desafio, em que cada tarefa é uma peça que tem de encaixar no puzzle.

“Todos os dias temos de fazer um puzzle de horários e de rotinas que, por vezes, acabam por ser alteradas”, contou à Lusa, admitindo que já houve dias em que não conseguiram encaixar o banho das pequenas no puzzle da família.

Para a maioria das famílias com filhos pequenos, esta é uma realidade que se irá manter nos próximos tempos, já que o Governo admitiu apenas a hipótese de reabrir as creches em maio, depois de terminado o atual estado de emergência, além das aulas no 11.º e 12.º ano.

Mas Joana Pereira, que tem duas crianças pequenas ainda não sabe o que fará: “Não sei se terei coragem de as meter na creche porque ainda tenho algum medo”, disse à Lusa, referindo-se ao receio de um possível contágio da covid-19 que já provocou mais de 735 mortos e 20.863 infetados em Portugal.

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