“No Rest for the Wicked”. Expressão (latamente traduzida no título deste texto) de origem bíblica, começou por referir-se ao sofrimento eterno reservado para quem pratica o mal, mas, com a passagem do tempo, passou a referir-se à necessidade de permanente de trabalhar, não obstante o cansaço acumulado.

A frase é parte assente da cultura anglo-saxónica — tanto que até em músicas já resultou — e certamente passará pela cabeça de alguns dos deputados britânicos que terão de voltar a reunir-se em Westminster para uma sessão parlamentar extraordinária da Câmara dos Comuns.

Pois é, o sábado é imemorialmente um dia de descanso, mas não o vai ser para quem (pela enésima vez) vai ter de debater assuntos relacionados com o Brexit, neste caso votar o novo acordo negociado entre o governo do primeiro-ministro, Boris Johnson, e a União Europeia.

A esta “altura do campeonato”, é difícil não ser cético quando se olha para este novo processo. Se o acordo for aprovado, já será um passo verdadeiramente de gigante — seria das poucas vezes que haveria alguma espécie de consenso em Westminster quanto ao Brexit — mas a oposição já mostrou não só a vontade de fincar o pé como também o desejo a forçar Johnson a pedir uma nova extensão do prazo de saída.

O problema é que depois de finalmente ceder quanto à negociação de um novo acordo, a UE não parece ter qualquer interesse em arrastar o processo para depois de 31 de outubro, tendo Jean-Claude Juncker repetido os avisos de que não vão haver mais prorrogações. Ao fim ao cabo, talvez seja isso mesmo o que Johnson quer, tendo repetido que, com acordo ou não, o Reino Unido tem de sair.

O que é certo é que, tal como o universo arranjou forma de coincidir a Greve Geral da Catalunha com o aniversário da morte de Ortega Y Gasset (tal como ontem apontei), esta derradeira-mas-talvez-não-assim-tanto votação vai ocorrer no dia em que se assinalam 274 anos desde que Jonathan Swift, o autor de “Viagens de Gulliver”, pereceu.

Para quem não souber, Swift foi um dos mais implacáveis satiristas e polemistas do seu tempo e que, apesar da sua naturalidade irlandesa, esteve enredado na política inglesa. Imaginemos apenas como o escritor de “Uma Modesta Proposta” — ensaio paradigmático em que sugeriu às famílias pobres irlandesas vender os seus filhos a cidadãos abastados, sendo também uma denúncia da atitude inglesa perante os irlandeses — se teria divertido nestes últimos três anos e picos. Esperem, não precisamos de imaginar — já alguém fez isso por nós.

O que a história nos ensina é que consensos e descansos andam de mãos dadas, isto é, quando alguém nos deixa é quando toda a gente é capaz de colocar as diferenças de parte. Nesse sentido, foi bonito ver como os três grandes deixaram hoje palavras de homenagem a Rui Jordão, lenda do Benfica e do Sporting, mas que também recebeu uma mensagem do FC Porto. A fim de manter alguma imparcialidade, recordemo-lo pelos seus momentos marcantes pela Seleção Nacional, neste caso em concreto, tanto o golo que nos levou ao Euro de 1984 frente à União Soviética, como os dois tentos que assinou numa partida imortal contra a França e que acabou com a vitória gaulesa ao cair do pano.

Terminando, se há quem não possa descansar ao fim-de-semana, tal não significa que o leitor não possa fruir de uns dias de descanso merecidos. Por isso mesmo, eis duas sugestões:

  • Perante os avisos do mau tempo que se vai abater em Portugal, este parece ser um bom dia para atividades indoor. No Porto, começam os concertos do clarinetista Jörg Widmann na Casa da Música. Em Lisboa, a Galeria Underdogs acaba de receber uma nova exposição da ilustradora Wasted Rita e o nome da mostra não deixa dúvidas quanto ao propósito da artista: “And now for something completely different: a show that features at least one female artist”.
  • Se não quiser sair mesmo de casa, está com sorte. Amanhã é o dia internacional do Gin Tónico. Por isso, faça um esforço e vá ao supermercado (mesmo de pijama, ninguém julga) munir-se dos ingredientes e aprecie este cocktail no doce conforto do lar. Porque até os ímpios merecem descanso.

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